HER

Um autômato chamado amor

Já se gastou muita tinta e neurônio no debate que opõe “real e virtual”. Essa lenga-lenga, que deve ter começado com Platão, atravessou os séculos dos séculos e, em tempos de Internet, mais do que nunca, está na moda, Pierre Lévy sabe bem.

Não que discutir o assunto seja um problema: vira e mexe essa conversa produz obras bastante interessantes e até resulta num empurrão para descobertas e insights importantes. Mas quando se opõe o “de verdade” ao “de mentira”, o “real” ao “virtual”, usando escala de grandeza e tudo o mais, aí a coisa desanda. Pelo menos para quem decide observá-las dessa forma.

Imagina a cara dessa pessoa, por exemplo, ao assistir “Ela”, último filme de Spike Jonze? A trama nos apresenta Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), um cara comum que se apaixona por Samantha… um sistema operacional (voz de Scarlett Johansson).

Me lembrou “500 dias com ela”. A estética hipster, o amor infinito enquanto dura, o desastre das relações humanas… estava tudo lá. Ah sim, tinha o detalhe de Samantha ser uma máquina, mas isso não parecia importar muito. O filme é uma história de amor como qualquer outra. Menos para uma sociedade que acha que histórias de amor são reais.

Spike JonzeE é aí que “Ela” ganha uma amplitude muito maior do que a maioria das histórias de amor já contadas, especialmente aquela que Sophia Coppola, ex de Jonze, contou em “Encontros e desencontros”, que por sinal é muito chata. Mais do que fazer uma provocação sobre o amor nos tempos de fibra ótica, o longa se revela uma provocação sobre os sentimentos todos e em qualquer tempo. Afinal, tem coisa mais virtual que um sentimento? E, assim sendo, quem deliberou que ele deve ser restrito às coisas ditas reais, ou seja, aquelas que podem ser tocadas? Se foi alguém que acredita em Deus, lhe falta coerência, no mínimo.

Lacan já tinha feito essa viagem quando falou sobre a relação sexual e sua natureza fantásmica, ou seja, a relação com o outro é sempre, antes, uma relação conosco mesmos, uma projeção da fantasia concretizada no ato sexual. O que as tecnologias fazem – e Samantha as personifica – é trazer outros suportes, outros vínculos, pra essa história. As extremidades podem ser diferentes, mas a ligação não é a mesma? Por que, então, nosso excêntrico protagonista de calças “santropeito” tem que ser olhado de forma diferente do que você aí, que se masturba vendo filme pornô? Ou daquela sua prima, eternamente apaixonada pelo “homem perfeito” que jamais saberá da existência dela? Não vou nem falar da troca de fotos pelo Whatsapp. Mas falo que Zizek andou lendo Lacan e inclusive atualizou essa questão para o que chamamos de “sexo virtual”.

Aliás, o mesmo Zizek que, no delicioso documentário “O Guia Pervertido do Cinema”(o título original é mais legal – The Pervert´s guide to Cinema – porque deixa claro que o pervertido é o espectador, não o guia) disseca várias cenas de filmes clássicos pensando nessas coisas. Minha favorita é a de “Cidade dos Sonhos”, quando a cantora desmaia e descobrimos que a voz não saía dela, era dublada. No entanto, antes disso, seríamos capazes de atestar como real a cantoria. Uma fantasmagoria das melhores, dessas que, vamos combinar, são parte da matéria-prima do cinema. E das relações humanas.

Jonze sacou isso extraordinariamente bem. E casou as duas coisas de uma forma tão perfeita, que pouca gente ousa dissociá-las. Mas é prestar atenção pra comprovar: Theodore trabalha emulando sentimentos. Contratado por pessoas que querem mandar cartas aos seus familiares/amigos/afetos, ele dita as mensagens para um computador, que as escreve em “letra de mão” e envia para felizardos destinatários. É o sentimento em sua artificialidade máxima, exposta, em carne viva. Difícil entender porque aqui isso parece “condenável”, “artificial” e “pervertido” enquanto em Central do Brasil parecia emocionante, puro e humano.

O fato de que o personagem conviva mais com um videogame altamente interativo do que com alguns conhecidos de carne e osso incomoda mais o público do que o protagonista. Até porque, convenhamos, os amigos de Theodore são bem mais chatos que o bichinho boca suja do video game. Aquele boneco e Samantha, juntos, são mais interessante que todo o resto dos coadjuvantes que desfilam pela tela.

Esse mesmo público vai achar, na cena final, quando o protagonista vai ao terraço e tem um encontro com outra “pessoa de corpo”, que tudo era uma crítica à virtualidade das relações num mundo onde todo mundo se acha muito conectado mas vive sozinho. E há uma certa razão nisso.

Mas a crítica, no caso, é: essas pessoas só ficam sozinhas porque insistem em procurar um “real”, uma “essência” em seus sentimentos que, desde que o mundo é mundo, não existe. E essa ironia é ainda mais deliciosa porque tudo isso transcorre numa tela sintética branca, que reflete uma projeção feita por uma máquina, ampliando imagens gravadas numa película de prata, a partir de uma representação ensaiada e dirigida a partir de uma história imaginada por alguém e sistematizada num roteiro.

Chega a ser até engraçado – e tem ares de comicidade na melancolia de “Ela” – que alguém que considere “natural” se sentar numa sala escura para assistir uma coisa dessas e se emocionar com ela julgue o que vê na tela como algo inferior, ou mesmo diferente daquela experiência que (isso ninguém discute) lhe parece muito real. Real o bastante para que se abra o Twitter ou o Facebook e comece uma discussão com os amigos (“virtuais”) sobre o que se acaba de ver.

E é por distinções absurdas como essa que ainda tem gente que usa o argumento da “naturalidade” para controlar a sexualidade humana a partir de um sistema artificial de leis. Que se assume criação de um deus (portanto, artificial) e acha que isso é perfeitamente natural. Que jura que o que está por baixo da Matrix é melhor apenas porque não é maquínico, embora, naquele mesmo filme, Zion fosse povoada por homens híbridos de máquinas.

A essa altura, desconfio que existe um motivo para que “Ela”, em inglês, chame-se “her” e não “she”. O filme, assim como o pronome, não é reto como nossa consciência. É oblíquo, como o é nosso inconsciente.

Ela (Her)
EUA, 2013. 126 min.
Direção: Spike Jonze
Roteiro: Spike Jonze
Com: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Scarlett Johansson

Um comentário sobre “Um autômato chamado amor

  1. Concordo que a arte pode mudar o mundo e o texto foi muito bem escrito, parabéns Dimas, primeiro vida louca da história. O filme é lindo, a musica dessa leitura também e o texto muito bem escrito.

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