artaud

O teatro e a peste – Anaïs Nin

Em março de 1933, Antonin Artaud deu uma conferência no auditório da Sorbonne, dentro de um ciclo a cargo do psicanalista René Allendy. O tema da conferência era “O teatro e a peste”. O que se segue é um relato feito por Anaïs Nin. 

 

Auditório da Sorbonne, fim de tarde de quinta-feira em Paris. Allendy e Artaud estavam sentados à mesa no palco. Allendy apresentou Artaud. O auditório estava cheio.

O quadro-negro formava uma estranha tela-de-fundo.

Havia pessoas de todas as idades, seguidores das conferências de Allendy sobre as Novas Ideias.

A luz era fraca. Fazia os olhos de Artaud, em sua profundidade, se encolherem no escuro, o que colocava em relevo a intensidade de seus gestos.

Ele parecia atormentado. Seus cabelos, bastante longos, caíam, o tempo todo, sobre a testa. Ele tinha a agilidade e a rapidez de gestos de um ator. Seu rosto é magro, como se assolado por uma febre. Seus olhos não parecem ver as pessoas. São os olhos de um visionário.

Suas mãos são longas, os dedos longos. Ao seu lado, Allendy parece terreno, pesado, cinza. Ele fica ali sentado, enorme, meditativo. Artaud se levanta no palco e começa a falar sobre o “Teatro e a Peste”.

Ele tinha me pedido para sentar na primeira fila. Parece-me que tudo o que ele está pedindo é mais intensidade, uma forma mais elevada de sentir e de viver. Ele está tentando nos fazer lembrar que foi durante a Peste que surgiram tantas obras dramáticas e tantas obras de arte maravilhosas, porque, assolado pelo medo da morte, o homem busca a imortalidade, ou busca escapar ou se superar.

Mas, então, quase imperceptivelmente, ele abandona a trama que estávamos seguindo e começa a representar a morte pela peste.

Ninguém nunca soube bem como começou. Para ilustrar sua conferência, ele estava representando uma agonia.

“Peste” é uma palavra que soa terrível. Mas nenhuma palavra podia descrever o que Artaud estava representando no palco do auditório da Sorbonne.

Ele se esqueceu da conferência, do teatro, de suas idéias, do dr. Allendy ali sentado, do público, dos jovens estudantes, dos professores, dos diretores.

Seu rosto estava contorcido de angústia, podia-se ver seu suor empapando seu cabelo. Seus olhos estavam dilatados, seus músculos ficaram paralisados, seus dedos se esforçavam por reter sua flexibilidade.

Ele nos fazia sentir a garganta ressecada e ardente, as dores, o medo, o fogo no estômago.

Ele estava agoniado.

Ele estava gritando.

Ele estava delirando.

Ele estava representando sua própria morte, sua própria crucifixão.

No começo, as pessoas simplesmente ficaram atônitas.

E então começaram a dar gargalhadas.

Todo mundo estava gargalhando.

Elas assobiavam.

E então, um a um, elas começaram a sair, ruidosamente, falando, protestando.

Elas batiam a porta com força à medida que saíam.

Os únicos que não se mexeram foram Allendy, sua esposa, os Lalou e Marguerite.
Mais protestos.

Mais gracejos.

Mas Artaud continuava, até o último suspiro.

Ele continuava no palco.

Então, quando o auditório se esvaziou totalmente, exceto pelo pequeno grupo de seus amigos, ele caminhou diretamente em minha direção e beijou minhas mãos. Ele me pediu que fosse ao Café com ele. Todos os outros tinham outras coisas para fazer.

Todos nos despedimos à porta da Sorbonne, e Artaud e eu caminhamos em meio a um leve sereno. Nós caminhamos, nós caminhamos, através das ruas escuras.

Ele estava magoado, ferido, desconcertado pelos gracejos.

Ele despejou sua raiva.

“Eles sempre querem ouvir sobre alguma coisa; eles querem ouvir uma conferência objetiva sobre o teatro e a peste, eu quero lhes dar a própria experiência, a própria peste, de forma que eles fiquem horrorizados, e despertem”.

“Eu quero despertá-los. Porque eles não se dão conta de que estão mortos. Sua morte é total, como a surdez e a cegueira. Essa é a agonia que eu retratei. A minha, sim, e de todos que estão vivos”.

O sereno caía sobre seu rosto, ele afastou os cabelos da testa. Ele parecia tenso e obcecado, mas agora falava tranquilamente. Sentou-se no Café La Coupole. Esqueceu-se da conferência.

“Nunca encontrei alguém que sentisse como eu sinto. Eu fui um viciado em ópio por quinze anos. Deram-me ópio pela primeira vez quando eu era muito jovem, para acalmar dores terríveis na minha cabeça”.

“Sinto, algumas vezes, que não estou escrevendo, mas descrevendo as lutas com a escrita, as lutas do nascimento”.

Ele recitou alguns poemas. Falamos sobre forma, teatro, seu trabalho.
“Você tem olhos verdes que às vezes parecem violetas”.

Ele foi ficando gentil e calmo.

Caminhamos outra vez, na chuva.

Para ele a peste não era pior do que a morte pela mediocridade, a morte pelo comercialismo, e a morte pela corrupção que nos rodeava.

Ele queria tornar as pessoas conscientes de que elas estavam morrendo. Forçá-las a um estado poético.

“A hostilidade só prova que você os perturbou”, eu lhe disse.

Mas que choque era ver um poeta sensível confrontar um público hostil! Que brutalidade, que feiura no público.

 

— Tradução: Tomaz Tadeu

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