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O livro de deleites de Virginia Woolf

Orlando, uma biografia é tantas coisas ao mesmo tempo que é também, penso, um livro de deleites.

Há, para começar, o deleite de Virginia Woolf ao conhecer Vita Sackville-West, aristocrata com quem se envolveu amorosamente de forma intensa entre dezembro de 1925 e maio de 1927*. A propósito desse encontro amoroso, repleto de desejo e deleite, Virginia escreveu em seus diários: “Com Vita por três dias em Long Barn. Essas safistas gostam de mulheres; a amizade nunca está isenta de amorosidade. Gosto dela e de estar com ela, e do esplendor – ela resplandece com um brilho de vela acesa, pisando o chão sobre pernas que são como faias, rutilantes num jérsei rosa, cabelos encaracolados, em pérolas enroladas”. Curiosamente, Virginia adorna o personagem Orlando das mesmas características físicas, dos mesmos adereços e das mesmas vestimentas.

Em Orlando, uma biografia, Vita está presente do início ao fim. É, de certa forma, um presente a Vita, uma homenagem e uma pequena vingança por Vita tê-la trocado por outras amantes. Nas palavras de Tomaz Tadeu, tradutor: “Orlando é uma celebração de um amor que chegara ao fim”. Nas de Nigel Nicolson, filho de Vita, Orlando é “a mais longa e mais encantadora carta de amor em toda a literatura”, enquanto a própria Virginia resume: “Uma biografia começando no ano 1.500 & continuando até os dias de hoje, com o título Orlando: Vita; e com uma mudança, de um sexo para o outro. Acho que, para me divertir, vou me deixar envolver por isso durante uma semana”**.

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Vita Sackville-West e Virginia Woolf
Da parte do leitor, o livro é também um deleite de leitura. Para quem teve como primeira entrada na obra da escritora inglesa o livro Mrs Dalloway, como é meu caso, Orlando traz um frescor e um bom-humor que revelam uma Virginia sagaz e deliciosamente jovial. Ela mesma diz a Vita que “sente que pode revolucionar o gênero da biografia e, assim, se a ideia lhe agrada, gostaria de jogá-la para o ar e ver o que acontece”***. Virginia zomba, e o faz com muita argúcia. Ela brinca com o gênero biografia, que consagrou seu pai Leslie Stephen, e experimenta inúmeras reviravoltas e distensões temporais na narrativa, e promove naturalizações de coisas que poderíamos ter à primeira vista como absurdas ou impossíveis.

É fascinante ver essa plena forma de Virginia num livro de 1928, não só pelo bom-humor e pela destreza na escrita de uma biografia ficcional de um personagem que troca de sexo e que vive mais de 400 anos, embora não envelheça mais que 36. Na suposta escrita biográfica, ela promove um retrato histórico-literário-afetivo de Londres, com uma breve incursão pelo Império Otomano e pelo universo cigano do leste europeu. Durante a leitura é inevitável pensar que temos ali um recorte de Londres através dos olhos, das leituras e da imaginação crítica (e debochada) de Virginia. Para os conhecedores da história inglesa, deverá ser um deleite ver como a escritora alinhava e costurava fatos, lugares, referências e personagens históricos a seu bel-prazer.

É fascinante, sobretudo, vê-la brincar com a performatividade dos gêneros com uma naturalidade ainda invejada e almejada nos dias de hoje. E olha que de lá para cá já se passaram quase 90 anos. A naturalidade com que a sociedade londrina de então recebeu um livro que tem como personagem principal um lorde que muda de sexo e de uma lady que se chama Orlando é algo que poderíamos importar – se nos fosse permitido aprender com os livros, com a arte e com a literatura. Especialmente nos dias de hoje em que uma questão do Enem envolvendo Simone de Beauvoir gera celeuma no congresso nacional e em câmaras de vereadores país adentro. Se duas frase de Simone promovem isso, valeria a pena apresentar Virginia e lady Orlando aos congressistas e demais representantes eleitos do povo.

