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A biblioteca está cheia de livros!

“Professor, você não acredita no que descobri: a biblioteca está cheia de livros!”. Assim, com essa fala descarada, fui recebido por um aluno semana passada. Como eu não sabia o que responder, utilizei do benefício de ser analista e poder fazer cara de paisagem sem ser considerado mal-educado por isso. Fui embora depois da aula pensando na fala desse aluno, representante de uma geração que tem como deus acadêmico o Google. Que prefere a aula virtual àquela que implica o encontro entre corpos. E para além de qualquer julgamento moral, fiquei pensando: por que fico triste com isso? E rapidamente obtive uma resposta – acabou a geração que ‘mata aula’. Explico: somos cada dia mais intolerantes frente ao mal-estar que implica viver e ter um corpo. Ter um corpo é sempre um estorvo para o ser humano, já que por mais que busquemos uma máquina perfeita de funcionamento saudável – e todas as tecnologias envolvidas na indústria do ‘bem-estar’ – nosso corpo insiste em padecer por conta de um mísero resfriado. Pois bem, o resfriado é intolerável para a geração que se alimenta bem, que não bebe, não fuma e que faz ginástica diariamente. Como também é intolerável a perda de tempo com um conhecimento inútil. Me interessei pelo tema de pesquisa de um outro aluno, e quando questionei o que lhe causava para pesquisar algo tão intrigante, ele disse: “tem muito concurso público nessa área”. E dessa vez não consegui esconder a paisagem que imprimi em meu rosto – era uma cena melancólica digna do século XIX. A questão aqui não é valorizar o conhecimento inútil, nem a cultura do livro de papel – mas como era bom poder matar aula. A aula virtual, utilitária, não permite o cigarro no corredor nem a fofoca na cantina; e, se bem me lembro, as melhores coisas que aprendi na faculdade foram essas. O imperativo do útil faz com que estejamos submetidos a um ‘bom uso do tempo’. Bom, eu também me via submetido ao imperativo do útil, mas era o fato de ter de levar meu corpo todos os dias pela manhã para ouvir o útil, que fazia com que aquela rotina se tornasse insuportável. E foi só o encontro com o insuportável que me fez inventar modos de suportar – o cigarro no corredor, a fofoca na cantina, a leitura do horóscopo e a discussão sobre o pum de deus. E foi esse o grande ensinamento que tirei da faculdade – como era importante inventar modos de suportar o insuportável. Anos depois descobri que essa era a lição da psicanálise – aprender a saber fazer com o real. Afinal existem encontros com o real – e até uma biblioteca cheia de livros pode ser um deles.

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O que eu li esse mês e recomendo: ‘O Amante’, de M. Duras (trad. Denise Bottmann, São Paulo, Cosac-Naify, 112p.). Romance autobiográfico escrito em 1984, premiado com o Goncourt – o mais importante da literatura francesa, além de ter consagrado M. Duras. Absolutamente indispensável.

O que eu vi esse mês e recomendo: ‘Deixa ela entrar’ (‘Let the right one in’ 114min, direção Tomas Alfredson, 2008): História ambientada em Estocolmo, em 1982. Linda metáfora sobre os limites do amor em domesticar a pulsão.

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Este texto foi originalmente publicado no portal IdeiasBizarras em 16 de setembro de 2011.

4 comentários sobre “A biblioteca está cheia de livros!

  1. Belíssimo texto, Bernardo.
    Fiquei pensando em como o saber-fazer hoje parece ter dado lugar ao saber-para-ser ou saber-parar-ter. Há uma ilusão de que podemos – e devemos – saber usar o tempo de forma mais vantajosa economicamente, perdendo de vista que nem tudo é útil e aproveitável, e que “aproveitar” o tempo é vivê-lo suportando o insuportável, sem aparente sentido e até contra a nossa vontade. E agora me ocorreu uma frase: saber fazer é criar sem saber.

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