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De olhos abertos para o CHVRCHES: Entrevista com Lauren Mayberry

Podemos dizer, grosso modo, que a história do synth-pop começou lá no finalzinho da década de 1960 com o surgimento do quarteto alemão Kraftwerk. Qualquer artista eletrônico que viesse depois deles teria não só de escutá-los, mas de assumir algum tipo de influência. Dessa história iniciada e popularizada com “The Model” e consagrada pela crítica com “Music Non Stop”, destaco três grupos que se impuseram como exponentes do synth-pop na década de 1980 e construíram carreiras férteis, hoje maduras e praticamente insuperáveis: New Order, Pet Shop Boys e Depeche Mode.

Mas por que citar tantas referências para falar do CHVRCHES, banda formada em Glasgow, Escócia, em 2011? Justamente porque o CHVRCHES é uma dessas bandas que surgem quando não esperamos mais qualquer novidade depois de uma história tão bem construída e influenciada pelas quatro bandas citadas. A cidade de Glasgow tem uma história musical marcada pelo rock, não pelo synth-pop. E é na contracorrente que surge o CHVRCHES, tanto para mostrar que a música eletrônica – sim, pop – ainda não deixou de ser reinventada quanto para dar início a mais um capítulo nessa história.

Sabemos que o nome da banda não tem nenhuma conotação religiosa, e que o V no lugar do U foi uma estilização e uma estratégia para evitar a confusão com a palavra “churches” em buscas na internet. Lauren Mayberry, com toda sua delicadeza e feminilidade, assume os vocais e a composição das letras. Mantém um caderninho, ou um pequeno diário, em que toma nota de reflexões do cotidiano e das relações humanas, herança de sua carreira jornalística, profissão que seguia antes de entrar para o grupo. Iain Cook e Martin Doherty são os responsáveis pela composição das melodias e das bases eletrônicas que dão o tom da banda.

CHVRCHES Every EyeO segundo disco, “Every Eye Open”, acaba de ser lançado, e nele vemos a influência direta daquelas referências que citei no começo: a capa é uma alusão a “Power, Corruption & Lies”, lançado em 1983 pelo New Order. Ecos de Pet Shop Boys são sutis em diversas faixas. Já “Clearest Blue”, com seu final apoteótico, é quase uma releitura de “Just Can’t Get Enough”, do Depeche Mode, lançada em 1981. Mais que uma homenagem.

Conversamos com Lauren Mayberry nessa semana e falamos sobre a identidade da banda, a relação dos integrantes com suas composições e com o público, os ataques misóginos que ela vem sofrendo e sobre como é estar à frente da grande promessa da década na música eletrônica popular. A universalidade do som e das composições talvez sejam seu maior trunfo – um fio que tudo perpassa e que dá início à nossa conversa:

A primeira música que ouvi de vocês foi “The Mother We Share”. Eu me lembro de como a letra mexeu de imediato comigo, e até hoje, quando escuto a música, penso na mesma pergunta: quem é essa mãe comum a todos?

Lauren: Eu sempre a interpreto como uma ideia comum, ou um amor comum, em vez de uma figura literalmente materna. Uma paixão que você divide com outra pessoa, quem quer que seja; e por mais que você se concentre nessa paixão, desejando ser salva por ela, isso é algo que não vai acontecer nunca.

Vocês têm cantado ao vivo músicas de artistas tão diversos como Janelle Monáe, Bauhaus, Arctic Monkeys e Whitney Houston, por exemplo. Podemos considerar esses artistas como influências? O que vocês costumam escutar?

É sempre um desafio fazer versões da música dos outros. Na maioria das vezes, tocamos essas covers especificamente para programas de rádio, então não é uma coisa que fazemos só por “diversão”, embora sejamos fãs de muitos desses artistas. Existem algumas bandas que nós três amamos – The Cure, Depeche Mode, Radiohead, Cocteau Twins –, mas também escutamos coisas bem diferentes e compomos de maneira bem diferente. O som do CHVRCHES vem disso tudo, é uma fusão de todos esses elementos.

Para mim, “Leave a Trace” é uma das melhores músicas da banda. Fale um pouco sobre ela? Quando você canta “Take care to bury all that you can, take care to leave a trace of a man”, eu penso naqueles caras estúpidos que acham que precisam tratar as mulheres muito mal para reforçar sua própria masculinidade, sabe? Esse verso soa para mim como: “Seja homem, não um idiota”.

Que bom que você gostou! Minha tendência é sempre escrever de uma perspectiva pessoal, sobre experiências pessoais, mas se minhas palavras têm a capacidade de parecer universais, então eu acho que é uma coisa maravilhosa. Eu diria que “Leave a Trace” é uma ode para não aceitarmos que nos digam o que fazer ou como ser.

Lauren, no ano passado você sofreu uma série de ataques misóginos, e depois disso escreveu um texto no jornal inglês The Guardian falando sobre a questão, inclusive citando alguns dos comentários e mensagens terríveis que recebeu no Facebook. Como está essa questão hoje em dia e o que você sugere para outras mulheres que passam diariamente pela mesma situação? O que podemos fazer para mudar isso? Você acha que é uma questão cultural?

