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CentoeQuatro e Frances Ha

Por: Renata Mendonça

Depois de assistir “Frances Ha”, em Belo Horizonte, no cine CentoeQuatro, muita coisas me passaram pela cabeça, desde: “Nossa que local bacana e marginal!” a “o que fazer com isso?”, referindo-me ao filme e do lugar que, quando comparado ao Cine Belas Artes e aos cinemas dos shoppings da cidade, é inusitado e pouco frequentado.

O CentoeQuatro que integra o Conjunto Arquitetônico da Praça da Estação, tombado em 1984, está em um prédio construído em 1906, já foi fabrica de tecidos, um galpão fechado e, desde 2009, um local “multiuso”: “café, cinema e galeria”, além de biblioteca. Este lugar não deixa de ser um local à margem da sociedade, onde circula a população para além da região sul. Praticamente ao lado do prédio onde funcionava o projeto Miguilim, que atende e acolhe meninos que moram nas ruas de BH, e é vizinho do viaduto Santa Tereza onde acontecia o duelo de MCs.

Um Conjunto Arquitetônico que pode, também, dar lugar aos vários grupos, sejam estes marginalizados ou não, inclusive a partir do que o CentoeQuatro vem oferecendo em sua programação.

O que fazer com isso? Como fazer uso deste local, fazer valer um novo/velho lugar na cidade? Talvez usemos de uma expressão, de uma ação muito utilizada este ano em BH: “uma ocupação”[1]; Conquistar e “invadir” o que é nosso! Percorrer as ruas, lugares da cidade e ser atravessada cada vez mais pelo que a arte e o encontro com o novo e o velho podem fazer.

Frances Ha E o filme? Fiquei pensando por que “Frances Ha” estava tão escondido em um cinema tão modesto quanto aquele que encontrei. Só podia ser assim! Ideal! Um lugar para assisti-lo, em preto e branco marcando sua beleza e delicadeza, tão marginal como a sala de cinema encontrada neste lugar, que não é comercial nem faz parte dos blockbusters.

É a história de Frances, uma “menina” de 27 anos que nos faz, no decorrer do filme, querer estar com ela, ser amiga, se identificar. Uma amiga disse: “ela se encontra na gente e a gente nela”; outro diz: “ela representa algo do humano”.

Ela nos faz entender a diferença entre o tempo lógico e o cronológico – Frances vai reconhecendo um mundo chamado adulto num tempo singular, próprio. Uma personagem apaixonante.

É possível dizer que o diretor Noah Baumbach acertou no filme, um dos “melhores do ano”, como disse Tarantino, a atriz Greta Gerwig é uma surpresa deliciosa de pura delicadeza e beleza. Um filme elegante e atual.

Há uma referencia direta a Woody Allen tanto na forma da personagem se expressar quanto na estética do filme. A trilha Sonora: Paul McCartney, David Bowie, The Rolling Stones, Harry Nilsson e Hot Chocolate… Muito bom! Um encontro a parte! Deixando o filme, em alguns momentos, leve, pois não se enganem, é uma comédia dramática – linda e triste.

Uma ótima oportunidade de ocupação da cidade, ou melhor, do CentoeQuatro, já que Frances, a personagem, ocupa Nova York e não consegue ocupar Paris, mas passa por ela.

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[1] Ocupar: Estar ou ficar na posse, invadir, conquistar, tomar ou encher algum lugar, cuidar, dedicar-se, dar trabalho. (Minidicionário Aurélio 1985)

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Renata Mendonça, apaixonada por cinema, é psicóloga e psicanalista em Belo Horizonte.

Um comentário sobre “CentoeQuatro e Frances Ha

  1. Ótimo você ter falado do Frances Ha, Renata! Eu também adorei o filme. Passou batido, pouca gente viu. Acabei comprando o filme. Não conhecia o centoequatro? Um lugar especial, não?

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