Amor: um diálogo sobre a vida e a morte

Muito já foi dito sobre o amor. O assunto não é atual – desde a antiguidade até os dias de hoje, o amor é tema recorrente nas bancas de revista, nos programas de televisão, nas salas de aula, nas sutis – e também não sutis – intimidades que são partilhadas dia após dia com aqueles que se tem afeto: impossível passar despercebido, o amor está inserido nas vivências de cada um de nós, nos constituindo como ser e perpassando nossa existência.

Apesar de o amor ser um tema tão presente ao longo dos séculos, as abordagens filosóficas a respeito dele se diferem e, com o passar dos anos, se reinventam: com as mudanças enfrentadas em sociedade, qual seria a forma atual de discutir, reinterpretar, e ressignificar o amor?

Neste contexto, pensar a arte como uma possível potencializadora de questionamentos e discursos filosóficos mostra-se não só pertinente, mas também corriqueiro: ao longo da história, vemos como, das mais diversas formas, a arte se apropria de questões propriamente filosóficas, como a vida, a morte, o sofrimento, e, entre tantas outras, o amor. Traduzindo nossas alegrias e angústias, a arte desafia o habitual e habitua o desafio, propõe novas visões e explora diferentes caminhos a serem seguidos.

Em O Banquete, livro de Platão, Fedro – interlocutor presente em diversos diálogos do autor – afirma que “o amor é dos deuses mais antigos, que sequer possui genitores e que é, para nós, a causa dos maiores bens, pois sem ele não há como se produzir grandes e belas obras.” É visível como a questão do amor – sua importância e grandeza, de acordo com Fedro –, retratado em obras de arte, está presente em nossa história desde antes de Cristo, nas discussões realizadas pelos filósofos da pólis, até os dias de hoje, debatida por muitos artistas, através de diferentes abordagens, suportes e discursos.

Com isso, para debater o amor e suas implicações dentro do contexto de uma obra de arte, escolhi como suporte o cinema, adentrando em suas possibilidades imagéticas e discursivas.

De acordo com Julio Cabrera, “a imagem cinematográfica é essencialmente desestruturadora, desestabilizadora, subversiva.” Essa afirmação parece ir ao encontro do objeto artístico sobre o qual escolhi me debruçar: assim como todos os outros filmes que o diretor encabeçou, Amor, de Michael Haneke, encaixa-se perfeitamente na definição utilizada por Cabrera.

Amor é um filme que concebe a existência a partir das dificuldades do envelhecer. O longa-metragem conta a história de Anne e Georges, um casal de idosos octogenário, professores de música aposentados, que precisam lidar com o recente AVC sofrido por Anne. Michael Haneke, mais uma vez, traz para o cinema uma questão tão própria da existência humana. O casal, interpretado por Emmanuelle Riva e Jean-LouisTrintignant, “mostra uma faceta envelhecida, mas nem por isso mais fraca do amor.” (LEÃO, 2015). Conhecido por seu cinema provocador, realista e violento, Michael Haneke não deixa de fazer jus à fama, ao escolher filmar o cotidiano de um casal que, acometido pela doença de um deles — que entra e desestrutura suas vidas — se decompõe e definha frente a vida, aproximando-se, cada vez mais, da morte.

É perceptível, nas sutis nuances do longa-metragem, a construção de um caráter complexo do sentimento amoroso, que é testado pela situação vivida pelo casal. Aqui, o amor já não é mais juvenil e sereno: em oposição a esse tipo de abordagem, tão corriqueira no mundo do cinema, o filme trabalha justamente com os difíceis desdobramentos que a vida a dois impõe. A maturidade do sentimento é abordada tanto em seus aspectos positivos quanto negativos: compartilhar a vida com outra pessoa tem suas alegrias e tristezas, e, ainda que a situação do casal seja dura e sofrida, Haneke não deixa de mostrar os pequenos momentos de alegria pelos quais os personagens passam.

Apesar disso, a distância emocional entre Anne e o marido aumenta de forma significativa ao longo do filme, conforme a doença de Anne avança, e é através da doença que Haneke denunciará ao público uma relação em que a interdependência é muito grande: por mais que, após o AVC, a comunicação entre os dois diminua e quase se restrinja a diálogos secos e nada emotivos, Georges não permite que ninguém, nem mesmo a filha, adentre no universo particular do casal. Ainda que o marido seja atencioso e devoto às necessidades e dificuldades da esposa, é visível – através de longos planos-sequência que angustiam e desesperam – a frieza com que lida com a situação. Haneke mostra como o amor é muito mais complexo e profundo do que normalmente retratamos e pensamos: tem caráter dúbio, machuca e acolhe, afaga e agride. É paradoxal em todas as suas expressões.

amour. michael haneke
Amor (2012). Direção de Michael Haneke. Com Emmanuelle Riva, Jean-Louis Trintignant, e Isabelle Ruppert. Nesta cena, Anne já sofreu um de dois dos AVCs que a acometem. Há uma distância emocional entre ambos os personagens.

Ao adentrar de forma profunda no aspecto psicológico de ambos os personagens, o filme nos mostra como a complexidade do existir vai muito além do que entendemos. Georges, ao ver a esposa no limite entre a vida e morte, não suporta o sofrimento – me pergunto se o dela ou o dele mesmo –, e decide tirar-lhe a vida, num ímpeto inesperado e que vai contra a ideia da catarse, destrinchada por Aristóteles e tão usada pela indústria cinematográfica. Matar Anne é uma forma de não aceitar que a sua morte natural eventualmente chegaria. E é neste momento, em que a complexidade narrativa de Amor atinge seu ápice, que podemos perguntar: até onde vão os limites desse amor?

Remetendo ao momento da infância, por meio da decomposição degenerativa de Anne, que, quando começa a delirar, se comporta como uma criança e chama seguidamente por sua mãe, o filme aborda a questão do tempo: os personagens são desconectados de seus contemporâneos; vivem uma realidade única, onde a vida do lado de fora do seu apartamento não tem vez.

A abordagem da temática da morte e dos limites da vida é propriamente filosófica. Haneke nos mostra, através de corpos envelhecidos, lentos e falhos, o que é o processo de morrer: como ele chega e de que forma se estabelece na vida de Anne. Além disso, o longa-metragem também nos mostra como a personagem, gradualmente, vai se desconectando do plano material; e é nessa linha que o filme segue, até seu desfecho. Mais do que tudo, Amor é um filme que fala como nosso corpo – matéria que é, nos coliga ao mundo.

As possíveis experiências estéticas que se pode ter a partir não só de obras de arte, mas de objetos evocadores do sentir, são muitas. Em determinada cena, o personagem de Georges, de forma metalinguística, cita uma experiência que teve, na infância, ao ir ao cinema: diz que não se lembra de qual filme assistiu, mas do que sentiu ao vê-lo. Descreve como aquelas imagens em movimento evocaram nele algo que nunca havia sentido, e que lembraria daquele momento pelo resto de sua vida: e é nessa possibilidade de evocação de um sentir que reside a potencialidade do cinema.

Amor não poderia deixar de ser um texto audiovisual artístico e filosófico, não poderia deixar de se encaixar numa proposição sensível, profunda e dura, pois fala de questões propriamente humanas: esse retrato da vida, abordado com excelência pelos realizadores do longa-metragem, discute, reinterpreta e ressignifica o conceito de amor: dá a ele outros braços, outras pernas; arranca-os quando menos se imagina. Gera incômodo e indignação, gera espanto e gera desprezo: mostra o cru e o adornado do ser humano, suas profundidades e seus vazios, seus afetos e desafetos. Fala-se demais através de seus silêncios.

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