lucy

Devoradores de sombras – Entrevista com Richard Lloyd Parry

richardRichard Lloyd Parry, escritor e jornalista inglês, foi correspondente em Tóquio do jornal The Independent e atualmente é um dos editores do jornal The Times. Alguns anos depois de chegar ao Japão, foi convocado para fazer a cobertura de um dos crimes mais comoventes e controversos do mundo: o assassinato da inglesa Lucie Blackman, de 21 anos, que havia se mudado para Tóquio em 2000 para trabalhar como hostess. Lucie ficou meses desaparecida. A luta de seu pai e de sua irmã para encontrá-la chamou a atenção da imprensa de diversos países, contribuindo para pressionar a polícia a descobrir a verdade de um caso cheio de lacunas. E foram essas lacunas que instigaram Richard a dedicar anos de pesquisa para escrever sobre a história de Lucie — mas também sobre a história da família da jovem e, é claro, do assassino, Joji Obara.

“Devoradores de Sombras” acaba de ser publicado no Brasil pela editora Três Estrelas, do Grupo Folha. Logo depois de traduzir o livro, conversei com Richard sobre o que o motivou a relatar o caso, sobre o futuro do jornalismo, sobre a vida no Japão e algumas outras coisas. Seu livro foi escolhido por diversos veículos como um dos melhores de não ficção da década, quiçá sucessor de A sangue frio, de Truman Capote.


O que mais o motivou a se tornar jornalista? Você sonhou algum dia em ter essa profissão?

Quando eu estava na faculdade, achei que seria diretor de teatro e cheguei a montar algumas peças universitárias. Mas o teatro depende demais do capricho e da excentricidade dos outros. É como cuidar de uma ninhada de gatos. O que me atrai no jornalismo, ou pelo menos na escrita, é o fato de termos de trabalhar sozinhos na maior parte do tempo, ou em equipes pequenas. Correspondentes estrangeiros são pagos para fazer duas das coisas que mais me interessam: escrever e viajar.

LucieE qual sua motivação para escrever a história do caso de Lucie Blackman?

De início, fiz a cobertura do caso porque fazia parte do meu trabalho como correspondente de um jornal britânico. Mas à medida que a história foi se desdobrando em várias direções, percebi que seria impossível explicá-la no espaço restrito de uma única matéria. Daí veio a necessidade de escrever um livro – não dava para fazer justiça ao caso em menos de 400 páginas.

Me atraiu muito o fato de haver diversas histórias dentro de um único caso. Tudo começou com um mistério: O que aconteceu com Lucie? Para responder essa pergunta, precisei pesquisar o que ela estava fazendo no Japão, o chamado “comércio das águas” do qual as hostesses participavam, além da vida noturna. O caso então se tornou a história de uma família que procurava a filha num lugar estranho e desconhecido, e um drama policial sobre uma investigação complexa. Quando o criminoso foi a julgamento, a história virou outro drama, dessa vez jurídico – a biografia de um criminoso enigmático e uma história sobre o curioso sistema de justiça penal no Japão. Para mim, nunca foi apenas um “grande crime”, mas um crime que jogava luzes em diferentes aspectos da cultura japonesa moderna.

No seu livro, você mostra como a lei japonesa facilita a diversidade de estabelecimentos comerciais voltados para o sexo. Como você relaciona essa diversidade com a cultura japonesa?

A profusão bizarra de serviços sexuais pagos no Japão é basicamente uma resposta à lei. Pagar por uma relação sexual direta é ilegal. Então o comércio sexual surge em volta disso, oferecendo como opção uma variedade de serviços nada convencionais. Mas luto para não fazer generalizações sobre uma cultura baseado no que fazem os profissionais do sexo. Se usarmos, por exemplo, a indústria sexual da Inglaterra, ou talvez do Brasil, como uma lente para observar o país como um todo, provavelmente teremos uma imagem muito distorcida. Acontece a mesma coisa no Japão.

