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A vida nua de Glenda

Glen ou Glenda?, dirigido por Edward Wood (1924–1978) – diretor de produções de terror, ficção científica e erotismo de baixo orçamento –, é um filme estadunidense de 1953 que suscita diversas questões à discussão contemporânea sobre as experiências trans Male to Female (MtF). Por trans, aqui, definimos qualquer expressão de gênero que não corresponde ao papel social atribuído ao gênero designado no nascimento. Necessário salientar também que, por contemporâneo, entendemos algo “que fixa o olhar sobre o seu tempo para perceber não as luzes, mas a obscuridade” (AGAMBEN, 2009). Nessa perspectiva, as experiências trans são ricas de atualidade, pois se relacionam com o presente de forma descompassada, possibilitando observar a nossa época de maneira mais distanciada:

“Pertence verdadeiramente ao seu tempo […] aquele que não coincide perfeitamente com este nem se adéqua às suas pretensões e é, por isso, nesse sentido, inatural; mas, exatamente por isso, exatamente através desse desvio e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e apreender o seu tempo”. (AGAMBEN, 2009, grifo nosso.)

O inatural que destacamos na afirmação de Giorgio Agamben (1942 –), filósofo italiano, nos interessa por marcar justamente o campo do conflito biopolítico trans – a não-aceitação da correspondência entre genitália e desejo, entre sexo e gênero, entre natureza e cultura. A nossa análise do filme, que se restringirá a uma reflexão conceitual, buscará investigar rapidamente as questões da patologização e medicalização do desejo, pautando-se em algumas das teses apresentadas por Agamben no livro Homo sacer – o poder soberano e a vida nua I.

Por não concordarmos com a ideia de que o gênero feminino seria vivenciado da mesma forma por transexuais ou por travestis, abordaremos o termo “experiências trans” em sentido amplo neste artigo, apoiando-nos nas reflexões de Berenice Bento: “Essa linha rígida, como se fosse um muro que separasse transexualidade e travestilidade, para muitas pessoas transexuais é uma ficção. Muitas se definiram ao longo de suas vidas como travestis, embora se sentissem mulheres. Butler (1990) afirmou que não existe uma separação radical entre heterossexualidade e homossexualidade, pois essa separação é uma resposta do tipo binária que nada revela das interseções que se dão entre estas estruturas. O ideal de identidades puras e transparentes configura-se como algo inatingível. Essa formulação pode ser útil para se pensar as interseções entre travestilidades e transexualidades”. (BENTO, 2008, p. 56.)

Glen ou Glenda? e as experiências trans

Glen ou Glenda? compõe o panorama da emergência do tema da transexualidade nos Estados Unidos anos 1950. No período, segundo o livro O que é transexualidade, surgiram os primeiros artigos que afirmavam a especificidade do “fenômeno transexual” (BENTO, 2008, p. 75). Além disso, o filme foi lançado um ano depois da Cirurgia de Redesignação Sexual de Christine Jorgensen (1926–1989), primeira mulher transexual a receber ampla atenção da mídia estadunidense após sua transgenitalização. O produtor George Weiss, inclusive, havia originalmente contratado Ed Wood para um filme que contaria a vida de Christine, aproveitando-se de sua fama repentina. Como a transexual se recusou a participar, o diretor propôs um roteiro autobiográfico. De fato, ele afirmou que colocou a si próprio em jogo na obra: “Se você quer me conhecer, veja Glen or Glenda.” (WOOD citado em http://en.wikipedia.org/wiki/Ed_Wood, tradução nossa.) O diretor, de fato, tornou público o seu prazer em travestir-se. Afirma ter participado de batalhas secretamente vestido com roupas íntimas femininas, no conturbado período da Segunda Guerra Mundial, quando servia à marinha. Utilizando o pseudônimo de Daniel Davis, o diretor, roteirista e ator protagonizou no papel de Glen e de Glenda.

Para o filme, as experiências trans são um dos mistérios mais profundos da natureza humana. Flertando com a estética do documentário e do cinejornal, afirmando apresentar fatos verídicos, a narrativa tem o tom de um estudo direcionado ao grande público da época sobre o “travestismo”, o “pseudo-hermafroditismo” e as mudanças de sexo, buscando compreender esses assuntos “estranhos” e “curiosos” como expressões humanas.

