Qualquer parte do corpo está defronte

Sobre o In de Valentina Parravicini 

O que vemos são as costas de alguém. Abraçou as pernas e colocou ali enrolada a cabeça, na cavidade dos joelhos junto ao peito. Contraiu-se um pouco ostra, um pouco caracol.

Dá-nos as suas costas. De tecido, esse corpo usa só o da pele. Começa uma conversa sem palavras e sem rosto, assim, diríamos que sem roupa, compartilhando conosco uma vulnerabilidade daquelas fortes, que todos podemos experimentar, a nudez. Uma vulnerabilidade que começa na camada que esbarra, onde moram ao mesmo tempo a atração e a repulsão. Esse contato é também um modo de ver. Mas nesse encontro não nos comunicamos por um olhar que controla o que acontece.

As costas continuamente se fazem costas, como os olhos se reconfiguram a todo instante. Começam a escorrer lentamente para o lado. Pulsam para fora e para dentro, por todos os lados. Assim como a nudez, as costas marcam uma situação vulnerável. Elas são aquilo que anda conosco, mas que fica atrás. Dependendo do desenho que podemos fazer da existência em corpo, são o esquecido, o fraco, o que escolhemos deixar pra lá, pra depois ou nunca mais.

0 In, Valentina Parravicini, Atelier Concorde, Lisboa, 2011, foto Cristiano Christillin
In, Atelier Concorde, Lisboa, 2011, fotografia de Cristiano Christillin

Como humanos, acostumamos a priorizar o inverso das costas, a frente, como mediação e controle do contato. No entanto, a conversa está em toda parte, o encontro faz-se no qualquer. O corpo que encosta na parede é uma forma de ligação e de visão. Podemos concordar que somos tridimensionais. No entanto, para muitos de nós o ver está concentrado exclusivamente na frontalidade dos olhos. Normalmente não experimentamos o tridimensional no sentir e no estar – mesmo que essa história de normal não faça sentido no mundo das sensações, ainda assim podemos afirmar que preferimos fazer a imagem do corpo com a figura impressa no livro. Na imaginação do detalhe do sentir, esquecemos fáceis que existe um jardim de imagens, mares interiores nos quais podemos embalar. Este esquecimento, suspeito, nos é dado no que chamam de educação. E onde está a parte da frente daquilo que vemos com o tato? Certamente não em uma tela. As costas têm um tato diferente da parte da frente? E as infinitas micropartes, quase-lados, que nos levam ao lado propriamente dito? Esbarrar não é por onde for?

A memória do embrião

Dobrado sobre si, o corpo é um embrião. Esticadas, as costas não são de mulher nem de homem. Para a ciência, somente na décima semana de desenvolvimento o gênero é visivelmente definido. Nas primeiras semanas, algumas células indiferenciadas podem ser tanto testículo como ovário. O fundamental da formação não são as divisões binárias.

1 In, Valentina Parravicini, Atelier Concorde, Lisboa, 2011, foto Cristiano Christillin
In, Atelier Concorde, Lisboa, 2011, fotografia de Cristiano Christillin

As costas inauguram um tempo suspenso na sala. Poderia ser alguém entrando em um buraco. Ou algo se engolindo a si mesmo. Penso no buraco do si mesmo, como é sempre possível entrar mais e mais esquecendo-se de sair, mas as costas-corpo de repente se transformam num grande bloco de materialidade que me faz ver uma borracha ou um chiclete, e de repente também uma grande pedra, talvez uma matriz para um escultor, talvez rocha ou ruína.

Tecidos deslizam, cristalizam, esticam, enrugam e uma infinidade de imagens que podem surgir. E a contração vai se contraindo tanto, para dentro e mais para dentro, que poderia explodir em raiz ganhando o fora. Os caules, as flores, os troncos, a barriga, o pescoço, as membranas, os sexos, as sementes, qualquer pele, tudo pode dobrar, encaracolar, comprimir gerando curvaturas, linhas que contam histórias do movimento. Giros que mostram que os nossos desenhos de corpos em livros são o pequenino gesto de um estudo que talvez para sempre esteja engatinhando: o corpo como um vibrante criador de imagens a serem documentadas por ele próprio, não pelo que dizem dele. O despontar de uma leitura na qual, antes de sermos humanos e muito antes da identidade, somos movimento, pulso que cria ligações e também rupturas.

