fred canuto

Jardins movediços

No jardim de uma casa, a sala de visita se move. 

A casa, no fundo de um lote, é uma coleção de materiais vindos de diversos depósitos de materiais de construção: portas metálicas cinzas, janelas sasazaki, tijolos cerâmicos à mostra. Uma bricolagem kitsch. As janelas blindex expõem um desejo de ascensão e pertencimento social distante do contexto em que realmente habitam.

Logo à frente, um gramado e um jardim que, vistos a média distância, parecem bem cuidados e aparados, com plantas e árvores verdes e delicadas, decorados com puffs e tapetes. O espaço externo faz parte da casa, sendo decorado como tal qual uma sala de visita.

Num rápido olhar, tudo parece o que realmente é. Aproximando-se de modo mais vagaroso, há algo mais ali.

A vegetação bem cuidada e quase brilhante ganha outros contornos. O gramado verde demais e aparado de forma homogênea saiu de uma fábrica. As plantas, altas e baixas, samambaias à frente e bananeiras ao fundo, brilham. Ao serem cheiradas, não exalam odor algum. Ao serem tocadas, plastificações.

Campo de grama, plantas e flores, tudo de plástico. Como se banhado em formol, tal espaço naturalizado não sente o tempo passar. Permanece incólume à ação do tempo.

Construído à frente, tal jardim artificial é também um dispositivo de captura. Captura de metros quadrados. Captura de propriedade.

Após o redesenho e o alargamento da via bem diante da casa, motivados pela necessidade de aumentar o transporte de pessoas e mercadorias na grande cidade, foram subtraídos pedaços de diversos lotes. Muitos desses terrenos, antes retangulares, tornaram-se trapezoidais devido a uma desapropriação parcial. Nesses cortes e recortes, portanto, o redesenho de quarteirões acabaram, por sua vez, redesenhando tamanhos de propriedades. Surgem dimensões e formas imprecisas e diferentes da geometria da cidade dita formal, dada pelo traço regulador do desenho urbano.

O dono da  propriedade, com tal imprecisão, percebe uma possibilidade de aumentar sua casa. Com plantas e jardins moventes, captura um pedaço a mais, para além e indo além, de qualquer precisão pretensamente dada por uma cartografia planialtimétrica ou pela foto aérea de um googlearth. De tempos em tempos, aumenta seu jardim-sala de visitas, deslocando alguns centímetros para frente suas plantas e gramados plantados na superfície.

Cultiva-o como aparelho de guerra. Se a prefeitura ou governo do Estado retirou-lhe um pedaço de terreno – que, aliás, lhe foi dado por usucapião, pois o terreno foi invadido, e após mais de uma década de apropriação, tornou-se próprio – ele o tem de volta num processo rotineiro de ocupação.

Uma tática de guerra para conquistar o território inimigo. Em vez de grandes planos, milhares de reais em indenizações, operações urbanas consorciadas ou parcerias público-privadas que deixam visíveis negócios na mídia, um pequeno deslocamento de centímetros a cada dia, sem que ninguém perceba, aumenta e especula, de outra maneira, a forma, o desenho e o espaço da cidade.

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