A vida nua de Glenda

Glen ou Glenda?, dirigido por Edward Wood (1924–1978) – diretor de produções de terror, ficção científica e erotismo de baixo orçamento –, é um filme estadunidense de 1953 que suscita diversas questões à discussão contemporânea sobre as experiências trans Male to Female (MtF). Por trans, aqui, definimos qualquer expressão de gênero que não corresponde ao papel social atribuído ao gênero designado no nascimento. Necessário salientar … Continuar lendo A vida nua de Glenda

Minhas performances secretas

ou, O texto enquanto performance Farei a seguir algo que julgo detestável na arte contemporânea: propor uma obra, no caso uma performance, e explicá-la teoricamente a fim de sustentar seu direito de existência. Mais do que isso, as performances apenas tomarão existência – no sentido de adentrarem no mundo coletivo e, portanto, saírem da minha consciência como seu domínio exclusivo – a partir do momento … Continuar lendo Minhas performances secretas

O tempo hiperlogarítmico das redes sociais

A velocidade do tempo é variável: minutos que parecem horas, horas que parecem minutos. Um dos primeiros a propor uma teoria sobre essa percepção subjetiva do tempo foi o filósofo francês Paul Janet, no final do século XVIII. Segundo Janet, nossa percepção do tempo se dá através de uma função logarítmica. Em termos práticos, isso quer dizer que, no começo da nossa vida, percebemos os … Continuar lendo O tempo hiperlogarítmico das redes sociais

68, noves fora zero?

  Este texto é um pequeno inventário de espantos com os desdobramentos pelos quais passaram algumas ideias que, se não surgiram em 1968, pelo menos ganharam corpo e alma nos movimentos libertários que varreram o mundo naquele ano. Sexo e prostituição Em 30 de outubro de 2013, Anne Zelensky (Presidente da Liga do direito das mulheres), em artigo publicado no jornal Le Monde, lançava um … Continuar lendo 68, noves fora zero?

Já ouviu falar em Sci-phi?

Ficção científica sempre foi algo meio marginal, meio fora do sistema. Basta observar a lista de todos os ganhadores de Melhor Filme da história do Oscar, por exemplo: nenhum deles pertence ao gênero (vá lá, “Volta ao mundo em 80 dias”, se forçarmos um pouco, é o único representante). Por essas e outras, é comum ver o “sci-fi” (abreviação popular de “Science Fiction”, ou ficção científica em inglês) envolvido numa névoa meio “B”, meio de subproduto. É bem verdade que a era do blockbuster e dos efeitos especiais elevou o gênero a encantador de multidões, mas isso não serviu muito para aumentar seu prestígio. Pelo contrário: nos círculos críticos (e em alguns nem tanto) ficção científica virou sinônimo de muito barulho por nada, pirotecnia sem conteúdo Continuar lendo Já ouviu falar em Sci-phi?

Sonhando perigosamente com Slavoj Žižek – Entrevista

Slavoj Žižek (1949) é um filósofo esloveno cujas influências principais são o pensamento de Karl Marx, Jacques Lacan e Hegel. Atua principalmente nos campos da teoria política, análise cultural e cinematográfica e teoria psicanalítica. Em 1990, foi candidato à presidência da Eslovênia. É professor da Universidade de Liubliana e professor convidado da Universidade de Vermont (EUA). O que dizer sobre dois dias de conversa com o incrível filósofo esloveno Slavoj Žižek? Tomei contato com ele ainda na época da minha graduação em psicologia. Foi amor à primeira lida! Algum tempo depois de ter lido alguns de seus textos publicados ainda em inglês, fui parar na Eslovênia atrás do que podia achar sobre ele — livros, referências, palavras — sem imaginar que, alguns anos adiante, ele me concederia uma entrevista. Por ocasião do lançamento de O ano em que sonhamos perigosamente (Boitempo Editorial, 2012) e da tradução de Menos que nada (no prelo, Boitempo), tivemos a chance e o prazer de conversar com aquele que, ainda hoje, é uma de minhas referencias bibliográficas. Continuar lendo Sonhando perigosamente com Slavoj Žižek – Entrevista

O legado de um pensador autônomo

Em um texto de 1997, o filósofo Cornelius Castoriadis afirma que um filósofo autônomo define suas próprias leis, faz perguntas e não se sujeita a nenhuma autoridade – “nem mesmo a autoridade de seu próprio pensamento anterior” – ao respondê-las. Como, na maioria das vezes, os filósofos elaboram sistemas de pensamento fechados e dificilmente conseguem reavaliá-los, nem sempre é fácil abrir mão da própria autoridade. Que filósofo teria, então, atingido este nível de autonomia? Castoriadis cita Platão como exemplo, talvez não querendo se comprometer com, ou contra, pensadores modernos. A leitura do mais recente livro de István Mészáros, entretanto, pode sugerir outra resposta, e uma resposta bastante polêmica: Jean-Paul Sartre. Continuar lendo O legado de um pensador autônomo