A abordagem da temática trans será justificada pela ideologia do progresso ancorado na produção industrial – é a lógica de uma sociedade em que o corpo é intimado cada vez mais pela tecnologia. O homem não voa, mas criou o avião com sua inteligência; andava a cavalo, mas inventou o carro, que é mais eficiente; dessa forma, devemos aprender a manipular a natureza a nosso favor e envergonhar-nos anacronias como “Se o criador tivesse querido que X, certamente teríamos nascido X.” – “Se o criador tivesse querido que nascêssemos meninos, certamente teríamos nascido meninos.”

Entretanto, o caráter de documentário educativo se mescla a atuações como a de Bela Lugosi, ator popular por suas diversas interpretações do conde Drácula. Trovões soam forte entre um episódio e outro. Lugosi introduz as experiências trans de forma sombria, em cenários kitsch que representam um laboratório e uma biblioteca um pouco ao estilo Frankenstein. A intenção de informar o público sobre a questão é acompanhada por diálogos simplórios, atores excêntricos e os célebres erros técnicos de Ed Wood, que teve apenas quatro dias e vinte e seis mil dólares para rodar. Esses elementos precários, entretanto, são um ingrediente essencial e tornam a obra memorável.

Seguindo uma tendência comum na produção artística de temática queer do século XX, Glen ou Glenda? conta de forma mórbida e psicologizante a história de três personagens que vivenciaram a experiência trans: Patrícia, uma travesti que se suicidou, Glenda, uma travesti-fetiche que pode ser morta a qualquer momento por seu criador (Glen), e Ann, “uma mocinha adorável”.

O doutor Alton, um psiquiatra muito respeitado, é quem declara a iminência da morte de Glenda, mesmo que não a tenha criado. Ele já tratou de diversos casos de mudança do sexo masculino para o feminino, sabe dizer como essas experiências podem ou não ser bem-sucedidas, e trata também de outros “distúrbios” relacionados a homens que se interessam em incorporar o gênero oposto. Esse desejo não existe no sexo feminino.

Patrícia, cuja história o psiquiatra conhecia, foi presa diversas vezes por usar roupas de mulher. Segundo o médico, ela suicidou porque não podia realizar a cirurgia de mudança de sexo. Perto dela, um bilhete com a seguinte mensagem: “Deixe meu corpo descansar para sempre com as roupas que não posso usar em vida.”

O caso de Glenda, que habita o corpo de Glen, é diferente. Noivo de uma mulher biológica, ele enfrenta o dilema de não conseguir se livrar da personagem que criou para si – “A moça que ele mesmo é. Sua outra personalidade.” Seu passatempo preferido é demorar-se nas vitrines deleitando-se com trajes de cintura alta, como proclamava a moda dos anos 1950. A noiva, Barbara, que é levemente masculinizada e contrasta com a delicadeza de Glen, desconfia cada vez mais de que há algo estranho. Quando se casam, realmente, o diabo acompanha tudo com uma maquiagem pesada, ao lado esquerdo do padre. Mas ninguém nota nada, nem mesmo Glen. Felizes, eles partem para uma vida conjugal menos ortodoxa, na qual mulheres que vão à universidade são normais. Levando em conta as condições históricas de produção, o filme parece abordar de forma ampla as mudanças sociais, não se restringindo à temática trans: um senhor amigo de Glen, inclusive, é divorciado e cozinha.

Apesar de amar Barbara intensamente – as cenas dos noivos são cheias de atitudes piegas –, Glen sente uma atração incontrolável por saias, vestidos, saltos altos e suéteres de lã angorá. As roupas de sua esposa interessam-lhe muito em seu próprio corpo e a angústia de possuir uma vida dupla não o deixa em paz. Acreditando em seu profundo amor por Barbara, nosso protagonista um dia decide contar tudo para ela. Ansiosa, a esposa pergunta –“Glen, é outra mulher?”

