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O tempo hiperlogarítmico das redes sociais

A velocidade do tempo é variável: minutos que parecem horas, horas que parecem minutos. Um dos primeiros a propor uma teoria sobre essa percepção subjetiva do tempo foi o filósofo francês Paul Janet, no final do século XVIII. Segundo Janet, nossa percepção do tempo se dá através de uma função logarítmica. Em termos práticos, isso quer dizer que, no começo da nossa vida, percebemos os anos como se eles fossem mais dilatados e estendidos. Para quem, assim como eu, tem suas brigas com a matemática, explico a ideia de percepção progressiva do tempo com um exemplo simples: aos 2 anos de idade, um ano equivale a 50% de nossa existência. Todas as vivências estão contidas naquele período de tempo. Aos 50 anos, por sua vez, um ano equivale a 2% de nossa existência. Ou seja, aos 50, um ano passa muito mais rápido do que quando você tem apenas 2 anos.

Um dos aspectos que mais chamam minha atenção para essa distorção involuntária do tempo é o fato de ele ser uma das pouquíssimas coisas que possuímos. E também não o é. A inacessibilidade e a volubilidade do conceito o tornam ambíguo. Só sabemos que temos o tempo garantido quando já passou. E uma vez passado, só é possível acessá-lo através da memória. Por outro lado, assumir que temos minutos, horas, dias, meses e até mesmo anos pela frente é apenas arriscar um palpite. Então, a simples percepção de uma das poucas coisas que de fato possuímos como certas na vida é modificada continuamente e de forma intensa. E mesmo nessa posse, que também é não-posse, o tempo voa. E voa cada vez mais rápido.

Buscando justamente investigar essa questão, o designer austríaco Maximilliam Kiener criou um site em que é possível ter uma dimensão dessa velocidade progressiva do tempo através da rolagem da página na tela. Toda a extensão da página representa os anos de vida de uma pessoa, e quanto mais você desce, mais rápido a página, e, metaforicamente, o tempo, vão passando. No meio das comparações, o designer explica algumas das teorias a respeito da nossa percepção do tempo.

marcela - 80tempos

É como se olhássemos nossa vida pelo retrovisor de um carro em movimento. Quanto mais andamos, menores vão ficando as coisas que vamos deixando para trás.

Mas por que cada vez mais as redes sociais insistem em nos fazer olhar pelo retrovisor? Por que fomentar essa nostalgia? O Facebook já tem até seu próprio aplicativo nativo, o On This Day, que resgata o que você postou naquele mesmo dia em diferentes anos. E já é possível, inclusive, filtrar datas e pessoas das quais não queremos ser lembrados. É a criação de uma memória seletiva, de uma nostalgia forçada das coisas que compartilhamos todos os dias nas redes sociais. Por outro lado, o resgate de memórias recentes de um, dois anos atrás, cria um culto à obsolescência. Vivemos isso constantemente na internet: quem lembra de quando o assunto mais falado do Twitter era um vestido que mudava de cor? Apesar de ter sido em fevereiro de 2015, temos a impressão de que o fato ocorreu há muito mais tempo, porque diversos outros assuntos, tão superficiais quanto, ganharam visibilidade. E a maioria se perdeu na mesma velocidade, talvez até mais rápido. A internet potencializou a obsolescência e passamos a ser pautados por ela a partir do momento em que apreendemos o que ocorre, mas não apreendemos o quando.

Por outro lado, se analisarmos, como dizia Walter Benjamin, a estreita passagem que é o presente, pela qual passamos empurrados pelo passado para sair no futuro, a ideia do hoje é extremamente limitada. O agora é uma janela de tempo ínfima em relação ao tempo do universo (e, ainda assim, a cada vez que olhamos por ela, vemos tudo de forma diferente). E essas janelas do tempo são o projeto desse outro designer britânico, Luke Twyman: Here is Today.

mnarcela - here is today

Criamos uma nova categoria no tempo e nos tornamos um paradoxo. O retrovisor começa a ficar desgastado com nossos olhares cada vez mais frequentes e demorados para o passado, sobretudo por intermédio da tela. Contudo, ansiamos de tal forma pelo futuro que tudo se torna obsoleto numa velocidade inimaginável. Nossas percepções se tornaram hiper, tanto para mais quanto para menos, tanto no passado quanto no futuro. Ao mesmo tempo, o nosso presente representa uma ínfima janela temporal de toda uma história, de todo um eixo, e estamos constantemente ignorando a fugacidade do único momento que nos cabe: o presente. E, por fim, agora não é apenas o passado que nos empurra pela janela do presente para o futuro, mas também empurramos o futuro para o passado, no anseio de revisitá-lo em breve.

 

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