Voltando a Orlando, o livro começa com a frase: “Ele – pois não podia haver nenhuma dúvida sobre seu sexo, embora a moda da época contribuísse para mascará-lo –  estava golpeando a cabeça de um mouro que pendia das vigas”. Como acontece com “Mrs Dalloway disse que compraria ela mesma as flores”, o começo dessa primeira frase de Orlando, apesar de menos banal que a de Clarissa Dalloway, torna-se quase um bordão. No universo das discussões da identidade de gênero e das vivências queers, então, arrisco dizer que poderia ser tomada como uma pedra de toque. O livro começa com o sujeito e um aposto precedido de travessão e, antes mesmo de enunciar sua ação, há a dúvida sobre sua identidade de gênero. Mas essa dúvida é naturalizada e algo corriqueiro, como que banal, nada de mais. Por que não haveríamos de ter dúvida sobre nossa própria masculinidade e/ou feminilidade? Em 1928, Virginia mostra que o gênero não é algo autoevidente, mas sim naturalmente cambiante e, sobretudo, performatizado conforme apetece o humor e a vestimenta que lhe acompanha.

Nesse livro, é também possível ver Virginia se deliciando com um de seus temas preferidos: a diferença entre o tempo cronológico e o tempo da consciência. Se o tempo nos vitimiza a uma vida sujeita à vitalidade contingente de um corpo que envelhece, nesse personagem que atravessa o tempo, Virginia torna possível que uma única vida seja capaz das mais diversas e vívidas experiências: ser beijado por uma rainha e por ela ser protegido, enamorar-se por uma princesa russa, ser o escândalo da corte e depois cair em suas graças, ser um escritor maldito, frequentar o círculo de escritores formado por nomes como Alexander Pope, Joseph Addison e Jonathan Swift, trocar de sexo, comprar todos os livros disponíveis numa livraria, experimentar Londres através da janela desde as carruagens aos primeiros automóveis, ser diplomata em Constantinopla, viver como uma cigana, ser cortejada por homens e mulheres, encontrar o amor da vida com Shelmerdine e, por fim, casar e ter filhos etc.

Se o filme As Horas, de Stephen Daldry, baseado no livro homônimo de Michael Cunningham, nos habituou com uma visão de Virginia atormentada em seus últimos anos de vida que culminam com seu suicídio em 1941, últimos anos que inclusive ganharam biografia de Hebert Marder (Virginia Woolf, A Medida da Vida, Cosac Naify, 2012), é curioso ver que em Orlando Virginia está bem viva e se permite deleitar-se com a escrita, o tempo e os amores.

Ainda sobre deleites, além da primorosa e cuidadosa tradução de Tomaz Tadeu, a nova edição da Autêntica traz um belo trabalho gráfico, desde a linda ilustração na capa (dura) à textura do papel (pólen bold), sem mencionar o mimo do marcador de páginas em cetim. É digno de nota que essa edição é a primeira no Brasil que traz as imagens coloridas como Virginia havia imaginado. Na edição original da Hogarth Press, editora de Virginia e Leonard Woolf, as imagens apareceram em preto e branco. E foi só recentemente que a editora inglesa Folio lançou pela primeira vez uma versão de Orlando com as reproduções coloridas.

E no que tange às imagens, aqui de novo aparece outra faceta do deleite, quando Virginia e Vita percorrem a mansão de Knole em busca de pinturas de uma jovem e de um jovem ancestrais dos Sackville. Sobre isso, vale a pena que o próprio leitor leia o envolvimento das duas na empreitada de Virginia pelas imagens ilustrativas do tal arremedo de biografia (cf. pp. 261-262).

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Vita como lady Orlando
O deleite de Vita? “Por enquanto não consigo dizer nada a não ser que estou completamente deslumbrada, extasiada, encantada, enfeitiçada. Parece-me o livro mais adorável, mais inteligente, mais rico que já li na minha vida […] Você inventou uma forma de narcisismo e, devo confessar, estou apaixonada por Orlando” (p. 220).

Faço das palavras de Vita, as minhas.

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* Para quem tiver curiosidade sobre a vida privada das escritoras, a relação entre elas está registrada com detalhes nos livros As mulheres de Virginia, de Vanessa Curtis e The letters of Vita Sackeville-West and Virginia Woolf, editado por Louise DeSalvo e Mitchell Leaska. A edição de Orlando lançada recentemente pela editora Autêntica, com tradução e notas de Tomaz Tadeu, não deixa de trazer informações importantes a respeito.