Qual a situação dos clubes de hostesses atualmente?

Roppongi, onde se passa quase toda a reportagem do livro, mudou. Em parte por causa do que aconteceu com Lucie, em parte por causa da economia estagnada e em parte por causa da perseguição a trabalhadores ilegais, praticamente não existem mais clubes especializados em hostesses ocidentais. A lacuna foi preenchida por pessoas vindas da Rússia e do Leste Europeu, e o clima também mudou – é mais agressivo, mais mercenário e mais debochado. Mas as hostesses japonesas continuam servindo clientes japoneses como sempre fizeram.

Quando lemos seu livro, temos a impressão de que a lei e a polícia no Japão são muito burocráticas – eles se esquivam da resolução dos problemas. Não estou dizendo que a polícia japonesa é corrupta, mas você acha que um Estado menos burocrático pode levar a um Estado menos corrupto ­– e a uma polícia menos corrupta?

A polícia japonesa às vezes é incompetente, mas raramente corrupta. Sua maior desvantagem é aquilo que torna o Japão uma sociedade tão maravilhosa – uma taxa extremamente baixa de crimes violentos, comparada à de outros países avançados. Eles não são muito bons para resolver crimes mais pesados porque não têm muita prática com eles.

O outro problema é a falta de imaginação e a tendência de pensar em estereótipos, como “hostesses não são confiáveis, mas empresários ricos geralmente o são” – como no caso do vilão dessa história. Joji Obara deveria ter sido detido muitos anos antes de conhecer Lucie Blackman.

Na sua opinião, quais foram os erros e acertos da investigação? O que podemos aprender com esse caso? A polícia aprendeu alguma coisa?

Acho que a polícia japonesa aprendeu uma lição sobre a importância de ser mais sensível com os parentes de vítimas estrangeiras – pelo menos, vítimas estrangeiras de países ocidentais ricos e “respeitáveis”. Quando uma outra jovem britânica foi assassinada anos depois no Japão, sua família foi tratada com muito mais cuidado. Mas, em quase todos os aspectos, a polícia japonesa continua a mesma, e novos exemplos de incompetência e desonestidade surgem com uma regularidade vergonhosa. Para citar apenas os exemplos recentes mais extremos: Govinda Prasad Mainali, um nepalês inocente, passou 16 anos preso por assassinato depois que a polícia intimidou e subornou testemunhas para darem declarações falsas; um senhor chamado Iwao Hakamada, torturado até confessar um assassinato que não cometeu, foi finalmente solto depois de 45 anos aguardando a pena de morte. O problema é estrutural: a polícia não melhora porque não tem uma supervisão eficaz – nem de uma “agência reguladora” ineficaz, nem da mídia, tímida e delicada.

Há cenas fortes e intensas no livro, como a descrição de estupro, o funeral e a cremação de Carita. Como foi escrever essas cenas?

Eu quis usar os relatos mais explícitos de maneira bem esparsa por um único bom motivo: transmitir um pouco do caráter misterioso de Obara, e também a estranheza do julgamento. As únicas descrições de abuso sexual (pelo que me lembro) são do próprio Joji Obara, no estranho livro que ele encomendou como parte de sua defesa, ou então são reconstruções dos investigadores e advogados que examinaram as provas diretamente. Na narração do funeral de Carita, tentei transmitir a experiência e o sofrimento dos familiares, que me contaram como foi a cerimônia.

Parece que você foi ameaçado de morte durante suas pesquisas. Como lidou com isso na época?

Alguém, indiretamente, tentou encorajar atos violentos contra mim, mas sem nenhum sucesso. Não senti que fosse uma ameaça de morte e, a princípio, não levei muito a sério. Mas a polícia levou muito a sério. Durante algumas semanas, tive a sensação onírica de que eu estava consciente de coisas que, em outros momentos, pareceriam absurdas – como a possibilidade de alguém me atacar na rua. Com o tempo, passou. Para ser honesto, foi mais irritante ser processado por calúnia e difamação por Joji Obara do que ser vagamente ameaçado de alguma violência.