Ser público de costas

Será que um gesto que se dilata no espaço e no tempo não estará a convocar a nossa própria qualidade de estar com ele? Num mundo repleto de presenças interrompidas, a fragmentação dos encontros se alastra por meios cortados, como a edição de um vídeo comercial da tv. Quando porventura o corpo aterrize num presente, não raro a ansiedade toma lugar. Está claro que, hoje em dia, adentrar uma conversa ou um momento, por mais instantâneos que sejam, pode facilmente quebrar uma linha pontilhada, trazendo uma paisagem ameaçadora que desestabiliza as nossas fixações de como os contatos devem ser. Aí, escolher adentrar um encontro, para muitos, é de algum modo vibrar uma postura ou realizar um gesto radical. Talvez de costas ou de lado. Colocar-se por inteiro na presença – e que seja como for – pode nos lembrar da deformação e da provisoriedade que vive em ser qualquer corpo.

As costas que vejo convidam ao movimento da presença alargada, à imaginação solta, ao passeio da atenção pelo qualquer como materialidade do encontro. Um corpo que traz uma anêmona no fato de ser humano, delírio que de todos fosse, dançante. Compartilho esse silêncio com alguns ao lado. É tão raro poder estar em silêncio na companhia de outras pessoas que não duvido da pertinência do ajuntamento criado pela comunicação performativa. Ser público e se convidar a estar é uma mobilização superatual. Entretanto, não se trata de uma presença que se manifesta em manifestações. A estratégia política aqui, chamemos assim, não pertence à dicção da denúncia que corre ou ao grito da resistência frente a uma opressão.

A resistência do ser público está no fato de que poderemos sempre contar com a poesia em tudo o que fazemos, como nos lembra o Jean-Luc Nancy (2005). Pode ser que a poesia esteja à mão seja quando e como for. Diante dos fatos é preciso que contemos com ela para qualquer coisa. Apesar de todos os ataques, dos clichês que insistem, apesar de toda a pieguice identificada com a poesia, disfarçada em meio às canções do rádio, escondida na eficiência dos recados instantâneos, nas fotos banais, nos atropelos do cotidiano, abafada nas salas entediadas, lugar das pessoas produtivas, a poesia não perde a sua potência, mas ela a tudo dribla, pois é o recorte que perpassa todas as linguagens. Tal recorte é o silêncio que habita seja o livro, seja a dança.

O silêncio que a poesia inaugura é a possibilidade do pensamento pelo meio, da nuvem de sensações que se permite investigar, que não teme a plataforma da improdutividade. A poesia é a defesa do olhar que repara sem definir de início e que se deixa ser tocado, olhar háptico. As costas, essa existência tão silenciosa, surgem e são lembradas quando tocadas. São aquilo que em nós mesmos, inevitavelmente, vemos pelo toque. As costas olham com os olhos do tato de tocar e ao mesmo tempo ser tocado.

O sermos público do acontecimento performativo, no próprio descaramento de acompanhar o comunicador, sublinha a suspensão que as costas fazem viver no tempo, no espaço, em meio à tagarelice cotidiana. As costas continuamente se fazem a elas próprias. O deixado de lado e o que ficou para trás chegam ao olhar que divagou ou, não buscando antecipar algo no encontro, teve a ocasião de reparar. Esse olhar tem uma consistência que perpassa o silêncio da poesia, cortando a massa dos discursos e suas ordenações. O olhar das costas atravessa para além daquele discurso que exige constante confirmação, na conferência da absorção, da autoconstituição, da autocompreensão. As costas de Narciso não fazem parte de seu mito.

As costas que veem são a consideração do desconhecido, percepção em movimento, na potência de mutação em estado de atenção dançante. A poesia, aqui, é poder estar disponível mais às qualidades de existir e menos à sua inscrição (CENTRO EM MOVIMENTO-C.E.M, 2017). O encontro com materialidades, acontecimentos, pessoas e lugares está na germinação constante de relações vivas, contaminação e fermentação. Por isso pode estar de costas. Pode ser de costas. Pode fazer de costas. Estes são olhos que brincariam de assistir a uma performance fechados.

O olhar que, numa espécie de concentração às avessas, exercita o foco no embaçado e nas beiras de si. Na parte de trás, pelos cantos, na consideração do que ficou borrado no ser público de um acontecimento. Do silêncio ou da escuta que acontecem quando nos vemos vendo, na visão em lupa, na generosidade, na pergunta que é acompanhar um comunicador, nasce uma comunicação paralela aos significados já assentados, levando a conversas e silêncios que sopram poeiras. As tralhas guardadas mudam de lugar a inventar novas costas.

No In de Valentina Parravicini, estamos atrás e na frente. São as costas da bailarina que nos olham, que têm a pele a se esticar, claro está. Abraçar as pernas contrai a frente do corpo; o lado oposto responde com o movimento invertido, expande. As costas começam a se mexer para o lado, como se uma lesma soltasse uma gosma que permitisse escorregar. Subitamente, no que era apenas pele, vêm-se indícios de um corpo-mulher. Os quase-lados têm seios e as mãos desenrolam-se pelas paredes, passeiam no universo da pele e nela parecem se afundar. Lembram os prazeres que rasgam.