** Diários, 5 de outubro de 1927, referenciada pelo tradutor em Notas, p. 219.

*** Carta a Vita, 9 de outubro 1927, referenciada por Tomas Tadeu em Notas, p. 219.

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E eis alguns aperitivos, recortados do livro de Virginia

 A natureza e as letras parecem nutrir uma mútua e instintiva antipatia; junte-as e uma destruirá a outra” (13).

Mas [Orlando] fez uma pausa.

Como essa pausa tem grande significado em sua história, maior ainda, na verdade, do que muitos atos que obrigam os homens a se ajoelharem e fazem correr rios de sangue, cabe-nos perguntar por que fez a pausa; e responder, após a devida reflexão, que foi por alguma razão parecida com a que segue. A natureza, que nos tem pregado tantas e estranhas peças, utilizando-as, para nos criar, de materiais tão desiguais quanto a argila e o diamante, o arco-íris e o granito, e com frequência acomodando, num mesmo receptáculo, os mais incongruentes, pois o poeta tem cara de açougueiro e o açougueiro, de poeta; a natureza, que se compraz com a mistificação e o mistério, de maneira que agora mesmo (1º de novembro de 1927) não sabemos por que subimos para o andar de cima, ou por que tornamos a descer, nossos movimentos mais corriqueiros se assemelhando à passagem de um navio por um mar desconhecido, com os marinheiros junto ao mastro principal perguntando, ao apontar suas lunetas para o horizonte: Terra à vista ou nada? Ao que, se somos profetas, respondemos ‘Sim’; se somos honestos, dizemos ‘Não’; a natureza, tantas coisas pelas quais responder, pois, além do comprimento talvez incontrolável desta frase, complicou ainda mais sua tarefa e aumentou nossa confusão não apenas ao alojar uma perfeita mistura das mais disparatadas coisas dentro de nós – as calças de um policial lado a lado com o véu nupcial da rainha Alexandra – mas também ao providenciar para que toda essa variedade se mantivesse frouxamente unida, costurada por um único fio. A Memória é uma costureira e, não bastasse isso, das cheias de capricho” (p. 53).

Essas pausas é que são a nossa desgraça. (…) Uma vez, antes, ele pausara, e o amor, com seu séquito de horrores, suas charamelas, seus címbalos e suas cabeças cortadas, o sangue escorrendo pelos cabelos, entrava porta adentro” (p. 55).

Há, assim, muitos argumentos em apoio da opinião de que são as roupas que nos vestem, e não nós a elas; podemos moldá-las ao nosso braço ou ao nosso peito, mas elas moldam nossos corações, nossas mentes, nossas línguas ao seu bel-prazer. (…) A diferença entre os sexos é, felizmente, uma diferença de grande profundidade. As roupas não passam de um símbolo de algo escondido bem lá no fundo. (…) Pois aqui, de novo, chegamos a um dilema. Por diferentes que sejam, os sexos se entremesclam. Há, em todo ser humano, uma vacilação entre um sexo e outro e, com muita frequência, são apenas as roupas que mantêm a aparência de homem ou de mulher, enquanto por debaixo o sexo é exatamente oposto do que está em cima” (p. 125).

Somos, assim, forçados a concluir que a sociedade é uma daquelas infusões que governantas habilidosas servem quente na época de Natal e cujo sabor depende da precisa mistura e agitação de uma dúzia de diferentes ingredientes. (…) A sociedade é o preparado mais potente do mundo e a sociedade simplesmente não existe” (p. 128).

O fato de que as pessoas precisam se distrair diante de um tempo que parece não passar nunca é a única explicação para o crescimento monstruoso desse material todo” (p. 138).

Ela não tinha, ao que parece, nenhuma dificuldade em representar os diferentes papeis, pois mudava de sexo com muito mais frequência do que conseguem imaginar as pessoas que usavam apenas um tipo de roupa; tampouco pode haver qualquer dúvida de que por esse artifício ela obtinha um duplo proveito; as experiências de vida se multiplicavam e os prazeres que dela extraía se ampliavam. Ela trocava a probidade das calcas pela sedução das saias e desfrutava por igual do amor de ambos os sexos” (p. 145).

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