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A medusa de celuloide

A aproximação entre desejo e morte não é algo novo. Desde que Eva mordeu a tal maçã, sabemos que provar do fruto proibido tem consequências: culpa, inveja, ciúme, morte. Em maior ou menor grau, desejar é um mecanismo que a maioria esmagadora das culturas aprendeu a ver como nocivo. Enquanto as grandes religiões monoteístas o colocam na esfera do pecado, o budismo tenta abstraí-lo, já que desejar é também um dos vínculos que nos prende ao samsara, a eterna roda das reencarnações e do karma. É uma daquelas coisas que já vem instalada no sistema operacional do ser civilizado: desejar é errado. Mata. Lembre-se que o tabu civilizatório diz respeito ao incesto, ou seja, desejar um familiar.

Mas isso é coisa de criatura. Como criadores, é possível desejar sem se queimar, sem sujar as mãos. E desde sempre a arte nos permitiu trilhar esses caminhos, resultando em coisas tão diversas quanto a “Vênus ao Espelho”, de Velázquez, os “Contos Libertinos” do Marquês de Sade ou “Um bonde chamado Desejo”, de Tennesse Williams. É um jeitinho estético, transcendental, até, de flertar com o proibido, talvez tirando dele apenas a “parte boa”. É de voyeurismo que estamos falando. E que meio melhor do que o cinema pra ser voyeur?

O simples fato de assistir um filme, ainda que seja “A Pequena Sereia”, significa desejar: desejamos estar no lugar daqueles personagens, desejamos ser amigos deles, desejamos que eles alcancem seus objetivos, que derrotem seus inimigos. Imagina, então, quando o filme em questão trata do desejo? É de matar. Literalmente. É uma coisa meio Medusa: olhou, vira pedra.

Não é de hoje que o cinema, essa medusa de celuloide, põe a morte para flertar com o desejo e, vez por outra, isso resulta em obras de magnitude estelar, não apenas pela forma como trata o tema, mas também pela forma como, dada a própria natureza da linguagem fílmica, acaba subvertendo-a. Não estamos falando de coisas como Sharon Stone sendo femme fatale em “Instinto Selvagem”. Não. Embora seja um bom exemplo temático, não é um bom exemplo estrutural.

Janela IndiscretaMas é interessante pensar, por exemplo, em “Janela Indiscreta”, de Hitchcock. O desejo pela vizinha, ou, vamos lá, pelo outro, resulta na intrincada trama de crime e, é claro, morte. E lá está o cinema brincando de ser mais espelho do que janela: para cair na armadilha, bastou ver. É a visão o sentido responsável por desencadear o desejo e, a reboque, sua fiel companheira ceifadora. Não é a toa que a publicidade é imagem. E nem é a toa que você observa quem está observando e, afinal, partilha da sua culpa.

Outro exemplo interessante é “Anna Karenina”, especialmente a adaptação mais recente, de Joe Wright, que procura desnudar os fios e as tramas que sustentam, numa ponta, o delicioso, belo, luxuoso e luxurioso desejo e, do outro, o decadente, frio e inexpressivo fim reservado a quem ousa sucumbir a ele.  Mais uma vez, o ver é decisivo: toda a história é resumida naquele primeiro encontro entre Anna e o conde Vronsky. Dentro de um trem (onde mais?), os dois apenas se olham. Um olhar que desencadeia tudo o mais que há de vir, inclusive a locomotiva que já prenuncia sua função na trama. E todos os recursos teatrais/fílmicos que se seguem como que desdobram aquele primeiro olhar, repassando-a ao espectador em forma de dança, de diálogo, de consequência. Desejo.

Um estranho no lagoMas é possível dar ainda um passo adiante. Como fazer o espectador sentir a morte, por meio do próprio desejo e usando a linguagem fílmica? Ainda mais considerando que a morte é compatível com gêneros como terror e suspense, enquanto o desejo cabe melhor numa moldura de romance, drama ou pornô… Bom, aí chega aquele ponto onde o artista precisa dar o seu máximo e torcer sua linguagem, seu instrumento de trabalho, até onde ela se torna outra coisa, quase inimaginável. É o que Alain Guiraudie consegue com seu “Um estranho no lago”, que chega em breve aos cinemas brasileiros.

Eleito pela Cahiers du Cinéma como o melhor filme de 2013, o longa nos leva para uma esfera de desejo que já é sinônimo de proibição e até de morte, dependendo do país: o desejo gay. E ele o serve cru, pornográfico, intacto, de um jeito que as próprias pessoas que partilham dele talvez discordem. É um filme erótico com tons dramáticos. Até que a segunda parte da equação entra em jogo: a morte surge e muda o filme, que vai se tornando suspense. Vira terror. O espectador excitado pode brochar de medo.

Xavier Dolan, quem diria, andou fazendo o mesmo com seu “Tom na Fazenda”, ainda sem data de estreia por aqui. A começar pelo fato de que a trama gira em torno do luto: o namorado de Tom morreu e ele vai visitar a família enlutada, que sequer desconfia da homossexualidade do falecido, mas aceita o “namorado” no funeral dele. As relações de intriga, medo, mistério e ameaça vão crescendo e transformando o longa, que tinha tudo pra ser melodramático, num dos momentos mais desesperadores que o cinema foi capaz de fazer em 2013. Numa cena em que Tom dança um tango quase literal com a morte, fica resumido porque desejo e desgraça andam tão juntos quanto Eros e Psiquê.

E isso é genial não apenas por ser transgressor. Não apenas por colocar na tela grande, pra todo mundo ver, algo que a sociedade se esmera para colocar embaixo do tapete. Não só por mostrar que desejo e morte estão aí, os dois, para serem aproveitados sem moderação. Mas principalmente por mostrar que o cinema, como linguagem artística, é capaz de mimetizar, decodificar e materializar aquele programinha que vem instalado no teu sistema operacional. Nesse momento, ele se torna uma espécie de antivírus, acusando o Cavalo de Troia que você carregava sem nem saber e que pode, vez por outra, dar um baita pau na máquina. Não é a toa que Perseu usou um espelho para derrotar Medusa. Esses gregos, eles sabiam das coisas.

Como no antivírus, ele te dá duas opções: remover a “ameaça” e passar a viver mais livre, sem que o navegador trave quando você tenta rodar certos programas, ou colocá-la em quarentena, como muita gente deva fazer. É um caso curioso esse segundo, porque a pessoa se torna consciente de que guarda dentro de si algo de que não precisa, que pode fazer mal. Mas ela prefere manter lá, afinal, está ali há tanto tempo… “vai que eu deleto algo importante?”. Melhor ficar no mesmo estado. Virar pedra.

Isso não tira, entretanto, o poder das imagens e do som de nos fazer desejar, mesmo diante do risco. De nos fazer questionar, afinal, quantas pequenas mortes são necessárias para grandes ressurreições. E de fazer o mundo engolir isso tudo que faz questão de vomitar. Se a ideia te parece ultrapassada, dê uma olhada no rebu que “Ninfomaníaca”, filme de Von Trier sobre sexo cuja primeira parte chega aos cinemas em janeiro próximo, está causando. A julgar pelo estilo do diretor e a temática escolhida, muita gente vai morrer um pouco na sala de projeção. E muita gente vai matar um monte fora dela…

2 comentários sobre “A medusa de celuloide

  1. É Dimas concordo contigo quando diz que a arte pode mudar o mundo, sempre. Sensatas palavras sobre a nossa telinha e sobre os desejos, vontades, de cada um que assiste, realmente a cada cena acredito que muitos dos telespectadores imaginam na cena(rs).

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