Obra de Yeong Ja Jung, da série Exposure on the Mirror (1980)

O espelho, um ensaio barato

Sobre os usos do espelho em geral

Você entra no banheiro e sabe em poucos segundos onde de fato está entrando. Normalmente, quem denuncia logo é o espelho. Com moldura rebuscada barroco-rococó. Acompanhado de uma orquídea longilínea e um sofá. Em madeira de demolição e aplicação de folhas de ouro. Com uma moldura estilizada de espelho mesmo, matizando relevos. Com quatro pinos funcionando de moldura e sustentação. Sem moldura e sem pinos, pregado como dá à parede. Com o fundo prata descascado e com mensagens deixadas por fantasmas longínquos. Com manchas do século passado, carregando toda a memória daquele lugar inscrita ali. Sem espelho.

Mas quem precisa de espelhos hoje em dia?

Antes, era comum as lojas de um e noventa e nove venderem pequenos bibelôs de bolsa. Espelho no porta-batom, na escova de pentear ou somente ele mesmo, de modo simples, com uma casca protetora, desses materiais baratos.

Hoje os espelhos custam caro e são como essas opções aí de cima. Dos com folha de ouro ao simplesmente espelhos.

Na verdade, os espelhos sempre custaram caro. A diferença está no tamanho e na função. Caro antes era a extensão, hoje é a função.

O mais comum hoje é uma variedade de dois ou três tamanhos — a depender da atualidade de seu portador — e é conhecido como espelho preto.

O espelho preto cabe no bolso e pode ser apontado para qualquer lado e qualquer objeto. Não está pregado a nada, a não ser à mão de quem é portador. Aliás, de quem é sua propriedade. Mas obviamente ele aponta para a face mais bela. Pois essa é a sua função.

O espelho preto, como todo espelho, é um abismo. Há quem nunca saia dele. Há quem permaneça nas bordas e ali brinque, testando os limites das bordas. Há quem o use para tirar a casquinha de feijão. Há os que nunca deixam de usá-lo, para quem tudo é motivo. Há, sempre há, uns poucos, que nunca o usaram ou nunca desenvolveram uma dependência química em relação a ele (Esses são os que não entram nas histórias; não conhecemos suas faces).

A função do espelho, proporcional ao seu valor, é canalizar a libido. Mantê-la no movimento do jogo dos reflexos. Indo e voltando, numa epopeia narcísica, porém inerte. Alguns diriam, uma epopeia sob uma esteira ergométrica. Canaliza-se teras de energias, não se desloca um metro.

O espelho preto é preto por uma questão de design. Pode vir em madeira de demolição. Em bambo orgânico das ilhas polinésias. De aço inóx escovado, quiçá galvanizado. De madeira de reflorestamento cultivada por uma start-up disruptiva. De acrílico e purpurina. De plástico e trabalho escravo. De espuma em formato de bicho — desses que você nunca imaginou possível.

Por isso, com a profusão dos espelhos, o que se nota é que a realidade tornou-se um mero reflexo.

Gaelle Cressent - Anima (2010)
Gaelle Cressent – Anima (2010)

6 comentários sobre “O espelho, um ensaio barato

      1. pois é, não sou uma pessoa muito boa de séries (acompanho mal as novidades – mas vi sense8, ufa!)
        Vi uma notícia que ainda a nova temporada de Black Mirror vai ser disponibilizada no Netflix. As anteriores, não. Pelo que li a respeito parece bem interessante.

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