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Jhumpa Lahiri – “A troca”

As palavras raramente ocorrem sozinhas; quase sempre, elas ocorrem na companhia de outras palavras. Por outro lado, as palavras não se juntam aleatoriamente em nenhuma linguagem: o modo como se combinam para transmitir um significado tem sempre restrições. As restrições que não admitem exceções, particularmente aquelas que se aplicam a classes de palavras e não a palavras individuais, costumam ser registradas como regras. Outras restrições têm uma probabilidade maior de admitir exceções e se aplicam a palavras individuais, não a classes de palavras. Essas restrições, por sua vez, só podem ser identificadas como padrões recorrentes na linguagem.

É assim que Mona Baker, professora e pesquisadora de tradução da Universidade de Michigan, define brevemente a relação entre regras e padrões no uso de uma língua em um livro chamado In Other Words, considerado manual importantíssimo no campo dos estudos da tradução. Jhumpa Lahiri, a escritora norte-americana vencedora do Pulitzer em 2000, publicou esse ano o autobiográfico In altre pareole [In Other Words, em edição bilíngue], em que fala de sua luta incansável para entender uma nova língua, o italiano, na busca de se expressar usando novas regras e novos padrões — restrições que, em vez de cercearem sua escrita, serviram para libertá-la e ampliar seu universo criativo. O livro foi escrito inteiramente em italiano e traduzido para o inglês não por ela, mas por Ann Goldstein (responsável por traduções para o inglês de Elena Ferrante, Primo Levi, Giacomo Leopardi, entre outros nomes), e ganhou o Premio Internazionale Viareggio-Versilia.

O livro abre com uma nota da autora, em inglês, explicando por que escolheu não traduzir o próprio livro do italiano, sua terceira língua. Não queria ter de lutar contra a vontade de “melhorá-lo, fortalecê-lo por meio de minha língua mais forte”. In Other Words tem uma escrita frágil, e nessa fragilidade está a beleza de suas páginas. Como quando ela diz de seu mergulho no aprendizado do italiano como língua escolhida: “Entro em outra terra, inexplorada, turva. É como um exílio voluntário. […] Lendo, sinto-me convidada, feliz, mas desorientada. […] Renuncio de minha competência para me desafiar. Troco a certeza pela incerteza.”

As palavras que Jhumpa desconhece do italiano são um testemunho de tudo o que ela não sabe da vida, do tanto que não sabe do mundo. Sua ignorância vira uma utilidade, pois é nela que a autora redescobre um sentido para sua escrita e a possibilidade de crescer. “Do ponto de vista criativo, nada é tão perigoso quanto a segurança. Me pergunto qual será a relação entre liberdade e limite. Me pergunto como uma prisão pode parecer um paraíso.”

Jhumpa Lahiri tem ascendência indiana e experimentou a vida toda o limite de viver entre duas línguas, o inglês cultural e o bengalês familiar. Quando tenta definir os motivos que a levaram a escrever numa terceira língua, ela fala sobre o sentido de escrever no que chama de zona periférica da língua estrangeira:

Escrevo nas margens, assim como vivi nas margens dos países, das culturas. Uma zona periférica onde é impossível para mim me sentir enraizada, mas onde me sinto confortável. A única zona à qual acredito, de certo modo, pertencer. Posso contornar a fronteira do italiano, mas o interior da linguagem me escapa. […] Creio que a consciência da impossibilidade é fundamental para o impulso criativo. Diante de tudo que me parece inatingível, me maravilho. Sem a sensação de deslumbramento pelas coisas, sem o assombro, não se cria nada. Se fosse possível preencher a distância entre mim e o italiano, eu pararia de escrever nessa língua.

O ato de escrever é a própria incompletude. No ato da escrita ela pode ser outra além de si mesma. Pensando nisso, Jhumpa Lahiri escreve seu primeiro conto em italiano, “A troca”, cuja imagem de um casaco preto é a metamorfose do que, para ela, significa a linguagem.

Confira a tradução do conto, inédito em português.

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A troca

—Jhumpa Lahiri, em tradução de Rogério Bettoni

Havia uma mulher, uma tradutora, que queria ser outra pessoa. Não tinha motivo claro para isso. Sempre havia sido assim.

Ela tinha amigos, uma família, um apartamento, um emprego. Tinha dinheiro suficiente e gozava de boa saúde. Tinha, em suma, uma vida afortunada, à qual era grata. A única coisa que a incomodava era aquilo que a distinguia dos outros.

Quando pensava no que possuía, sentia uma leve repulsa, porque cada objeto, cada coisa que a pertencia, dava-lhe uma prova de sua existência. Toda vez que se recordava de algo de sua vida passada, convencia-se de que outra versão teria sido melhor.

Considerava-se imperfeita, como o primeiro rascunho de um livro. Queria produzir outra versão de si mesma, do mesmo modo que podia transformar o texto de uma língua em outra. Às vezes tinha o impulso de remover sua presença da terra, como se fosse uma linha solta na bainha de um belo vestido a ser cortada com uma tesoura.

