Lars Husum

O dinamarquês Lars Husum e seu amigo "Jesus Cristo"

Foi com uma alegria imensa que aceitei o convite, no início do ano, para traduzir “Meu amigo Jesus Cristo”, do dinamarquês Lars Husum. Sempre tive especial interesse pela cultura e literatura escandinava, e começara a aprender sueco pouco antes do convite. A tradução, autorizada pelo autor, seria feita a partir do inglês, tendo o dinamarquês como suporte. Acaba de sair pela Editora Gutemberg, do Grupo Autêntica, aqui.

Lars HusumConfesso que sempre olhei torto para traduções indiretas, principalmente de obras importantes no meio literário como essa. Mas a tranquilidade do autor em lidar com o assunto e a disponibilidade dele para esclarecer quaisquer pontos foi uma motivação. Além disso, o conhecimento gramatical que eu já tinha do sueco, língua bastante aparentada do dinamarquês, me permitiria descobrir arranjos estruturais importantes para entender o estilo de escrita, como inversões, corruptelas e ritmo. Além do original e da tradução inglesa (que peca em questões de clareza e contém diversos saltos), contei também com o suporte da edição espanhola (muito bem feita), da italiana (muito simplificadora) e, em alguns casos, da francesa.

Lars Husum tem um estilo de escrita bem particular. “Meu amigo Jesus Cristo” é seu primeiro livro – o livro de estreia mais vendido de um dinamarquês. Sua linguagem é contemporânea, cheia de referências à cultura pop. A experiência dele com a escrita começa como roteirista de TV e teatro, o que talvez explique suas frases sempre curtas e diretas. Para minha surpresa, ainda na primeira parte da narrativa, descubro que uma das personagens ouve Suede, uma das minhas bandas inglesas prediletas. Não está no livro, mas o disco que ela escuta é o “Dog Man Star”, de 1994, o segundo da banda. As canções “New generation” e “We are the pigs” se tornaram trilha obrigatória da tradução, além dos primeiros discos de PJ Harvey. Foi com Suede que comecei a dar som ao texto.

Participar do universo do autor durante uma tradução é prática obrigatória para um bom resultado. Usei o Street View do Google para percorrer as ruas de Tarm, cidadezinha onde se dá a narrativa, bem como os bairros de Copenhague (Nørrebro, Vesterbro) onde Nikolaj se instala; assim comecei a dar cor ao texto e entender a realidade na narrativa. Algumas conversas pontuais que tive com o Lars contribuíram bastante para entender até que ponto eu poderia estender a elasticidade de seu trato com a língua.

Tarm, Dinamarca
A principal rua de Tarm, Dinamarca, uma das cidades da narrativa.
Tarm, Dinamarca
Entrada para a Poppelvej, em Tarm.
Copenhague
Rantzausgade, rua do bairro Nørrebro, em Copenhague.
Copenhague
Cemitério de Vestre, em Copenhague.
Copenhague
Praça Sankt Hans Torv, em Copenhague, vista do café Funke.

O dinamarquês é uma língua dura, quase gutural e muito objetiva. A narrativa de “Meu amigo Jesus Cristo” é feita toda no presente, em primeira pessoa, e com frases curtas. Não admira que o autor tenha assumido que a linguagem verbal do personagem é pobre; a escolha de palavras simples seria um aspecto importante na tradução. O passado e o futuro são usados em momentos pontuais, e minha atenção teve de ser redobrada nesse ponto – naturalmente me vi tendencioso a narrar eventos passados como uma lembrança, não como uma atuação presente.

O uso de palavrões foi um caso à parte. Pensei bastante antes de optar por “buceta” e “bater punheta”, por exemplo, ciente de que não seria um exagero para “fisse” e “onanere”, palavras traduzidas em inglês por “cunt” e “wank”. Nesse, e em vários outros aspectos, as conversas com o autor foram um privilégio.

E privilégio foi poder fechar a tradução com uma entrevista. Lars fala sobre seu processo de criação, o sucesso do livro no mundo todo, sua relação com a literatura. Certeza de que você, caro leitor, vai correndo para a livraria depois de ler essa conversa.

Seu primeiro romance, “Meu amigo Jesus Cristo”, foi traduzido para doze línguas, incluindo o português. Como é para você ser lido por culturas tão diferentes?

Uma psicanalista me disse ser a melhor descrição que ela já leu de uma psicose na juventude.Algo muito louco, na verdade. Jamais aconteceu com um romance de estreia escrito em dinamarquês. É uma língua pequena, então poucas pessoas fora da Dinamarca conseguem ler no original, e por isso a tradução é complicada. A experiência está sendo maravilhosa, principalmente porque eu não esperava por isso. Não se trata exatamente de um best-seller típico. É violento demais, estranho demais, e Nikolaj é desagradável em muitos momentos; quando escrevi o livro, não sabia se alguma editora se interessaria. Por sorte, a Gyldendal se interessou, que é a maior editora da Dinamarca, e em seguida vieram as editoras da Noruega e da Suécia. Só isso já foi bem mais do que eu esperava, mas um editor sueco que mora na França também leu e adorou, daí as coisas começaram a acontecer.