Definitivamente é uma questão cultural. A internet e as redes sociais refletem, em muitos aspectos, quem nós somos como pessoas, por isso não concordo com a ideia de que a misoginia “online” é diferente. Nós não achamos que falar no assunto necessariamente vai mudar a opinião das pessoas que me agrediram diretamente, ou que postaram comentários de ódio contra mim, mas acho que falar no assunto serviu para dar início a uma conversa com o público da banda sobre o que é um comportamento aceitável. Então ver o etos ou o espírito da banda refletido nesse público mais amplo é uma coisa realmente positiva.

Vocês têm uma forte preocupação com a estética: cuidam muito bem da imagem da banda, têm uma logo estilizada, iconografias nas capas dos singles e também nos videoclipes. Vocês conectam a identidade visual da banda com as músicas que criam?

Temos muito cuidado com todos os elementos criativos da banda porque, para nós, eles são uma extensão da música e uma forma de expressarmos o que a banda é para nós. O trabalho artístico, os vídeos e o visual dos shows ao vivo são uma parte muito importante do nosso processo de transmitir a música e de comunicar o que queremos fazer.

Foto: divulgação
Foto: Divulgação

Lauren, antes de você cantar no CHVRCHES, você trabalhou como jornalista. Você acha que são atividades conectadas de alguma maneira? E em que aspecto vocês diriam que o trabalho que fazem na banda é diferente do que fizeram nas bandas das quais participaram antes?

Eu sempre tive a sorte de trabalhar com o que gosto, mas escrever textos jornalísticos e compor músicas são atividades bem diferentes. Começar a trabalhar com Ian e Martin foi extremamente revigorante, porque parecia que estávamos todos seguindo na mesma direção – querer que a melodia estivesse na frente do que escrevíamos, em vez de criar coisas deliberadamente obscuras, como vínhamos fazendo em trabalhos anteriores. CHVRCHES também é uma democracia, o que para mim tem sido um aspecto muito importante do modo como trabalhamos juntos.

Li você dizer que uma das influências da banda é o Cocteau Twins, também da Escócia. É legal perceber que eles têm a mesma formação que vocês, uma mulher e dois homens. Existem outras semelhanças? Já quiseram regravar alguma música deles?

Todos nós somos fãs de Cocteau Twins, mas acho que nunca vamos ter coragem de fazer uma cover deles!

Vocês alcançaram um sucesso imenso num período relativamente curto, sucesso talvez bastante motivado pelos shows e pela internet. O que vocês pensam da cena musical atual, em que tudo está disponível a um clique? O que vocês acham que contribuiu para a visibilidade da banda, além, é claro, da qualidade do trabalho? E que tipo de desafios vocês enfrentam como banda independente?

Tivemos a sorte de conseguirmos trabalhar sempre com pessoas que apoiam o espírito do que queremos para a banda, e conseguimos fazer tudo do nosso jeito. Acho que o orgulho que temos pelo trabalho, seja na composição das músicas ou nos shows ao vivo, é muito importante, mas a internet foi inacreditavelmente útil no começo, porque as pessoas podiam passar as músicas para os amigos e falar para eles sobre a banda, como se fossem promotores virtuais. A internet continua sendo maravilhosa, porque permite que a gente se comunique com os fãs online e se conecte com o que, para mim, é uma parte muito importante da banda – mas, além disso, sair de casa, fazer turnê e ver as pessoas de perto também é fundamental.

Lauren, já vi você falar sobre os desafios de ser vista em termos de igualdade com Iain e Martin como um terceiro elemento da banda, em vez de uma pessoa meramente exposta como figura central, que atrai a mídia e os fãs. Shirley Manson, por exemplo, sempre fala de como enfrenta esse desafio desde que o Garbage começou há mais de vinte anos. Como você lida com isso, com a exposição de ser a vocalista principal? Você se inspira em alguma artista mulher que passe pela mesma situação?

Shirley é incrível, todos somos fãs do Garbage. Acho que os últimos anos serviram como processo de aprendizagem para todos nós, enquanto tentávamos descobrir o que queríamos que a banda fosse e como queríamos colocar nosso objetivo em prática. Tecnicamente eu estou à frente da banda, então sinto que tenho a permissão de fazer isso de uma maneira que seja confortável para mim; mas, para nós, sempre foi importante apresentar o CHVRCHES de uma maneira genuína, ou seja, como um grupo composto de três partes iguais.

Gostaria que você falasse um pouco sobre o processo criativo de vocês. Quais equipamentos vocês usam? Vocês criam os arranjos pensando em como tudo será transposto para os shows?

Geralmente nós começamos com um som, uma batida ou um sample, e criamos uma versão demo instrumental ao mesmo tempo em que compomos a melodia da voz; depois Iain e Dok trabalham nos elementos de produção, enquanto eu escrevo as letras. Tentamos nos concentrar primeiro nas versões de estúdio para fazer o melhor álbum que pudermos, depois pensamos em como transportar tudo para os shows ao vivo.

Last but not least (eu tenho que perguntar isso): como estão os planos de vir ao Brasil? Soube que havia uma negociação em andamento.

Com certeza nós queremos ir ao Brasil e sempre agradecemos muito a todas as pessoas que pedem na internet para que a banda vá até aí! Com a turnê anterior foi impossível, mas agora esperamos fazer isso com Every Open Eye.

[A ideia dessa entrevista surgiu no grupo Odd Pills. Agradeço a Eliandro Ramos, Rafael Amorim, Rafael Teixeira, Renan Iha e Rodrigo Dalcin.]

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