O corpo é mutante. Não para na consideração de ser uma coisa ou outra. De repente o que se via já não pode ser mais, mas retorna diferente. Contrair e expandir estão na movimentação básica do embrião e do corpo público que dizemos crescido. Bombear. Circular. Piscar. Mastigar. Respirar. É tão simples que se faz sem o que se chama de vontade. Isto não é muito dito por aí e vai fluindo, sempre recomeçando, no entretanto. 

Enrugar

Enrugar e esticar prefigura a imagem que inventamos da gente e de qualquer corpo que olhamos, em texturas e toques. No vaivém da pulsação, a ruga se forma. Há uma fina camada colocada em jogo no ato de se esticar. É um som inaudível.

Já no feto, o tato faz os seus caminhos primeiros, inaugurando nossas ligações com o existir. Isto bem antes da visão que nos trazem os olhos ou os outros sentidos. Pode-se dizer que os registros que temos no tato desenham as primeiras inscrições em nosso arquivo sensorial. Ainda nem apareceu aquilo que chamam de consciência e algo como percepção já se dá.

2 In, Valentina Parravicini, Atelier Concorde, Lisboa, 2011, foto Cristiano Christillin
In, Atelier Concorde, Lisboa, 2011, fotografia de Cristiano Christillin

Resta visitarmos o acontecimento endurecido de nossa educação ocidental, que funda os humanos adultos como seres em que o contato é uma negociação permanente e carente de afeto. Ao mesmo tempo em que, no longo caminho para nos tornarmos educados, deixamos de roçar, de pegar e de tatear, murchamos. Não se trata do estabelecimento de um território individual que possibilite as relações: o sentido do coletivo está cada vez mais empilhado nas metrópoles contemporâneas. Aí, em modos de vida constrangidos e vestidos pela indústria, no apartamento como salvação para a falta de tato, alguns dirão que é super in. Fica quase secreto compartilhar algo, entrar no universo de uma pessoa ou grupo, ou mesmo brincar de sentir o próprio corpo ou o de alguém sem imagens pré-fabricadas, sem a colônia de discursos de sabe-se lá que escritório de pensamentos prontos. A imagem que fazemos das mãos vem desidratada, reduzida àquela de um teclado de computador ou de smartphone.

3 In, Valentina Parravicini, cem, Lisboa, 2015, foto Christian Schwarm
In, centro em movimento-c.e.m, Lisboa, 2015, fotografia de Christian Schwarm

Enquanto isso, as nossas próprias imagens interiores correm como o mais subterrâneo Rio Doce brasileiro, que, após o cruel desastre manchado pela irresponsabilidade da mineradora Samarco, adoentado, tem os seus segredos. Há águas que correm tão fundo que podem resvalar em sonhos. Ailton Krenak (2017) lembra que a palavra sonho não é modo de amansar. Nós estamos sempre voltando. Há um novo horizonte que está sempre a correr e a corroer. Os nossos pensamentos sem pé nem cabeça são um jardim improvável, daqueles arejados. Como seria de fato estar presente, nem que seja um bocadinho? Como é ter uma experiência em que não tenhamos que nos esconder? Como é confiar que estamos vivos e que há um fluxo que é puro empenho interno, trabalho com gosto que deságua no coletivo? – mistérios dançantes.

Suspeito que só o corpo responsável por se deseducar teria o vigor para responder. Cada um a um traz o seu arquivo repleto de documentos revolucionários. Um embrião e uma nudez. O silêncio de ser um. E o outro, o outro seria a prova negativa da fotografia que fazemos dessa existência irredutível, no sentido ou na falta de sentido. O outro é uma resposta embaçada, meio sem garantias, por que não de costas? deslizando pelas nossas.

4 In, Valentina Parravicini, Festival Condomínio, Lisboa, 2016, foto Christian Schwarm
In, Festival Condomínio, Lisboa, 2016, fotografia de Christian Schwarm

 

Referências

CENTRO EM MOVIMENTO-C.E.M. Fanzine Pedras ´17, Lisboa, 2017.

KRENAK, Ailton. Do sonho e da terra. Ciclo Questões indígenas: ecologia, terra e saberes ameríndios, Teatro Maria Mattos, Lisboa, maio 2017. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=m8MI9IzdlZ8. Acesso em agosto 2017.

NANCY, Jean-Luc. A resistência da poesia. Lisboa: Vendaval, 2005.

PASOLINI, Pier Paolo. Scritti corsari. Milão: Garzanti, 1975.

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