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A chave de Sarah

Uma tragédia assola a vida da personagem consumida pela culpa no longa baseado em best seller de Tatiana de Rosnay
Nos dias 16 e 17 de julho de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, a França manchou para sempre o seu nome na história mundial quando a própria polícia parisiense realizou uma prisão em massa de judeus, encarcerando 13 mil deles – incluindo mulheres e crianças – no Velódromo d’Hiver.

Permaneceram ali por uma semana até muitos deles serem enviados ao lendário campo de concentração de Auschwitz. O episódio permaneceu como um tabu na França até 1995 quando, no aniversário de 53 anos do acontecimento, o então presidente Jacques Chirac fez um memorável discurso, no qual revelou: “Aqueles dias negros serão, para sempre, uma mancha em nossa história”.

A chave de Sarah (Elle s’appelait Sarah, França, 2010), longa-metragem baseado na obra homônima de Tatiana de Rosnay e dirigido por Gilles Paquet-Brenner, conta a história da jornalista Júlia (Kristin Scott Thomas) que, incumbida de realizar uma matéria sobre o episódio dos judeus, descobre a história da ficcional família Starzynski que foi separada pela verídica guerra.

A história, dramática por si só, atinge o ápice quando a pequena Sarah (Mélusine Mayance), vendo que toda a família será levada pelos policiais, tranca seu irmão Michel (Paul Mercier) em um esconderijo da casa e, acreditando que a prisão não seria longa, promete ao caçula que voltaria para buscá-lo. Assim, sozinha, Sarah tenta a todo custo resgatá-lo, enfrentando todos os perigos envolvidos na fuga.

Alternando passado e presente, acompanhamos a vida das pessoas que conviveram com Sarah desde a separação da mãe (em uma das mais cruéis e inesquecíveis cenas do filme) até seu futuro, incerto, onde a culpa pesa durante todos os anos de sua vida. E nos olhos expressivos da menina Mélusine Mayance e da bela e melancólica jovem Charlotte Poutrel (que interpreta a personagem na fase adulta) acompanhamos essa carga na qual a esperança conviveu junto ao caos. E na qual os “milhões de judeus” nos aproximam de uma família despedaçada que culmina em uma única personagem: Sarah.

Com o fim da guerra, a garota tentou seguir sua vida, porém nunca se perdoou por ter abandonado o irmão. As intenções do abandono, claro, foram as melhores possíveis, mas a decisão foi duramente repreendida até pelos próprios pais.  E a culpa que a perseguia desde a infância jamais a abandonou.

Na psicanálise, Freud define o mal-estar intrínseco do ser humano como, essencialmente, a sensação de culpa, sendo um dos maiores empecilhos no projeto civilizatório. De olhares perdidos ao silêncio quase que constante de um rosto que reluta em sorrir, fizeram da jovem Sarah uma espécie de fantasma de seu próprio passado.

Sarah não parece viver mas, sim, sobreviver, escondida em sua própria responsabilidade. Uma responsabilidade que adveio de uma escolha emocional, jamais racional, que nunca poderia ter sido feita por uma criança. Porém, a tentativa de solucionar o problema do mal-estar ao dar uma direção para a existência humana em uma significação do mundo (apaixonar-se, casar, ter filhos, livrar-se do passado que aflige) surge como alternativa para coincidir com a razão. No entanto, Sara cai em um impasse, onde a satisfação se entrava diante do sentimento de culpa.

Trocando em miúdos, é como se Sarah se anulasse, impedindo si mesma de ter uma vida que o irmão não pôde ter. Ao assistirmos A Chave de Sarah, observamos a substituição do princípio do prazer pelo princípio de realidade, em uma proteção, um prazer momentâneo e incerto, cujo intuito é conquistar o prazer seguro, conforme analisou Sigmund Freud em seus estudos psicanalíticos.

E nesta pulsão trágica, Freud descobre, ainda, uma “radical impossibilidade de harmonia do sujeito com os ideais da civilização”. E é nesse sentido que ele descreverá o mal-estar expresso sob a forma de sentimento de culpa como intrínseco não somente à personagem Sarah, mas à civilização como um todo. E o pai da Psicanálise traça este percurso para a constituição do superego: ele é formado pelos “resíduos das primeiras escolhas objetais feitas pelo sujeito e também pode ser caracterizado como uma formação reativa contra essas escolhas”.*

E naquilo que não pode ser dito, Sarah traça, literalmente, uma verdadeira genealogia da culpa, demonstrando nas diversas etapas de sua vida um percurso da angústia social ao sentimento inconsciente – e consciente – de culpa. Afinal, como Freud frisou, “o sentimento de culpa nada mais é do que uma variedade topográfica da angústia”. E, renunciando ao seu passado e à tragédia intrínseca nele, Sarah não alivia o sentimento de culpa mas, ao contrário, o acentua.

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* Para tomar como base alguns dos conceitos da Psicanálise, foram coletadas informações do texto O sentimento de culpa e a ética em psicanálise, de Taís Ribeiro Gaspar.

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