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Sobre o Jaguar

É espantoso ter um corpo, todos os dias. Por exemplo, colocar meias. Fazer a barba, meditar. Ou não fazer nada. Se nada faço, também é uma ação que cria algo em torno. Um boneco, por exemplo, tem também os seus gestos, traz uma expressão ainda que não tenha o que se chama de movimento próprio. Em “Jaguar”, dança apresentada no teatro Maria Mattos de Lisboa, … Continuar lendo Sobre o Jaguar

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O teatro e a peste – Anaïs Nin

Em março de 1933, Antonin Artaud deu uma conferência no auditório da Sorbonne, dentro de um ciclo a cargo do psicanalista René Allendy. O tema da conferência era “O teatro e a peste”. O que se segue é um relato feito por Anaïs Nin.    Auditório da Sorbonne, fim de tarde de quinta-feira em Paris. Allendy e Artaud estavam sentados à mesa no palco. Allendy … Continuar lendo O teatro e a peste – Anaïs Nin

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O tempo hiperlogarítmico das redes sociais

A velocidade do tempo é variável: minutos que parecem horas, horas que parecem minutos. Um dos primeiros a propor uma teoria sobre essa percepção subjetiva do tempo foi o filósofo francês Paul Janet, no final do século XVIII. Segundo Janet, nossa percepção do tempo se dá através de uma função logarítmica. Em termos práticos, isso quer dizer que, no começo da nossa vida, percebemos os … Continuar lendo O tempo hiperlogarítmico das redes sociais

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Do reino mais profundo

Era segredo e todos sabiam. Velado e oculto, o elemento insolúvel, todos sabiam, impérvio. Era secreto o doce enigma que transbordava nas bebidas que um jovem servia na Taverna com o melhor ponche não apenas do condado, da província, mas também de todo reino – e não apenas o ponche, mas o refresco de brasa branca, o gim de amora-amorfa, o leite de égua fermentado. … Continuar lendo Do reino mais profundo

fred canuto

Jardins movediços

No jardim de uma casa, a sala de visita se move.  A casa, no fundo de um lote, é uma coleção de materiais vindos de diversos depósitos de materiais de construção: portas metálicas cinzas, janelas sasazaki, tijolos cerâmicos à mostra. Uma bricolagem kitsch. As janelas blindex expõem um desejo de ascensão e pertencimento social distante do contexto em que realmente habitam. Logo à frente, um … Continuar lendo Jardins movediços

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Susan Sontag: o pensar que se faz em diálogo

“Gosto de entrevistas porque gosto de conversar, gosto do diálogo, e sei que boa parte das minhas ideias é produto da conversação. (…) Eu gosto de conversar com as pessoas – é o que me faz não ser uma reclusa –, e conversar me dá a chance de saber o que penso. Não quero saber sobre o público porque é uma abstração, mas com certeza quero saber o que pensa o indivíduo, … Continuar lendo Susan Sontag: o pensar que se faz em diálogo

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O livro de deleites de Virginia Woolf

Orlando, uma biografia é tantas coisas ao mesmo tempo que é também, penso, um livro de deleites. Há, para começar, o deleite de Virginia Woolf ao conhecer Vita Sackville-West, aristocrata com quem se envolveu amorosamente de forma intensa entre dezembro de 1925 e maio de 1927*. A propósito desse encontro amoroso, repleto de desejo e deleite, Virginia escreveu em seus diários: “Com Vita por três … Continuar lendo O livro de deleites de Virginia Woolf