Após um dramático choque inicial, Barbara, graduada em psicologia, decide enfrentar a situação e acompanhar o amado marido em uma consulta com o doutor Alton. “Acho que o fim do estudo é só o começo da realidade”, diz referindo-se à experiência da faculdade. Lá o casal conhece a história do tratamento de Ann, “pseudo-hermafrodita” que passou por maus bocados para tornar-se mulher. “Essa pobre criatura nunca teria sido feliz se não fosse pela medicina moderna.” Barbara não sabia, mas com sua corriqueira opinião já estava concordando com o primeiro documento oficial regulamentador do tratamento de transexuais em instituições de saúde, o Standards of Care (SOC) da World Professional Association for Transgender Health (WPATH), publicado pela primeira vez em 1979.

O SOC, uma das principais referências até os dias de hoje, considera a transexualidade uma doença, pauta-se principalmente na endocrinologia e indica a transgenitalização como única solução. Fazendo coro com o doutor Alton, Harry Benjamin, o pesquisador que deu origem ao manual, defendia a intervenção para evitar suicídios como os de Patrícia. Diferentemente, no âmbito do discurso psicanalítico, para a terceira versão do Manual de Diagnóstico e Estatísticas de Distúrbios Mentais (DSM), datada de 1980, “a cirurgia não é uma alternativa terapêutica; a intervenção do terapeuta poderia bloquear o desenvolvimento da transexualidade” (BENTO, 2008, p. 80). Na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID), que somente classifica doenças, e incluiu o “transexualismo” em 1980, o desejo de submeter-se a uma intervenção cirúrgica é apenas um dos sintomas.

Tanto para o caso de Ann quanto para o caso de Glen/Glenda, não havia manuais ou códigos amplamente estabelecidos. Glen não se pronuncia a respeito da cirurgia, mas a autoridade psiquiátrica já garante que o seu caso não é esse. Glenda, de acordo com a orientação do doutor Alton, é uma personagem que Glen, o “criador”, pode matar quando quiser, fruto da falta de amor de seus pais. Bastaria transferi-la para a esposa, que passaria a assumir também os papéis da irmã querida e da mãe. Diante do esclarecimento do psiquiatra, um homem branco de terno que a faz lembrar do amor que sente pelo marido, sua esposa declara não se importar mais com o fato de ele se vestir de mulher. O que seria também da vida de Glen sem a medicina moderna?

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A vida nua e o gênero

A vida é o tema central do filme – mas trata-se principalmente de uma vida não-biológica, mesmo se quem está a narrar as histórias é doutor Alton, psiquiatra sensato e profissional. Glen ou Glenda? traz antes de tudo histórias de roupas, corpos costurados por cirurgias culturais, de gênero, não de sexo. Glenda está sempre vestida. Glenda adora roupas. Os trajes femininos, declara o narrador, são mais confortáveis. Os chapéus, menos apertados. O homem moderno usa roupas grosseiras e incômodas. Novamente, o progresso que costura os corpos.

A medicina, como discurso científico, não está consciente de que, pelo menos até hoje, “O único mapa seguro que guia o olhar do médico e dos membros da equipe são as verdades estabelecidas socialmente para os gêneros.” (BENTO, 2008, p. 87) O próprio reconhecimento da transexualidade como experiência digna de diagnóstico particular foi manchado por interesses extracientíficos:

“A inclusão no DSM, no CID-10 e a construção de um diagnóstico diferencial foram fundamentadas pelos resultados de um estudo com dez pessoas transexuais de idade adulta realizado por Leslie Lothstein, através de estudos clínicos que representavam uma classe muito limitada de sujeitos. […] A ideia fundacional de que se partia nestas clínicas era estudar uma aberração humana interessante e potencialmente financiável.” (BENTO, 2008, p. 77.)