O que há de mais interessante em ser traduzido é perceber a diferença da recepção do livro. Na Inglaterra, todas as resenhas se concentraram no humor. É um livro engraçado. Mas em outros países, o humor de alguma forma foi silenciado pelo fato de ser um livro muito trágico. Uma psicanalista num festival de literatura na França me disse ser a melhor descrição que ela já leu de uma psicose na juventude: um rapaz que perde a cabeça e se volta para a religião.

Algumas pessoas leram o livro quase como um cartum ou um conto de fadas moderno (de um jeito bom, e as duas coisas me influenciam, meio que um Jesus como super-herói). Outras o interpretaram como uma história social bem realista. Acho que ele é tudo isso e muito mais. É uma mistura de comédia, tragédia, farsa, melodrama, romance, jornalismo, roteiro de cinema, cartum. Muitas vezes é engraçado no início de uma frase e trágico no fim, e como é uma escrita aberta, é interessante perceber em quais elementos as diferentes culturas vão prestar atenção.

Você começou a carreira trabalhando como escritor na Zentropa, a produtora de cinema do Lars Von Trier. Você acredita que sua experiência como roteirista para televisão e teatro influenciou sua escrita como romancista?

Trabalhei seis anos para a Zentropa, mas era para um ramo da empresa que tinha pouco a ver com os filmes da produtora. Eles costumavam fazer jogos cooperativos (e muito chatos, por sinal, como jogos de tabuleiro sobre segurança no mar em navios cargueiros). Não me pergunte por que uma empresa de cinema como a Zentropa tinha um ramo desse tipo. Mas como eu era escritor em tempo integral, eu transitava entre ficção, filmes e teatro. Tive duas peças produzidas e estou escrevendo agora um roteiro para a Zentropa baseado na minha última peça.

Então a resposta é sim, o teatro e o cinema me influenciaram bastante. Seria estranho se não tivessem influenciado. Não tenho o intuito de dar ao romance a sensação de estar lendo um filme, mas não me importa muito de onde vem a inspiração para a história, o tom ou o estilo. Tudo pode dar certo.

Vários críticos disseram que seu romance se assemelha bastante a um filme do Dogma95. Você acha que seu estilo guarda similaridades com esse movimento, ou que você foi influenciado pelo Dogma95, talvez por ter trabalhado com Lars von Trier?

Duvido que Lars soubesse quem eu era na época em que trabalhei com ele. E não, sinceramente, não pensei em Dogma enquanto escrevia. Gosto muito da obra de Lars von Trier: para mim, ele é um dos diretores mais interessantes e descompromissados do mundo; talvez, assim como acontece com todas as outras coisas de que gosto, eu viva com essa influência no fundo da mente.

Li que você escreveu a primeira comédia em esperanto. Você gosta de conhecer e estudar outras línguas? Como você lida com sua literatura traduzida?

Trabalhei com um grupo de arte na Dinamarca. Escrevi em dinamarquês e eles traduziram para o esperanto. Não posso afirmar com certeza que tenha sido a primeira sitcom em esperanto, mas foi classificada dessa forma.

Sobre línguas estrangeiras, consigo entender minhas traduções para o sueco e norueguês tranquilamente, porque as línguas escandinavas são mais ou menos a mesma língua. São dialetos. Sou mais ou menos fluente em inglês, mas quanto às outras traduções, preciso confiar no tradutor; no meu caso, acho que são todos bastante confiáveis, pois preferem trabalhar com algo de que gostam, são sérios e dão tudo de si para manter o tom do livro. Mas em uns dois países, tive a sensação de que as editoras não tiveram a menor ideia do que compraram! E isso a gente vê na capa: em uma das traduções, quem olha a capa tem a sensação de que escrevi “O exorcista”.

Meu amigo Jesus Cristo
Capas das edições de “Meu amigo Jesus Cristo” lançadas até agora.
Fale um pouco de sua relação com a religiosidade. Como você teve a ideia de transformar um motoqueiro barbudo e cabeludo em Jesus Cristo? Ou será que o personagem não é um motoqueiro?

Não sou religioso, mas tentei escrever um romance que proporcionasse uma experiência de leitura boa para os dois públicos: religioso e não religioso. Na verdade, deixo em aberto se o personagem que afirma ser Jesus é uma alucinação de Nikolaj ou é de fato um motoqueiro maluco. Cabe ao leitor decidir. A maioria dos leitores, pelo menos na Dinamarca, parece interpretar como se estivesse tudo na cabeça de Nikolaj – a história de uma psicose, mas também fui contatado por uma série de padres ou pastores elogiando o livro. Alguns chegaram a usá-lo em sermões, o que soa bem estranho, porque o meu Jesus bate nas pessoas, sua e bebe cerveja.

A Dinamarca tem um aspecto estranho: a maioria das pessoas diz não ser religiosa, mas continua fazendo parte da igreja. Podemos nunca frequentar a igreja, mas somos todos batizados na Folkekirken (Igreja da Dinamarca). Você pode deixar de ser membro, mas até quem se diz ateu não faz isso. Então dizemos que não acreditamos em Deus, mas a religião continua sendo uma coisa importante.

