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Sobre o Jaguar

É espantoso ter um corpo, todos os dias. Por exemplo, colocar meias. Fazer a barba, meditar. Ou não fazer nada. Se nada faço, também é uma ação que cria algo em torno.

Um boneco, por exemplo, tem também os seus gestos, traz uma expressão ainda que não tenha o que se chama de movimento próprio. Em “Jaguar”, dança apresentada no teatro Maria Mattos de Lisboa, os bailarinos Marlene Monteiro e Andreas Merk evocam esse ser construído que nos parece meio vivo, meio não-vivo. Há muitas coisas no próprio boneco que excedem, ultrapassam o ser boneco e atravessam o humano. Basta olhar para o rosto de um, para que o seu movimento se insinue.

Andreas e Marlene propõem uma brincadeira. Não estão nem limitados, nem domesticados pelo fato de o corpo humano ser, também ele, uma coisa. O corpo humano está sempre a se alternar entre os estados de pessoa e coisa. As entidades que reconhecemos como bonecos conversam com esses bailarinos, que as escutam em algo que neles mesmos transborda. De tudo o que fazemos para nos assegurarmos de que somos limpinhos e inteligentes, vem um Jaguar. Uma garra que se arrasta arranhando o espelho brilhante.

Não viemos ao teatro para mais uma vez insistirmos numa cabeça dominante que se separa do resto do corpo, numa perigosa hierarquia que ao longo da história nos separa do que somos. Nem eu nem ninguém que queira respirar. Queremos sim sangue e vibração.

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Marlene Monteiro e Andreas Merk, no teatro Maria Mattos, Lisboa, 19.2.2016 | Crédito das imagens: Uupi Tirronen /Zodiak – Cener for New Dance

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Ao entrarmos, os performers já estão no palco. Funcionam como uma folha de sala, que amplifica o que será, mas sem papel: entramos e antes de começar, só que já, fazem a sua dança.

Eles usam um círculo vermelho na boca tipo a maquiagem do palhaço. Curtos shorts brancos, pernas grandes reluzentes, com tinta de bronzear a cor da pele. Música de água, marulho e depois mandinga, carnaval de Cabo Verde em pleno inverno lisboeta. Trazem toalhas no pescoço. Jogadores de tênis? A toalha, o roupão, o vestiário, a eroticidade dos esportes e do banheiro.

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Dançam de meias brancas, óculos de natação, o cenário é bastante claro e o que veem de lá deve ser como nuvens de coisas embaçadas. Lembro do performer Fernando Hermógenes, que tem nos óculos de nadadores um estatuto de sair fazendo vídeos por aí. Os olhos sedentos de imagem e poesia entram no desconhecido com óculos de mergulho. Frente a frente com o eu corpo coletivo, que se cola em nós feito segunda pele ou creme bronzeador. Corpo ocupado com restrições, constrangimentos que são vídeos gravados na cabeça, definindo constantemente o que pode ser gesto ou não. Esses performers acordam as imagens da sua anestesia coletiva.

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Cavalo azul. Cavalo de pau. Cavaleiro. Cabo de vassoura. Crianças. Miúdos. Marlene e Andreas.

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Sobre a ação de agachar ou de ficar de gatas:

Na situação pública, o cu não pode se voltar para o céu, tem que se esconder. Encolhido num assunto assim secreto e pontual como uma cabine. Mudez que o tempo todo perquire principalmente o corpo-gênero masculino que tem um importante chamado falo para zelar. Ele precisaria se relacionar com os outros como se fossem objetos.

As entranhas, entretanto, não se comportam do jeito que se pensava que. As metamorfoses do corpo hoje, qualquer hoje, residem em mudanças que não são apenas individuais e reverberam em uma coletividade lentíssima. O povo está no corpo individual. Estarmos no povo é o teatro – palavra que em grego significa “lugar de onde se vê”. Entre ver e ser visto, o jaguar espera para dar um só golpe. E os olhos desses bailarinos de repente estão com a gente.

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Olha/ não olha. Os bonecos-bailarinos viram-se para fora, revelam-se coisa-pessoa. Olhos músculos. Essa selvageria de se fazer corpo frente a frente, que ninguém nos tira quando queremos inventar outra forma de vida.

É coisa nossa as imagens terem vindo agarradas ao corpo. Mas podemos criar de novo. Podemos ser animais. Atentos observamos a selva. Podemos também brincar com os bonecos que aqui vivem. Não como quem assiste a algo sem se acompanhar a si próprio, sem se perguntar. Dançando com as imagens, incendiamos. No fazer a dança, permitindo que ela aconteça conosco, e ao mesmo tempo no ver a dança nos desfazemos para estar na nossa natureza: no que hormonalmente se alimenta do imagético, aquilo que na vida é natureza de inventar um jaguar.

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