Diante da não-repetibilidade, da falta de neutralidade e da ambiguidade (BENTO, 2008, p. 93) de testes e diagnósticos que proclamam a experiência trans como doença, como “transexualismo”, “travestismo”, é necessário reconhecer que todos nós, transexuais ou não, heterossexuais, homossexuais ou travestis, pessoas físicas ou até mesmo personagens de livros e filmes, usamos roupas, ou seja, passamos por cirurgias de gênero. Como afirma Berenice Bento, embasando-se na argumentação do livro Gender trouble: feminism and the subversion of identity, de Judith Butler, não existe uma história anterior à performatividade dos gêneros: “Neste sentido, todos somos transexuais, pois nossos desejos, sonhos, papéis não são determinados pela natureza. Todos os nossos corpos são fabricados: corpo-homem, corpo-mulher.” (BENTO, 2003) Se desvinculamos a identidade de gênero do referente biológico, a possibilidade de uma essência original não faz sentido, já que a identidade é regulada por rituais marcados pelo imaginário performático e pela arbitrariedade:

“A mulher XX e o homem XY (tios perfeitos e originais por suas estruturas cromossomáticas exemplares) são resultados de tecnologias discursivas que produzem homens e mulheres também como cópias desprovidas de originalidade, pois também assumem e fazem o gênero da mesma forma que as pessoas transexuais: através da reiteração dos atos, corporificando o gênero mediante as performances. […] Não há identidade de gênero por detrás das expressões, construções, performances do gênero, não há ontologias ocultas. Imitar um gênero é revelar a estrutura imitativa do gênero em geral”. (BENTO, 2008, p. 38)

Entendemos dessa forma a identidade de gênero da personagem Ann, “uma mocinha adorável” transexual que, nas palavras do doutor Alton, se tornou “uma mulher muito feliz e ansiosa por aprender. E agora aceita pela sociedade. […] Uma mulher que agora está bem instruída a se adaptar ao mundo feminino”. Entretanto, se o gênero está relacionado a um determinado tipo de instrução e a um desejo de aprender, como compreender a seguinte afirmação do médico psiquiatra? “Esse caso, que tem final feliz, deve-se inteiramente às correções feitas pela medicina.” A escola do doutor Alton não quer dar autonomia ao aluno. Aí, certamente, a mudança cirúrgica pretende “corrigir” a questão da performance de gênero, como se o transexual não fosse um sujeito ativo, criador da sua própria experiência. Mas como a medicina articula seu poder a ponto de afirmar-se como a guardiã da satisfação subjetiva dessa personagem?

Aproximando essa problemática do panorama conceitual de Agamben, convém traçar a ideia de “vida” entre duas palavras gregas antigas. Zoé para exprimir “vida natural”, ou o fato de viver comum a todos os seres vivos. Bíos para referir-se à “forma ou maneira de viver própria de um indivíduo ou de um grupo […] vida qualificada, modo particular de vida” (AGAMBEN, 2002, p. 9), organizada culturalmente, por exemplo, como contemplativa (bíos theoreticós), de prazer (bíos apolausticós) ou política (bíos politicós) na Ética a Nicômaco de Aristóteles. Na concepção do filósofo grego, a diferença específica do ser humano para o animal era a questão política – que configura principalmente o campo do viver bem, em oposição ao simples fato da vida natural. Ou seja, a política humana se funda na exclusão da zoé, fato comum de viver, do campo da política, a pólis. A suicida Patrícia, a pseudo-hermafrodita operada Ann ou a crossdresser angustiada Glenda não têm voz significativa; para os ouvidos médicos, elas não são capazes de articular a linguagem de forma compreensível; é como se suas vidas fossem rasuradas pelas instituições.

Dessa forma, a partir da fundação da política ocidental, a inclusão da vida na pólis, no tribunal, na delegacia ou no hospital se dá por meio de uma relação fundamental de exclusão. Nesses lugares a vida só é incluída quando não pertence à política – o não-pertencimento do que é vivo, paradoxalmente, só pode ser explicitado por meio do pertencimento. O transexual, sujeito masculino ou feminino não-previsto no ordenamento político e no pensamento hegemônico, não será incluído enquanto não for excluído, seja em uma pista de dança da Zona Sul de Belo Horizonte ou em um laudo do Ministério da Saúde, no consultório médico ou na manchete que anuncia a operação de Ann em Glen ou Glenda?. Como aponta Berenice Bento, “Um dos recursos recorrentes de absorção pelo centro dos seres construídos como abjetos é a patologização das identidades. Centro/margem não é uma relação binária, simplista, antagônica.” (BENTO, 2008, p. 38)

