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[n’dwsrk von Dmttriüx]

(…) n’dwsrk é o nome de uma “criaturinha” de difícil classificação, a começar pelo nome que lhe deram, que só apresenta consoantes, e há muitas dúvidas quanto à pronúncia adequada desse mau arranjo de letras, o que cria um obstáculo recorrente aos que tentam falar sobre ela. De hábito noturno, ao longo do dia quase não a vemos, à noite fica ainda mais difícil de avistá-la, pois uma de suas habilidades é se esconder, misturando-se à paisagem local. Já foi vista por todos os continentes o que aumenta o mistério com respeito a sua origem. Talvez esteja grafada nos desenhos rupestres, embora sua imagem seja de difícil representação. n’dwsrk na voz de um cientista se assemelha a um engasgo, já quando uma criança tenta emitir este som, ouvimos algo que lembra um agudo suspiro interrompido por pigarro. Nos anais da biologia há um embate que perdura por séculos sobre a natureza dos registros daquilo que para uns é considerado um animal e para outros um vegetal, assim como os geólogos afirmam se tratar de um mineral, na dúvida recorri aos artistas que a adotaram como se fosse um traço de pincel na água. Na ficção não encontrei nenhuma menção. Acho que a literatura às vezes tem medo de “criaturas” que parecem tão reais quando mergulhadas nas águas turvas da ficção que passam a funcionar como analisadores do estatuto da narrativa ficcional. Nem os algoritmos do Google souberam me apresentar uma resposta convincente, ou ignoraram a relevância do tema em seus critérios de busca. n’dwsrk nada, rasteja, flutua, mas não voa. Alimenta-se exclusivamente de partículas de poeira que contenham ácaros e fungos, desde que estes sejam pequenos o suficiente para poder absorvê-los, e não espirra. Seu corpo parece uma gota d’água esticada, e seu tamanho, quando adulto, não passa de dois milímetros. É inofensiva e acompanha os humanos como uma sombra imperceptível, raramente sendo notada. Do que sabemos, n’dwsrk costuma viver por décadas, e a tentativa de criá-la em cativeiro nunca deu muito certo, pois nestas circunstâncias ela se torna um ente sem vitalidade manifesta e uns poucos cientistas que tentaram a sorte, desistiram por tédio e pela falta de interesse da comunidade científica em apoiar um experimento de duvidoso alcance, com retorno financeiro perto de zero.  N’outro dia, para a minha surpresa, ao abrir em uma página aleatória, um livro que eu ainda não havia lido, percebi uma pequena mancha que atiçou a minha curiosidade. Peguei uma lupa para examinar melhor o que era aquilo que fora incorporado às margens de um romance de literatura estrangeira de um autor sueco chamado Nils Jönsson von Dmttriüx (1896 – 1962) adquirido há anos em um sebo. Logo no canto inferior da margem esquerda, perto da junção entre duas páginas, ali estava o cadáver fossilizado de uma n’dwsrk. Os romances escritos por von Dmttriüx são assaz interessantes, narram estórias de amor que se diferenciam da grande maioria de obras do gênero. von Dmttriüx não se interessa por narrar os dilemas do amor não correspondido, proibido pela família ou pela cultura e costumes de uma época ou região, com seus conflitos e desencontros, estórias que geralmente terminam em tom pessimista ou excessivamente otimista “(…) e ela morreu nos braços do seu amor, que em seguida se matou…”, ou “(…) e eles viveram felizes para sempre…”. Os livros de von Dmttriüx  começam justamente do ponto em que as outras estórias muitas vezes param: “(…) e eles viveram felizes para sempre.”. Desse modo, correspondem a possíveis livros imaginados, mas não escritos, por leitores que gostariam de continuar as estórias de amor dali por diante, de onde elas costumeiramente param. Suas estórias partem do desafio curioso de tentar narrar como funcionaria viver feliz e para sempre. Como isso seria possível? Por vezes penso que os livros de von Dmttriüx ainda estão por serem escritos em razão das (im)possibilidades de se viver feliz para sempre, embora a ficção nos permita arroubos alados, movidos exclusivamente pelas asas da imaginação. De qualquer forma, aproveito para recomendar os livros desse autor.  As estórias escritas por von Dmttriüx merecem espaço nas prateleiras das estantes das casas nem que seja para servir de cemitério para uma n’dwsrk.

 

n’dwsrk

 

Um comentário sobre “[n’dwsrk von Dmttriüx]

  1. Rogério Felipe e Camila Pavenelli são deuses, não pessoas. Os dois, juntos com o Alex Castro, são pessoas que conheci de passagem, mas que gostaria de abraçar e agradecer, pra sempre, por me ajudarem a tentar ser uma pessoa melhor.

    O Rogério é ainda pior, pois estávamos na mesma cidade.

    Muito, muito obrigado por compatilharem.

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