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Do reino mais profundo

Era segredo e todos sabiam.

Velado e oculto, o elemento insolúvel, todos sabiam, impérvio. Era secreto o doce enigma que transbordava nas bebidas que um jovem servia na Taverna com o melhor ponche não apenas do condado, da província, mas também de todo reino – e não apenas o ponche, mas o refresco de brasa branca, o gim de amora-amorfa, o leite de égua fermentado.

Todos que atravessavam o bosque – necessidade de mantimentos ou de fumo, tráfego obrigatório das vilas ou mesmo passeio – entravam felizes na Taverna e pediam goles, doses, litros de mistério para festejar e brindar nenhuma outra coisa senão a pobre maravilhosa vida.

Pensavam lá os homens, cofiando suas barbas, que o segredo devia estar no modo único como o jovem armazenava cada bebida.

― Ou então, certamente, trata-se da temperatura. Um frio ou um quente que faça gemer nos goles da beberagem!

― Quem mais aposta, moída, canela dobrada no leite de égua? Ou uma pitada de pó-de-ão na cerveja?

― Talvez coloque apenas algumas gotas de limão no ponche!

Algumas gotas, sim. Mas não eram de limão.

Não que fossem doces as gotas derramadas sobre a superfície incerta e lisa, avermelhada do ponche. E por mais que fossem claras, atravessadas pelo invisível, eram turvas. Porque eram lágrimas! Lágrimas!

Tão transparentes e pequenas eram que não se podia notar as doses desiguais e compactas de delírio e paixão que carregavam consigo. Um tanto assim de alívio. Solidão a gosto. Não havia, óbvio que não, qualquer canela ou limão com propriedades tão raras. Por isso, os sábios e os copeiros, com cálices e cornos, tentaram em vão revelar o líquido segredo. Videntes e magos, com pó e poções, deram no mesmo.

Aquilo relaxava a língua mas aguçava todos os sentidos. Cada cantinho da boca parecia inundado, parecia um oceano. Alguns mudavam a cor dos olhos, outros viam tudo mais colorido. Era como se, com a língua submersa, digamos, no café que o jovem tirava, um anzol surgisse e ficasse dançando nas águas que faziam de dentes, enseada. Não um anzol metálico, de pesca e peixe, mas outro, de material distinto, que fisgava a alma, pescando-a até a superfície de si mesma.

Das bebidas falava-se demais, era do jovem que ninguém podia dizer muito.

Por mais que guardasse um segredo, e todos notavam isso, ficava claro também que era um moço sem disfarces. Não era mudo, apenas dizia quase nada. Às vezes, raramente, ouvia-se o som do seu sorriso. Pela raridade, breve bálsamo.

Quantos anos? Havia família? Sempre fora só? E a Taverna? De quem comprara? Ou tratava-se de uma herança? Mistério. Davam notícia apenas do peito cansado, um ar pesado ou escasso, a boca sempre aberta. Nada mais.

Ao fim do dia isso pouco importava.

Contanto que não privasse ninguém de suas bebidas tudo estava certo.

Um dia pensou que não teria lágrimas para todas as taças, cálices, canecas e copos. Foi preciso às pressas repor tonéis e tonéis de hidromel, garrafas e mais garrafas de conhaque, pisar ligeiro as amoras, pois tantos entravam na Taverna – mas ninguém saía! E o lugar que era imenso de repente ficou pequeno demais e com um mar de braços suspensos, canecas de espuma, cobrindo o jovem atrás do balcão, exigindo mais e mais lágrimas! Tudo tão rápido e tão exaustivo que ele mesmo tirou para si uma dose de conhaque, pingou duas lágrimas e engoliu seco o choro sem pranto.

Subitamente, a Taverna estava quase vazia. E digo quase porque ele ainda estava lá. Secando o suor frio da testa. Recolhendo as cadeiras. Passando o trinco nas janelas. Emborcando o último copo. Tentando respirar.

Saiu da Taverna e buscou o caminho de casa. A fadiga era tanta que cegava. Noite posta despercebida.

No trajeto de costume, ao passar pela ponte, o jovem sentiu sua face embrasar e estranhou. Ao meio da ponte, no centro do arco, se debruçou para ver-se refletido no rio. Lá estava seu rosto moreno tomado por um tom escarlate. Então, já com a postura alinhada, apesar da dificuldade para respirar, pela primeira vez suspirou. Ao meio da ponte, no centro do arco, debruçou-se outra vez e esperou que viessem as contas liquefeitas.

Quando a primeira lágrima veio, escorreu leve e sem pressa pelo rosto que apenas sabia do tempo sem conhecê-lo. E como veio, logo foi, mínima gema espelhada, tornar-se um rio inteiro.

Talvez o suspiro, o cansaço, talvez por ter engolido o próprio choro. Mas dessa vez o rapaz tentou conter a lágrima. Mesmo já fora dos olhos, um dique com as mãos. O gesto leve, mas vigoroso, pediu mais corpo! E mais ele se debruçou! E mais lágrimas vieram e de mais gestos ele precisou para, em vão, tentar reter aquele pequeno dilúvio em seu rosto. E o rio começou a correr mais depressa! E a ponte parecia de repente alta demais, mais arqueada, e até a noite, ressentida, parecia íngreme demais com tantas estrelas cadentes!

Foi então, no derradeiro suspiro, que ele saltou para fora da ponte. Um giro súbito, um nó desfeito no vácuo. Enquanto caía, guelras se abriram no pescoço. Enquanto caía, membranas entre os seus dedos. Já inseparável da queda, e da calda, o jovem prateou com força no ar e mergulhou fundo no rio. E quanto mais fundo ia, melhor respirava.

 

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Imagens: Dylan Furst 

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