A diferenciação entre bíos e zoé não encontra tradução exata na língua portuguesa, porque perde seu sentido original já no vocabulário da Roma antiga com a palavra latina vita. O cultural indiferencia-se com o natural, confundindo o que está fora com o que está dentro do domínio do poder, o sexo com o gênero. De fato, como aponta Foucault em A vontade de saber, “Durante milênios, o homem permaneceu o que era para Aristóteles: um animal vivente e, além disso, capaz de existência política; o homem moderno é um animal em cuja política está em questão a sua vida de ser vivente.” (FOUCAULT citado por AGAMBEN, 2002, p.125) Para Agamben, entretanto, a política moderna não é tanto a inclusão da zoé na pólis, ou a crescente importância da vida no poder estatal: decisivo mesmo é o fato de que a sua inclusão coincida com a sua exclusão.

Para os dispositivos do poder, hoje, não são relevantes somente nossas “vidas qualificadas”, mas também nossas “vidas naturais”, o contrário de inscrições em documentos de identidade, nascimento, óbito, receitas médicas e contratos com planos de saúde. Para Carl Schmitt, teórico que inspirará a formulação de Homo sacer, trata-se da “vida efetiva”: aquela que “rompe com a crosta de uma mecânica enrijecida na repetição” (SCHMITT citado por AGAMBEN, 2002, p. 75). Aí está a “vida nua” indicada por Agamben e Walter Benjamin, pressuposto do poder da soberania.

A vida nua despe corpos-homem e corpos-mulher, que indiferenciam a identidade de gênero de dados biológicos. O genital torna-se uma roupa que é regulada pelo Estado soberano. Se o soberano é aquele que tem o poder legal de suspender a validade da lei, estando legalmente dentro e fora dela, a sua relação com a vida nua se dará somente na exceção. O estado de exceção, para o Agamben de Homo sacer, é o núcleo originário da soberania. Dessa forma, para a vida nua, “A norma se aplica à exceção desaplicando-se, retirando-se desta.” (AGAMBEN, 2002, p. 25) – nada estaria fora do poder, mesmo quando a norma não fosse aplicável.

O soberano entra em simbiose com o jurista, com o médico, com o cientista, com o perito, com o sacerdote (AGAMBEN, 2002, p. 129). O poder soberano, aliás, segundo Foucault, esteve ligado durante muito tempo na história ao poder de vida e de morte (FOUCAULT citado por AGAMBEN, 2002, p. 95). As normas de gênero, que se aplicam ao caso normal de homens e mulheres biológicos e com desejos considerados normais, se aplicam a Glenda, Patrícia Ann com a condição de que elas sejam um desvio e de que seu corpo seja capturado e ao mesmo tempo abandonado por especulações médicas e jurídicas, que não são garantia de acolhimento e dão margem à má-fé ou à crueldade.

O homo sacer

Em Homo sacer – o poder soberano e a vida nua I, Agamben recupera uma figura do direito romano arcaico que é a própria encarnação da vida nua. Retirada do tratado Sobre o significado das palavras, do gramático latino Pompeu Festo, a acepção jurídica de sacer, sagrado, definia um homem que poderia ser morto impunemente e que, ao mesmo tempo, tinha o corpo vetado a qualquer sacrifício religioso. Levá-lo à morte não constituía homicídio – ou seja, ele estava legalmente fora do ordenamento jurídico. E não era permitido oferecê-lo aos deuses em sacrifício – estava expulso da prática religiosa. Ele era, dessa forma, uma exceção, em relação suspensa com o poder soberano.

Como vimos, o direito de vida e morte soberano confunde o dado animal com o cultural no humano. No livro citado, Agamben demonstrará que, principalmente a partir do século XX, um estado de exceção ilocalizável se evidencia cada vez mais: a vida só é política devido a sua possibilidade de morte regulada pelo Estado moderno, pela medicina e pelo direito.

O homo sacer, “homem sagrado”, curiosamente é o primeiro registro ocidental da sacralidade diretamente inscrita em uma vida humana como tal – e não a uma vida divina. Afirmar que uma vida é sagrada, seguindo a sugestão desse paradigma, deixa de ser algo relativo à preservação do humano: “a sacralidade é, sobretudo, a forma originária da implicação da vida nua na ordem jurídico-política, e o sintagma homo sacer nomeia algo como a relação ‘política’ originária, ou seja, a vida enquanto, na exclusão inclusiva, serve como referente à decisão soberana. Sacra é a vida apenas na medida em que está presa à exceção soberana […]”. (AGAMBEN, 2002, p. 92.)

