Por que escrevemos assim

Porque não acreditamos na Santíssima Trindade. Porque renegamos o Pai. O Filho. E o Espírito Santo. Porque somos criaturas da terra. E no plano rastejamos. Porque nos recusamos a fazer a prova da identidade. É igual? É semelhante? É parecido? Reconhecemos? Apostamos tudo no teste da diferença. Aumenta o mundo? É estranho? Causa espanto? É irreconhecível? Isso faz a nossa cabeça. Porque não temos negócio … Continuar lendo Por que escrevemos assim

Jhumpa Lahiri – “A troca”

As palavras raramente ocorrem sozinhas; quase sempre, elas ocorrem na companhia de outras palavras. Por outro lado, as palavras não se juntam aleatoriamente em nenhuma linguagem: o modo como se combinam para transmitir significados tem sempre restrições. As restrições que não admitem exceções, particularmente aquelas que se aplicam a classes de palavras e não a palavras individuais, costumam ser registradas como regras. Outras restrições têm … Continuar lendo Jhumpa Lahiri – “A troca”

O teatro e a peste – Anaïs Nin

Em março de 1933, Antonin Artaud deu uma conferência no auditório da Sorbonne, dentro de um ciclo a cargo do psicanalista René Allendy. O tema da conferência era “O teatro e a peste”. O que se segue é um relato feito por Anaïs Nin.    Auditório da Sorbonne, fim de tarde de quinta-feira em Paris. Allendy e Artaud estavam sentados à mesa no palco. Allendy … Continuar lendo O teatro e a peste – Anaïs Nin

Do reino mais profundo

Era segredo e todos sabiam. Velado e oculto, o elemento insolúvel, todos sabiam, impérvio. Era secreto o doce enigma que transbordava nas bebidas que um jovem servia na Taverna com o melhor ponche não apenas do condado, da província, mas também de todo reino – e não apenas o ponche, mas o refresco de brasa branca, o gim de amora-amorfa, o leite de égua fermentado. … Continuar lendo Do reino mais profundo

Susan Sontag: o pensar que se faz em diálogo

“Gosto de entrevistas porque gosto de conversar, gosto do diálogo, e sei que boa parte das minhas ideias é produto da conversação. (…) Eu gosto de conversar com as pessoas – é o que me faz não ser uma reclusa –, e conversar me dá a chance de saber o que penso. Não quero saber sobre o público porque é uma abstração, mas com certeza quero saber o que pensa o indivíduo, … Continuar lendo Susan Sontag: o pensar que se faz em diálogo

O livro de deleites de Virginia Woolf

Orlando, uma biografia é tantas coisas ao mesmo tempo que é também, penso, um livro de deleites. Há, para começar, o deleite de Virginia Woolf ao conhecer Vita Sackville-West, aristocrata com quem se envolveu amorosamente de forma intensa entre dezembro de 1925 e maio de 1927*. A propósito desse encontro amoroso, repleto de desejo e deleite, Virginia escreveu em seus diários: “Com Vita por três … Continuar lendo O livro de deleites de Virginia Woolf

O espelho, um ensaio barato

Sobre os usos do espelho em geral Você entra no banheiro e sabe em poucos segundos onde de fato está entrando. Normalmente, quem denuncia logo é o espelho. Com moldura rebuscada barroco-rococó. Acompanhado de uma orquídea longilínea e um sofá. Em madeira de demolição e aplicação de folhas de ouro. Com uma moldura estilizada de espelho mesmo, matizando relevos. Com quatro pinos funcionando de moldura e … Continuar lendo O espelho, um ensaio barato