E ainda, não queria se matar. Gostava demais do mundo, e das pessoas. Adorava fazer longas caminhadas no final da tarde, olhando em volta. Adorava o verde do mar, a luz do crepúsculo, as pedras espalhadas na areia. Adorava o gosto de uma pera rosa no outono, a lua cheia e pesada do inverno que brilhava no meio das nuvens. Adorava o calor de sua cama, um bom livro para ler sem ser interrompida. Para desfrutar disso, viveria para sempre.

Querendo entender melhor o motivo de se sentir assim, um dia decidiu eliminar os sinais de sua existência. Exceto uma pequena mala, jogou fora ou deu tudo que tinha. Queria viver na solidão, como uma monja, para enfrentar o que não conseguia suportar. Para os amigos, a família, o homem que a amava, disse que precisava se afastar um pouco.

Escolheu uma cidade onde não conhecia ninguém, não entendia a língua, onde não era muito quente nem muito frio. Comprou roupas as mais simples possíveis, todas pretas: um vestido, um par de sapatos, e um casaquinho de lã macio, com cinco pequenos botões.

Chegou na mudança de estação. Fazia calor ao sol, frio à sombra. Alugou um quarto. Caminhava por horas, vagava sem rumo, sem falar nada. A cidade era pequena, agradável, mas sem personalidade, sem turistas. Ela ouvia os sons, observava as pessoas: algumas se apressavam para o trabalho, outras se sentavam nos bancos, como ela, com um livro ou um celular, tomando sol. Quando sentia fome, comia alguma coisa sentada num banco. Quando se sentia cansada, ia ao cinema ver um filme.

Os dias eram curtos, escuros. Pouco a pouco, as árvores perderam a cor, as folhas. A mente da tradutora se esvaziava. Ela começou a se sentir leve, anônima. Imaginou que era uma folha que caía, idêntica a todas as outras.

À noite, dormia bem. De manhã, acordava sem preocupações. Não pensava no futuro ou nos traços de sua vida passada. Estava suspensa no tempo, como uma pessoa sem sombra. No entanto estava viva, sentia-se mais viva do que nunca.

Num dia feio, ventoso e chuvoso, abrigou-se sob a cornija de um edifício de pedra. Chovia a cântaros. Ela não tinha guarda-chuva, nem chapéu. A chuva batia na calçada com um som contínuo, insistente. Pensou na jornada eterna da água, sempre a cair das nuvens, penetrando na terra, enchendo os rios, finalmente chegando ao mar.

A rua estava cheia de poças, a fachada do prédio do outro lado estava coberta de placas ilegíveis. A tradutora notou que várias mulheres entravam e saíam. De vez em quando, apenas uma ou um pequeno grupo chegava, tocava a campainha e entrava. Curiosa, decidiu segui-las.

Depois do portão, ela teve de atravessar um pátio onde a chuva estava confinada, como se caísse dentro de um cômodo sem teto. Parou por um momento para olhar o céu, ainda que se molhasse. Adiante havia uma escada escura, pela qual algumas mulheres desciam, outras subiam.

No patamar havia uma senhora magra e alta, com o rosto enrugado, mas ainda bonita. Tinha o cabelo claro, curto, e estava de preto. O vestido era transparente, sem contornos precisos, com mangas compridas e diáfanas, como duas asas. De braços abertos, ela recebia as outras.

Venham, venham, há muita coisa para ver.

Dentro do apartamento, a tradutora deixou a bolsa no corredor, sobre uma mesa comprida, assim como fizeram as outras mulheres. No final desse corredor havia uma grande sala de estar. Perto da parede, uma arara com uma fileira de roupas pretas penduradas.

As roupas eram como soldados em posição de sentido, mas inanimados. Em outra parte da sala havia sofás, velas acesas, uma mesa cheia de frutas, queijo, e um bolo de chocolate vistoso. Num dos cantos, um espelho alto dividido em três partes, para que as pessoas se vissem de diferentes perspectivas.

A dona do apartamento, que tinha desenhado as roupas pretas, estava sentada num sofá, fumando e conversando. Falava a língua local perfeitamente, mas com um leve sotaque. Era estrangeira, como a tradutora.

Bem-vindas. Por favor, sirvam-se, deem uma voltinha, fiquem à vontade.

Algumas mulheres já estavam despidas e experimentavam as roupas, pedindo a opinião de outras. Formavam uma coleção de braços, pernas, quadris, cinturas. De variações intermináveis. Parecia que todas se conheciam.

A tradutora tirou o casaquinho, despindo-se. Começou a experimentar as peças do seu tamanho uma depois da outra, metodicamente, como se cumprisse uma tarefa. Havia calças, casacos, saias, blusas, vestidos. Tudo preto, de tecidos leves e macios.

São ideais para viajar, disse a proprietária. São confortáveis, modernas, versáteis. Podem ser lavadas à mão na água fria. Não amarrotam.

As outras mulheres concordaram. Disseram que agora só usam roupas criadas por ela. Só dava para comprá-las indo até sua casa, só através de um convite. Só desse jeito, secreto, escondido, festivo.

A tradutora parou na frente do espelho. Estudava a própria imagem. Mas se distraiu com a presença de outra mulher atrás do espelho, no final do corredor.  Ela era diferente das outras. Trabalhava numa mesa, com um ferro de passar, uma agulha na boca. Tinha os olhos cansados, a cara triste.