O homo sacer, por ser uma figura jurídica, revela a cumplicidade entre a sacralidade da vida e o poder do direito. Poderíamos, em um estudo posterior, desenvolver essa questão, investigando a questão de que a história trans se liga ao campo religioso em várias culturas e atualmente está muito relacionada ao jurídico. “Por trás do longo processo antagonístico que leva ao reconhecimento dos direitos e das liberdades formais está, ainda uma vez, o corpo do homem sacro com o seu duplo soberano […]” (AGAMBEN, 2002, p. 17).

Se o homo sacer é o pressuposto da soberania, devemos colocar algumas dúvidas em relação ao alcance das vitórias políticas: “os espaços, as liberdades e os direitos que os indivíduos adquirem no seu conflito com os poderes centrais simultaneamente preparam, a cada vez, uma tácita, porém crescente inscrição de suas vidas na ordem estatal, oferecendo assim uma nova e mais temível instância ao poder soberano do qual desejariam liberar-se. (AGAMBEN, 2002, p. 127)

Trata-se, segundo Agamben, da primazia do privado sobre o público nas democracias burguesas e do critério político decisivo para decisões soberanas nos Estados totalitários. Entretanto, mesmo essas distinções políticas perderiam suas inteligibilidades, indeterminando-se logo que seu referente se torna a vida nua. A biopolítica, por ser uma forma inédita do poder, se apresenta em uma proporção antes desconhecida como política totalitária.

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Considerações finais

As personagens trans Glenda, Ann e Patrícia vivem o drama de não encontrar referências identitárias nas categorias sociais. Ao procurarem ajuda, recebem respostas prontas, que não dão espaço para seus devires. Mesmo assim, a defesa de suas identidades, por mais específicas que possam ser, constitui uma resistência comum ao fascismo biopolítico. A vida nua de Glenda, que caminha pelas ruas sozinha a olhar vitrines preocupada com seu casamento como Glen, a vida nua de Ann, que sofreu uma brutal cirurgia e deverá tomar hormônios para sempre, e a vida nua de Patrícia, que suicidou-se sufocada pelas normas de gênero, são o um ponto comum de possibilidades tanto de emancipação dele quanto de submissão: “não o homem livre, com suas prerrogativas e os seus estatutos, e nem ao menos simplesmente homo, mas corpus é o novo sujeito da política, e a democracia moderna nasce propriamente como reivindicação e exposição deste ‘corpo’: habeas corpus ad subjiciendum, deverás ter um corpo para mostrar”. (AGAMBEN, 2002, p. 130)

Se no corpo está em questão a nossa própria política, talvez tenhamos nos chocado com um limite além do qual não poderemos seguir sem criar novas formas de viver. Só poderemos mostrar um corpo que resiste com nossa força de criá-lo independentemente das instituições. 

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Este artigo foi escrito e apresentado no 7º Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual (ENUDS), de 2009, na FAFICH-UFMG.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer – o poder soberano e a vida nua I. Trad. Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? Trad. Cláudio de Oliveira Rio de Janeiro, 2009. 8 p. Não publicado.

BENTO, Berenice. O que é transexualidade. São Paulo: Brasiliense, 2008.

BENTO, Berenice. Transexuais, corpos e próteses. In: Labrys – estudos feministas 4. ago./dez. 2003. Disponível em: <http://www.unb.br/ih/his/gefem/labrys4/textos/berenice1.htm>. Acesso em: 29 ago. 2009.

ED WOOD. Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Ed_Wood. Acesso em: 30 ago. 2009.

GLEN or Glenda (1953) FAQ. Diponível em: http://www.imdb.com/title/tt0045826/faq. Acesso em: 30 ago. 2009.

GLEN OU GLENDA? Direção: Edward Wood. São Paulo: IDX Interactive Digital. 1 DVD, son., p&b, legendado.

THE WORLD Professional Association for Transgender Health. Disponível em: http://www.wpath.org/. Acesso em: 30 ago. 2009.

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