fezes_foto

A partir do sentimento das fezes

Sentimento das fezes é um livro de exercícios para escutar o que está dentro da gente. Foi publicado pela editora Mais ou Menos Tempo (Curitiba, 2013, http://maifujimoto.weebly.com/sentimento-das-fezes.html). Encontro entre Vicente Ryuki Infante Gonçalves Sagae, de seis anos, e Mai Fujimoto, de 35, esse texto nos anima a ter um corpo que não se divide entre partes que servem e partes que não servem.

É um humano que, vivente, se coloca inteiro no que faz, sendo exatamente aquilo que ele é. Mas Vicente avisa que é um exercício que se faz não de um dia pro outro.

Como ser verdadeiro com o que estamos sentindo dentro e com o que está fora da gente?

Existir é respirar, troca automática entre dentro e fora, por todos os buracos. Troca que à partida não depende do nosso poder de decisão, mas que influencia tudo o que fazemos. E, ao mesmo tempo, ela altera o pulso de acordo com as nossas ações. Vicente diz para ficar perto dos barulhos e incômodos — são eles o material para o primeiro treinamento, que é tentar enxergar bem de longe o que está acontecendo nas cidades da China, do Japão, em São Paulo, no mundo inteiro. Surge um espaço para recriar o que acontece. Pode-se abrir a cabeça para pensar em alguma coisa boa, se libertar um pouco da brabeza. Há a possibilidade de pedir “Eu não posso conversar agora. Me dá só meia horinha?”

Medo do escuro
Diante do medo do escuro, Vicente cultiva a coragem e propõe para as outras crianças o exercício de imaginar que não temos medo. Infância que somos todos, raramente a gente lembra de que o respiro também pode aos poucos se ampliar. Um cuidado com os detalhes de inspirar e de eliminar que só a pessoa sozinha sabe.

Essa escrita, que vem com desenhos do autor, convida a experimentar “um sentimento que fica dentro da gente, como as fezes, que fazem parte do nosso corpo”, nas palavras do menino Vicente. Nos treinamentos para o Sentimento das fezes, somos presenteados com a possibilidade de recriar um corpo idealizado, que nos persegue. Ele está sempre no ar e é concreto, tem suor, está vivo no trabalho das cidades que cultivam o medo e que não consideram em suas rotinas os ritmos de cada uma, cada um. Numa escala menor, os órgãos do corpo também têm seus tempos, suas secreções, seus descansos, seus dias. Só se pode saber disso sentindo, e o sentir nunca vai ser como queremos.

Esse livro não quer que a gente estacione nem no desenho dos começos, crianças, nem no desenho do hoje que faz futuro, nós mesmos. “Transformar as coisas velhas e chatas em brinquedos legais” é uma das coisas que Vicente mais gosta.

Um encontro que pode acontecer em qualquer lugar
Se não sentimos o que digerimos, estamos nos alimentando de quê? O Sentimento das fezes é muito sobre possibilitar tempo e espaço a partir da sensação que for, da pessoa como estiver. Isso de sentir não é para controlar, quando a gente inventa de alargar as percepções. Sentir aí se parece com permitir. Rápido você encontra muitas presenças. “Eu não procuro, eu acho”, dizia Picasso, que precisou de “uma vida inteira para aprender a desenhar como as crianças”.

Para essa criança sem tempo certo que vive na gente basta o corpo como ele vem, onde for. Por isso treinamos. A mente pensa, o coração bate e o fazer deles não precisa da nossa assinatura. Há toda uma energia que anda sozinha. Ao mesmo tempo, ela está sempre acompanhada, caminhando junto de uma coisa sem residência fixa, que se pode chamar de eu. Sem residência fixa: quando olhamos para as nossas sensações e temos aflição, porque não nos reconhecemos. Aí é que é: se nos fortalecermos para ir mais fundo, elas se movimentam, saem do lugar, mostram coisas novas. Ao contrário, se negarmos as sensações como elas vêm, elas continuam incomodando escondidas.

Na pilha de determinar os sentimentos e pensamentos, de pressupor coisas que asseguram de maneira suposta, acabamos emperrados, achatados. São tantas suposições sobre o que acontece conosco que não flui. Somente atravessando o desconhecido a gente possibilita a experiência verdadeira de saborear por inteiro, com tudo, com corpo.

Chega de tédio. A sensação jamais será inválida. Todo detalhe corporal é muito concreto no que tem de incômodo ou de prazer ou de curioso ou de nada. Não tenha medo do escuro de experimentar e de se observar como estiver, sem editar o que você vê.

Pro nosso corpo ficar bem forte e ter ideias muito boas
O corpo bidimensional que nos dão em revistas e que buscamos em vão nos espelhos ainda está longe de ser lembrado como ideia fabricada, representação que é. Há uma aceitação desse humano impresso e mecanicamente reprodutível sem tato.

Como toda representação, a imaginação do corpo está sempre aí para ser reinventada, manipulada. O corpo arquitetado pode atuar a favor de respirar, encher dos pulmões que é tridimensional. O sentir é de todo mundo e de cada um.

O Sentimento das fezes parte de um diálogo com a Mai, que está cansada. Vicente aconselha ela a buscar energia dentro de si mesma. Ele está terminando um desenho do Pokemon e também está com sono. Vicente busca energia percebendo o que está dentro dele. Explica: “O Sentimento das Fezes é uma coisa que parece o sangue, mas não é o sangue nem o cocô. É uma coisa que passa pelas minhoquinhas (intestino) por onde passa a comida, a comida vira cocô. É vermelho como o sangue, mas não é o sangue. Isso dá energia pro nosso corpo ficar bem forte e ter ideias muito boas.”

Pouco sabemos o que seja um corpo forte. A maioria de nós vive convencida de que a força depende só do que está fora, por exemplo uma força muscular que adquirimos carregando pesos, fazendo musculação, ou uma força que exibimos por meio de coisas compradas. É uma necessidade do visível do fora.

A força que o Sentimento das fezes convida a explorar exercita-se em espaços mínimos por fora, mas infinitos na visão do dentro. Ela raramente interessa a alguém, entretanto é cheia de vigor e pode colocar qualquer um pra cima. Essa força é uma percepção do corpo geralmente apagada, mas sempre em fluxo. Quando esquecida, ela pode vir no detalhe que nos persegue, por exemplo, quando sentimos uma dor específica. Vida mínina que também acontece em ações simples como colocar a mão sobre a maciez de uma broa, sentir a aspereza do pé, verificar a temperatura de uma pedra.

Na nossa atual forma de vida, o corpo se tornou uma ferramenta, um recebedor de ordens. Mas as mãos, por exemplo, têm um saber que nos põe em movimento no dentro – veja o que se produz em você, por exemplo, num aperto de mão. Pode ser confiança e pode não ser — é um conhecimento que se produz no sentido da fisicalidade.

Aqueles detalhes que a pessoa pensa que é doida. Coisas que o corpo dá, brota e não adianta fechar o olho. Difíceis de colocar em palavras, acostumamos a falar, esquecidos do tanto que o silêncio é uma reserva natural do dizer que realmente queremos, que comunica o que de fato sentimos, sem aquela comunicação Cntrl+C Cntrl+V.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s