As roupas eram elegantes, bem-feitas. Ainda que lhe caíssem bem, a tradutora não gostou de nenhuma. Depois de experimentar a última peça, resolveu sair. Não se sentia ela mesma naquelas roupas. Não queria adquirir ou acumular mais nada.

Havia pilhas de roupas em todos os lugares, no chão, nos sofás, nas cadeiras, como um monte de poças escuras. Depois de vasculhar um pouco, encontrou as suas. Mas faltava o casaco preto. Ela tinha procurado em todas as pilhas, sem encontrá-lo.

A sala estava quase vazia. Enquanto a tradutora procurava seu casaco, a maioria das mulheres foi embora. A proprietária estava preenchendo um recibo para a penúltima. Restava apenas a tradutora.

A proprietária olhou para ela, como se notasse sua presença pela primeira vez.

“E você, o que decidiu levar?”

“Nada. Estou procurando um casaquinho, o meu.”

“Que cor?”

“Preto.”

“Ah, me desculpe.”

A proprietária chamou a mulher detrás do espelho. Pediu que recolhesse as roupas do chão e colocasse tudo no lugar.

“Esta senhora perdeu o casaquinho preto”, disse ela. “Não conheço você”, continuou. “Como me encontrou?”

“Eu estava lá fora. Segui as outras. Não sabia o que tinha aqui dentro.”

“Não gostou das roupas?”

“Gostei, mas não estou precisando de nada.”

“De onde você é?”

“Não sou daqui.”

“Eu também não. Está com fome? Gostaria de um vinho? Uma fruta?”

“Não, obrigada.”

“Com licença.”

Era a mulher que trabalhava para a proprietária. Mostrou alguma coisa, uma peça de roupa, para a tradutora.

“Aqui”, disse a proprietária. “Estava escondido, encontramos seu casaco.”

A tradutora o pegou. Mas soube imediatamente, sem precisar vesti-lo, que não era o seu. Era outro, desconhecido. A lã era mais áspera, o preto, menos intenso, e o tamanho era diferente. Quando o vestiu, quando se olhou no espelho, o engano ficou evidente.

“Não é o meu.”

“Como disse?”

“O meu é parecido, mas não é esse. Não reconheço esse casaco. Não me cai bem.”

“Mas deve ser esse o seu. Ela organizou tudo. Não há nada no chão, nada nos sofás, veja.”

A tradutora não queria aceitar o outro casaco. Sentiu antipatia por ele, repulsa.

“Não é meu. O meu sumiu.”

“Mas como?”

“Talvez outra mulher o pegou sem perceber. Talvez tenha havido uma troca. Será que outras clientes estavam usando um casaco como esse?”

“Não me lembro. Tudo bem, vou verificar, espere.”

A proprietária se sentou de novo no sofá. Acendeu um cigarro. Depois começou a fazer uma série de chamadas. Explicou para uma mulher depois da outra o que tinha acontecido. Trocou algumas palavras com cada uma.

A tradutora esperou. Estava convencida de que uma delas tinha levado seu casaco, e o que ficou para trás pertencia a outra.

A proprietária desligou o telefone.

“Sinto muito. Perguntei para todas. Ninguém estava usando um casaco preto hoje. Só você.”

“Mas este não é o meu.”

Ela tinha certeza de que não era o dela. Ao mesmo tempo, sentiu uma incerteza imensa, que a consumiu e neutralizou tudo, que a deixou sem nada.

“Obrigada por ter vindo, até logo”, disse a proprietária. Depois não disse mais nada.

A tradutora se sentiu confusa, vazia. Tinha ido para aquela cidade à procura de uma outra versão de si mesma, uma transfiguração. Mas entendeu que sua identidade era insidiosa, uma raiz que ela jamais conseguiria extirpar, uma prisão onde ficaria encarcerada.

No corredor, ela quis se despedir da mulher que trabalhava para a proprietária, detrás do espelho, numa mesa. Mas ela não estava mais lá.

A tradutora voltou para casa, derrotada. Foi obrigada a vestir o outro casaco, pois ainda chovia. Naquela noite, dormiu sem comer, sem sonhar.

No dia seguinte, quando acordou, viu um casaco preto numa cadeira no canto da sala. Era-lhe de novo familiar. Ela sabia que o casaco sempre tinha sido dela, e que sua reação no dia anterior, a pequena cena que tinha feito na frente das outras duas mulheres, tinha sido completamente irracional, absurda.

No entanto, esse casaco não parecia mais o mesmo, não o que ela tinha procurado. Quando o viu, não sentiu mais repulsa. Na verdade, quando o colocou, o preferiu. Não queria mais encontrar o que tinha perdido, não sentia falta dele. Agora, quando o vestia, ela também era outra.

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lahiri capa
“Lo scambio” | “The Exchange”
— Jhumpa Lahiri, In altre parole | In Other Words (tradução para o inglês de Ann Goldstein. Toronto: Alfred A. Knopf, 2016), p. 66-81 (Edição bilíngue).

 

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