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O legado de um pensador autônomo

Em um texto de 1997, o filósofo Cornelius Castoriadis afirma que um filósofo autônomo define suas próprias leis, faz perguntas e não se sujeita a nenhuma autoridade – “nem mesmo a autoridade de seu próprio pensamento anterior” – ao respondê-las. Como, na maioria das vezes, os filósofos elaboram sistemas de pensamento fechados e dificilmente conseguem reavaliá-los, nem sempre é fácil abrir mão da própria autoridade. Que filósofo teria, então, atingido este nível de autonomia? Castoriadis cita Platão como exemplo, talvez não querendo se comprometer com, ou contra, pensadores modernos. A leitura do mais recente livro de István Mészáros, entretanto, pode sugerir outra resposta, e uma resposta bastante polêmica: Jean-Paul Sartre.

O filósofo que muitos criticam por sua ambiguidade e condenam por supostos “crimes” intelectuais – como a adesão ao stalinismo, que é uma falácia, e a crítica do movimento de Maio de 1968 – é revisitado com um olhar compreensivo e global no livro A Obra de Sartre – A busca da liberdade e o desafio da história, de István Mészáros.

O livro é um dos mais curiosos projetos de Mészaros, por muitos aspectos. Primeiro, o autor é um leitor bastante crítico de Sartre, e discorda do filósofo francês em vários aspectos, em especial de sua negação de qualquer limite à liberdade individual, a proposta da realização de uma sociedade sem poderes e a rejeição de qualquer tipo de determinismo sobre o indivíduo (uma possibilidade que é, em princípio, inconcebível para qualquer seguidor de Marx). Entretanto, dedicou-se a escrever sobre Sartre não para simplesmente criticá-lo (muitos já fizeram isso) e sim para compreender nele o “companheiro de armas” dos marxistas na luta contra a primazia da lógica do capital. Sartre seria, na visão de Mészáros, um aliado do marxismo que teria ido além dos marxistas por afirmar e insistir que é possível desmantelar o discurso de que o capitalismo é a única alternativa. Nesse sentido, Sartre teria defendido o que o marxismo quer afirmar, mas nem sempre consegue.

O ensaio de Mészáros também é um de seus mais longos projetos, levou mais de 30 anos para ser concluído. Pensada inicialmente como uma obra em dois volumes, a reflexão sobre Sartre precisou ser interrompida depois da publicação do primeiro – Sartre, a busca da liberdade –, em 1979. Mészáros, então, envolveu-se com sua obra Para Além do Capital, e outros escritos marxistas, e só recentemente concluiu o segundo volume dedicado a Sartre, O desafio da história. A conclusão do segundo volume motivou a reedição de toda a obra em um único livro, simultaneamente em inglês e em português.

O Sartre que nos apresenta Mészáros é muito peculiar e profundo: saem as especulações sobre sua vida excêntrica, seus hábitos, sua figura pública e ganham espaço as discussões sobre o homem de ação, pensador constantemente preocupado com questões políticas e sociais de seu tempo e angustiado com a elaboração de uma obra de relevância filosófica.

Mészáros se debruça, então, sobre os escritos sartrianos buscando integrar o conjunto da obra do filósofo francês e negando-se a fragmentá-lo em análises extensas de cada uma de suas obras – com exceção de um longo e necessário capítulo exclusivamente sobre O ser e o nada. Assim, o filósofo húngaro, considerado um dos mais importantes nomes da esquerda na atualidade, resiste ao lugar comum de fragmentar Sartre em filósofo, dramaturgo, romancista, biógrafo, contista, roteirista, articulista e militante político e busca compreendê-lo como um pensador que lançou mão de todas essas facetas para conseguir expressar suas ideias. O Sartre de Mészáros é muito próximo do Sartre ideal de Sartre, um intelectual comprometido com o processo de pensamento de tal forma que nenhum aspecto poderia ser alienado do todo. Há quem duvide que ele tenha conseguido atingir esse ideal, mas Mészáros mostra que, mesmo nos momentos em que falhou, Sartre retomou esse projeto.