Você ainda tenta contatar Joji Obara?

Desisti quando terminei o livro.

O jornalismo está enfrentando uma crise mundial atualmente – todo mês ficamos sabendo de uma redação que fechou, de jornalistas que perderam o emprego, de jornais que abandonam o formato impresso. Como você vê o futuro do jornalismo?

Essa é uma questão importantíssima que está mexendo com todos nós nesse momento. Não há dúvida de que sempre haverá demanda por jornalistas experientes e competentes para relatar e interpretar o mundo; o problema é que, graças à internet, poucos serão necessários como eram antes. Os melhores profissionais vão sobreviver, mas a remuneração será pior e seguir carreira no jornalismo ficará mais difícil do que nunca.

Estamos passando por uma transição radical imensa, e acho que estamos mais no início do que no fim. Então é difícil dizer como as coisas estarão daqui a vinte anos, até daqui a dez anos. No momento, para aqueles que tentam viver do jornalismo, há uma profunda sensação de incerteza e insegurança.

Falando sobre o jornalismo literário especificamente, que tipo de conselhos você daria para quem quer seguir nessa carreira? O que é necessário para criar uma boa obra? Aliás, você acha necessário ter uma documentação farta para começar a escrever?

O mais importante do jornalismo literário é o fato de ser literário – quer dizer, ele se inspira tanto em grandes livros (romances, poesia, narrativas de não ficção) quanto em jornais e revistas. Uma apuração e uma pesquisa profundas são essenciais, é claro, mas a leitura é igualmente importante, e uma atenção severa na questão da linguagem.

Como escrever um livro sem se deixar levar pelo timing ficcional? Como dar à obra um ritmo interessante, capaz de atrair os leitores? Como tratar de personagens reais e descrever locais e situações?

Acho que os escritores tendem a tomar decisões desse tipo instantaneamente, sem seguir regras ou fórmulas de maneira consciente. O mais importante é seguir sempre adiante na história. Na não ficção, você não pode nunca falsificar – mas pode e deve omitir e simplificar para criar ritmo e suspense.

O que nunca deve ser feito no jornalismo literário?

Minha tendência é dizer que nunca se deve ficcionalizar. Mas daí me lembro dos meus maiores heróis literários, George Orwell e Ryszard Kapuściński, que inventavam coisas de vez em quando e nem por isso foram diminuídos. De todo modo, não é para mim.

Acho que escritores de não ficção jamais deveriam se apresentar como oniscientes, jamais deveriam simular uma compreensão imparcial e completa, deveriam sempre reconhecer sua própria parcialidade e o fato de que nossa vida é como um espectro de tons de cinza. Acho que por isso nunca consegui admirar sinceramente aquele para muitas pessoas é um dos maiores livros de não ficção da história – A sangue frio, de Truman Capote.

Em termos práticos, como o jornalista literário deve se organizar para escrever? Reunir material em pastas, arquivos, base de dados?

A organização física do material é muito chata, consome muito tempo e parece supertrivial: furar documentos, reforçar os furos com adesivos redondos, colocar os documentos furados e reforçados em fichários coloridos, etiquetar os fichários etc.. Mas, em projetos grandes, se você não começa a se organizar desde cedo, tudo trava de repente. Então, sim, usar pastas e fichários físicos, anotações numeradas, datadas e indexadas em documentos do Word. Além de backups de todos os dados, em diferentes locais, de poucas em poucas horas.

devoradores

Devoradores de sombras – A história real de uma jovem inglesa que desapareceu nas ruas de Tóquio e do mal que a aniquilou 
Autor: Richard Lloyd Parry
Tradução: Rogério Bettoni
Editora: Três Estrelas – 2015

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s