psi

O gabinete do Dr. Calligaris

Não é erro de digitação, é Calligaris mesmo. O Contardo, aquele que escreve pra Folha, sabe? Psicanalista, sempre com um olhar aguçadíssimo sobre a sociedade e suas neuroses. A não ser pela profissão, a série não tem muito a ver com o “O Gabinete do Dr. Caligari” (agora sim, como você está acostumado a ler), clássico expressionista alemão de 1920. Ou não tinha.

Acontece que o Contardo se juntou com um time criativo bem poderoso (que inclui o roteirista Thiago Dottori e o diretor Paulo Machline, de “Natimorto”, além de um elenco liderado por Emilio de Mello e Claudia Ohana) para criar uma série brasileira que, com o toque de midas da HBO, resulta num delicioso assombro em termos de produção audiovisual. E, para além disso, é talvez o primeiro produto midiático brasileiro livre de paixões e calores. No bom sentido.

“Psi” é o nome da tal série passion-free, que entrou há pouco tempo em sua segunda temporada. É a história do Carlo Antonini, um alter ego do Contardo que carrega inclusive o nome italiano. Antonini é um renomado psicanalista que, não contente em ajudar seus pacientes, tem um deleite quase sádico em analisar também a realidade. Um “Dr. House wannabe”. Com menos empáfia e mais empatia que seu correlato gringo, o personagem interpretado por Emilio de Mello oscila entre o suspense criminal e o drama familiar como se fossem praticamente a mesma coisa. Porque não pesa em sua balança a paixão, o grude familiar, nem o ódio, o asco do crime. É tudo humano e só.

Mas o instigante mesmo é ver isso tudo contextualizado num país que não tem a liberdade como sua máxima, nem transforma igrejas em bibliotecas. Antonini não vive em nenhum país escandinavo ou qualquer paraíso na Oceania. Já na abertura, ao som de um quarteto de cordas, o personagem percorre as ruas do centro de São Paulo. E elas vão, aos poucos, sendo deformadas, contorcidas, distorcidas, dobradas… um labirinto escheriano. É quando o Calligaris encontra o Caligari.

O filme alemão se tornou um clássico por “inventar” o que se tornaria a principal marca do cinema expressionista: a realidade se deforma para representar a psique dos personagens que nela habitam. É claro que o diretor, Robert Wiene, interessado em trabalhar o terror e o suspense, escolheu um paciente psiquiátrico para seu filme, que acaba virando um gigantesco emaranhado de ruas que se alargam e se estreitam, casinhas disformes e uma luz dura, demarcada, que estoura nuns pontos enquanto sequer chega a outros. Por sua vez,  as ruas da República e do Anhangabaú – surrealmente vazias – pelas quais o protagonista caminha na abertura também são assim. Começam a se deformar ao sabor da mente da menina gigante, que ocupa um apartamento inteiro. Da misteriosa mascarada que se abraça com estranhos pelos becos. Do homem que se equilibra em cordas bambas. Do coveiro, amigo do psicanalista, a quem chama poeticamente de Caronte.

É o momento em que aquela mentalidade germânica (Freud e Jung, dois grandes expoentes da psicanálise, são germânicos, por assim dizer) ganha nossa terra tão metida à besta da ordem e do progresso. “Psi” é interessantíssima por sua percepção indiferenciada do humano e pelo “revirão” que tanto explora o tempo todo.

O “revirão”, aliás, permeia toda a série e é necessário ao roteiro tanto quanto para a psique de seus personagens. Na medida em que se descobrem, eles se reviram sobre si mesmos, indo de “dentro pra fora” numa transição fluida, sem furos. “Revirão” é o conceito que MD Magno criou a partir de “…riverrun”, neologismo que dá início ao brilhante “Finnegans Wake”, de Joyce. O livro “revira” porque suas palavras finais são “along the…”, trecho que poderia ser perfeitamente emendado ao começo, como sugerem as reticências e a conexão semântica.

Möbius Strip II (Red Ants) O interessante é que para “revirar” é preciso assumir a indiferenciação. Enquanto houver polaridade (masculino e feminino, certo e errado, barroco e clássico), haverá também a necessidade de uma ruptura para se passar de um ponto ao outro. Em sua comparação com a topologia, Magno traça um interessante paralelo geométrico: a diferenciação polarizada pertence à geometria euclidiana, na qual só é possível passar de um lado a outro de um sólido ou polígono, por exemplo, por meio de um furo. Não há “revirão”, há rompimento. Numa geometria não-euclidiana, porém, representada pela banda de moebius, é possível a indiferenciação, ou seja, transitar de um lado a outro sem o furo. Ou, como talvez também seja possível pensar, estar em ambos os lados ao mesmo tempo.

“Psi” é envolvente pela forma como desveste o humano sem o mínimo pudor e, quase friamente, estuda suas entranhas. É profunda nos conceitos que aborda e no cuidado com que transforma esses conceitos em história gostosa de assistir. Transita suave entre os extremos sem diferenciá-los nem contaminá-los com julgamentos, paixões, moralismos ou preconceitos.

Mas “Psi” é fundamental pela forma como, ineditamente, mostra uma postura diferente, melancólica, num sentido schopenhaueriano, de observação da realidade brasileira. A série nos convida a, como Antonini, não deixar que as paixões, que tanto nublam e trovejam nossos céus tropicais, deem espaço, ainda que momentaneamente, à análise pura, imoral, livre. Aquela que se aproxima da ascese e que, por isso mesmo, pode ser difícil de alcançar. Mas que uma vez alcançada, nos permite admitir ser quem somos. E, em tempos de tanta repressão e moralismo vazio como os nossos, nos permite, acima de tudo, desejar imoral e livremente. Um triunfo raro e necessário.

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