Ao refletir sobre a obra de Sartre como um conjunto, Mészáros consegue apontar os fracassos, as rupturas, as continuidades, as mudanças de rumo e, mais importante, as reavaliações que Sartre fez de seu próprio pensamento. É possível, então, compreender a visão extremamente peculiar do pensador francês em relação à filosofia como uma representação do drama do pensamento, e suas opções intelectuais ao longo de sua trajetória, como o abandono do romance como forma de expressão, a opção pelo teatro e por biografias paradigmáticas, como as de Jean Genet e Gustave Flaubert, e os esforços teóricos hercúleos em obras como O ser e o nada e Crítica da razão dialética. Para chegar a essas escolhas, Sartre foi obrigado a questionar e reformular, destruir e reconstruir suas próprias premissas muitas vezes. E, como revela Mészáros, abrir mão da autoridade de suas próprias obras anteriores bem como da autoridade do comunismo, do socialismo, do marxismo e de outros “ismos” que, por mais próximos que fossem de seu pensamento, representavam também barreiras a sua autonomia de pensamento.

Sartre era um intelectual que não tinha medo de contradições, estava dedicado a um projeto em si ambíguo, a busca do particular no universal e do universal no particular, ou como Mészáros define no subtítulo da obra, à busca da liberdade sem ignorar o desafio da história. Na composição do ensaio de Mészáros, esses dois aspectos da obra de Sartre correspondem a dois momentos diversos em sua trajetória intelectual. A primeira fase, das primeiras obras e de O ser e o nada, corresponde a uma compreensão da liberdade como valor absoluto, o que o leva à negação do marxismo; a segunda, a uma reaproximação do marxismo e de modo a reconfigurar o existencialismo como uma filosofia marxista, como um “enclave ideológico dentro do marxismo” (p. 225). Uma reviravolta tão radical que não poderia ser operada sem muitos questionamentos e mudanças de rota.

István MészárosNa leitura do livro de Mészáros, acompanhamos, portanto, não apenas uma análise da obra de Sartre, mas uma exposição do processo doloroso, difícil e complexo de composição dessa obra em meio a contextos políticos e sociais de forte impacto sobre a teoria existencialista, como a Segunda Guerra Mundial, a resistência, a guerra fria e a Argélia. Diante desse mundo em que os conflitos se reconfiguravam a cada instante, Sartre sentia-se obrigado a reavaliar sua postura diante dos fatos, dos próprios erros e das precipitações de julgamento tanto em termos filosóficos como nas relações com outros intelectuais. Nesse segundo caso, é bastante ilustrativa a descrição que Mészáros, discípulo de Lúkacs, faz de sua tentativa de intermediar uma aproximação entre seu mestre e o pensador francês. Uma tentativa frustrada.

A reflexão de Mészáros sobre Sartre é difícil e complexa, mas consegue mostrar os motivos pelos quais o filósofo francês foi tão duramente atacado por todos os lados e por várias correntes de pensamento. Sartre não cedia à autoridade dos “ismos”, tinha como única meta descobrir formas de resistir a sistemas de pensamento fechados e desconectados dos fatos políticos, o que, em algum momento, necessariamente, o colocava do lado oposto de alguma corrente, mesmo aquelas que mais estimava, como o comunismo.

Isso fez de Sartre, ao longo da vida e mesmo após sua morte, um intelectual incômodo, irritante, com o qual os intelectuais mais dogmáticos nunca podiam contar, desalinhado com as linhas de pensamento dominantes e, ao mesmo tempo, tão influente quanto elas. Nenhum crime pode ser maior do que esse. Mas o que Mészáros consegue mostrar em seu livro é que, ao ler e compreender Sartre, acompanhando seu projeto intelectual complexo, ambíguo e por vezes niilista, estamos nos preparando intelectualmente para aprender a resistir a qualquer poder que desafie nossa autonomia de pensamento, tanto o poder do capitalismo quanto o poder, não menos importante, do apego a premissas, mesmo que sejam nossas próprias premissas.

Referências
Cornelius Castoriadis. “Pour un Individu Autonome” (1997), Manière de Voir – Penser le XXIe. Siècle, nº52, Paris, Le Monde Diplomatique, Juillet-Août, 2000.

István Mészáros. A obra de Sartre – Busca da liberdade e desafio da história. Tradução: Rogério Bettoni e Lólio Lourenço de Oliveira. São Paulo: Boitempo, 2012.

*A música “La Rue des Blancs-Manteaux” foi composta por Sartre para sua peça “Entre quatro paredes”.

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