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Susan Sontag: o pensar que se faz em diálogo

“Gosto de entrevistas porque gosto de conversar, gosto do diálogo, e sei que boa parte das minhas ideias é produto da conversação. (…) Eu gosto de conversar com as pessoas – é o que me faz não ser uma reclusa –, e conversar me dá a chance de saber o que penso. Não quero saber sobre o público porque é uma abstração, mas com certeza quero saber o que pensa o indivíduo, e isso requer um encontro cara a cara”
Susan Sontag

O que faz uma boa entrevista, as perguntas ou as respostas? Se esta fosse a pergunta de uma entrevista, a resposta adequada seria: ambas, pois umas dependem das outras e é o encadeamento, a percepção do entrevistador em não deixar nenhuma possível pergunta em aberto e a capacidade do entrevistado em oferecer respostas interessantes e sintéticas que transformam a entrevista em uma leitura interessante. Mas essa é uma resposta muito fácil e muito racional.

O que faz uma boa entrevista, em minha opinião, é aquilo que a distancia da entrevista. É a impossibilidade de prever, pela pergunta, qual a resposta adequada. Toda vez que a resposta é previsível, nos vemos diante de um estilo jornalístico que pretende excluir a intersubjetividade e dar ao entrevistador o poder de obter palavras do entrevistado que ele não diria em outra situação, como se tivesse sempre algo a esconder.

Penso na boa entrevista como o oposto disso: uma relação em que predomina a intersubjetividade, o diálogo, a conversa, em que nada está sendo escondido por ninguém, mas em que entrevistador e entrevistado descobrem juntos algo novo. E quem lê não apenas testemunha essa descoberta, mas também acrescenta novos elementos a ela, sejam eles identificação, discordância, riso, emoção, desconfiança, ou tudo o que implique essa ação de “pensar junto”.

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O livro que traz a íntegra da entrevista concedida por Susan Sontag (1933-2004) a Jonathan Cott, para a revista Rolling Stone, em 1978, é um exemplo desse tipo de entrevista. (Outro exemplo de que consigo me lembrar agora é o livro O poder do mito, entrevista de Bill Moyers com Joseph Campbell).

Ao ler Entrevista completa para a revista Rolling Stone (trad. Rogério Bettoni, Autêntica, 2015), participamos então de uma conversa entre Cott e Sontag. E o que cada um traz para essa conversa?

Sem perguntas prontas nem questionamentos agressivos ou indiscretos, Cott traz seu preparo e uma forte capacidade de ouvir e formular perguntas interessantes. Ele conhece as obras de Sontag (de quem foi aluno e amigo) e as referências, principais intelectuais e ideias com as quais ela dialogava. E não teme nem os questionamentos simples – do tipo “fale-me sobre…” – nem perguntas de marcada tendência filosófica, em que as ideias de Sontag são associadas a pensadoras como Simone de Beauvoir, escritoras como Elizabeth Hardwick e Laura Riding, ou nomes assustadores como Nietzsche e Kant. Com essa desenvoltura entre o simples e o complexo, Cott consegue formular perguntas que estimulam Sontag a produzir pequenos ensaios reflexivos sobre os mais variados temas presentes em suas obras.

Foi aí que, como leitora, encontrei o maior prazer que esse livro pode proporcionar e o maior desafio. A leitura é desafiadora porque nem sempre dominamos todas as referências da conversa (e para ajudar nisso, a edição traz, ao final, uma excelente lista de obras e autores citados). Para a leitura dessa entrevista, portanto, é preciso que leitores e leitoras tragam sua disposição de explorar o texto, intrigar-se com as referências e anotá-las para uma próxima leitura.

Já Susan Sontag colabora com esse “encontro de subjetividades” com o que ela tinha de mais notável. Sontag escreveu romances, tinha uma forte atração pela ficção, que explorou na literatura e no cinema, mas é inegável que seu grande talento era o ensaio. A sofisticação de suas ideias e a variedade de experiências, referências, memórias e breves digressões que ela é capaz de reunir são a matéria básica dos ensaios. Além disso, ela tinha um forte compromisso com a “observação do mundo”, como ela chamava, o que inclui a arte, a literatura, a política, as relações sociais e também as insignificâncias cotidianas. E, ao longo da entrevista, é esta Sontag que vemos em ação.

Ao longo da conversa, vemos Susan abraçar os temas propostos pelo entrevistador – o câncer, a literatura, a arte, o feminismo, a política norte-americana, a temporalidade, a música, o amor – e ensaiar profundas reflexões sobre esses temas. Misturando às respostas suas experiências pessoais, ideias de seus textos e referências de uma vida passada lendo quase que 13 horas por dia (de Proust a revista Mad), Sontag explora esse seu olhar para o mundo. Desse modo, ficamos conhecendo um pouco mais de suas obras, de seus gostos literários e cinematográficos, de sua vida, mas sobretudo de seu modo de reflexão, que é peculiar e, muito provavelmente, o que a transformou em uma intelectual de tanto destaque na segunda metade do século 20.

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Sontag não reduz nenhum tema ao binário ou ao absoluto. Ela explora as zonas em que os opostos se misturam, não onde se separam. Isso permite que ela, por exemplo, faça críticas a algumas posturas do feminismo radical (forte nos anos 1970) que indicavam já as contradições desse movimento – entre elas uma segregação ainda maior das mulheres – que só posteriormente foram apontadas. É também essa postura intelectual que a leva a realizar nessa entrevista, por quatro ou cinco páginas, uma bela reflexão sobre a ambivalência em que culturalmente enredamos o amor e a sexualidade.

Não é por acaso que citei como exemplos o feminismo e o amor. As falas de Susan Sontag nesse livro – em que por vezes a vemos dialogando com Cott, e por vezes sentimos que ela fala olhando em nossos olhos – nos colocam em constante oscilação entre pensamento e sentimento, a reflexão sobre o mundo, e a reflexão sobre nós mesmos, até encontrar o ponto de equilíbrio.

Em princípio, essa experiência parece curiosa ao leitor, e involuntária. Mas no meio da entrevista, Susan Sontag se revela: “Uma das minhas campanhas mais antigas é contra a distinção entre pensar e sentir, o que é a base de todas as visões anti-intelectuais: cabeça e coração, pensamento e sentimento, fantasia e julgamento […] Tenho a impressão de que o pensar é uma forma de sentir, e que o sentir é uma forma de pensar” (pp. 67-68).

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