Mas, retomando, eu não revelo no romance que Jesus é motoqueiro, mas é assim que as pessoas têm interpretado em todos os países. Nikolaj é um rapaz que usa a violência como linguagem justaente por ter uma linguagem verbal muito pobre; ele só ouve Jesus, bem como outras pessoas, quando é intimidado fisicamente.

Seu estilo de escrita permite diversas interpretações da narrativa; quer dizer, muita coisa permanece em aberto. Para você, a literatura se constrói num diálogo constante entre escritor e leitor? O que significa literatura para você?

A frustração é um elemento importan- tíssimo na literatura.Acho que já respondi essa pergunta, mas complementando: não gosto de livros fechados, que não me permitem imaginar nada em cima da história. Detesto fechar um livro e perceber que tudo me foi dito. Sei que pode ser um estilo frustrante se o leitor gosta de ter certeza de tudo, mas a frustração é um elemento importantíssimo na literatura.

Lars HusumLi na sua biografia que você era líder de uma banda de electropunk chamada Phase 3. Quando comecei a buscar algumas músicas para ouvir, descobri que isso foi uma brincadeira que você fez consigo mesmo na Wikipédia. É isso mesmo? Então quer dizer que você também não é campeão de judô? E também não tem um programa de rádio?

O programa é verdade. Eu tive um programa semanal na rádio, em que eu falava sobre diversas coisas, mas acabei me cansando de ter de falar toda semana das minhas opiniões sobre algo novo. E também participei de um programa numa estação de rádio nacional em que falei sobre meu processo de escrita.

As outras coisas são mentiras brancas. Não sou líder de nenhuma banda de electropunk, tampouco lutador de judô. Não sei cantar e pratiquei judô lá pelos 8, 10 anos de idade, mas é impressionante a quantidade de gente, inclusive profissionais, que acreditam nisso. E continua lá, na minha biografia.

A primeira coisa que fiz quando comecei a traduzir seu livro foi procurar Tarm no Google Street View. E comecei a perceber que quase todos os lugares e estabelecimentos de Tarm que você menciona no livro, e também de Copenhague, realmente existem. Você acha que esse confronto entre realidade e ficção é uma característica forte de sua obra? Por que você escolheu Tarm?

Tarm é a cidadezinha rural onde eu cresci. Na verdade é uma palavra intraduzível, pois Tarm, em dinamarquês, é o nome da cidade, mas também significa “intestino”. Então o nome da cidade quer dizer basicamente que Nikolaj sente como se estivesse mudando para a merda do mundo, além de representar uma mudança de estado de espírito. Do predominantemente trágico para o predominantemente cômico.

E sim, eu tentei deixar essa linha entre ficção e realidade um tanto indistinta. Não só usando o nome verdadeiro das ruas, mas também usando artigos, imagens (a foto de Nikolaj na verdade é minha) e meu próprio número de telefone no romance. Era para ser um segredo a princípio, mas como mencionei esse fato quando saiu a primeira resenha, no dia de lançamento do livro eu recebi 300 telefonemas de estranhos. E como eu uso diversos elementos da minha vida no livro, muita gente me pergunta se é uma autobiografia. Eu costumo dizer que não, o que obviamente não é uma verdade absoluta.

Fale-me um pouco da sua experiência com o cinema. A produtora Nimbus vai adaptar o romance. Você sabe se já escolheram um diretor? Você está trabalhando com eles no filme, e tem ideia de quando será lançado?

Não estou envolvido com a produção, o que considero ser uma atitude inteligente da Nimbus, pois para mim seria muito difícil cortar a história e transformá-la numa de cinema. Eles já estão trabalhando no roteiro há algum tempo, mas não faço ideia de quando vai ficar pronto.

Do que trata seu novo livro, “Jeg er en haer” [Eu sou um exército]? Qual a diferença na reação do público aos dois trabalhos? Será traduzido?

Provavelmente não. Trata-se de um trabalho fundamentalmente diferente de “Meu amigo Jesus Cristo”. A crítica tem dito se tratar do primeiro romance sobre a geração da guerra na Dinamarca. Meu país tem atuado bastante no Iraque e no Afeganistão. E, levando em conta o tamanho de outros países, a Dinamarca é o país que mais perdeu soldados no Afeganistão, meu melhor amigo é capitão do Exército. O romance foi escrito basicamente para o leitor dinamarquês, e como muitos países têm uma história de guerra bem própria, não acho que se interessarão em publicar um romance dinamarquês sobre o assunto. Faz sentido isso: eu acredito realmente que devemos escrever aquilo que temos vontade de escrever. A escrita de um romance leva anos. Ninguém perde tanto tempo com uma coisa se não tem paixão por ela.

Você conhece literatura brasileira?

Li Jorge Amado há muito tempo, mas não acho que conheço tanto assim para dizer alguma coisa sólida.

Acho que seu livro vai ser um grande sucesso no Brasil, e acho que muitos psicanalistas vão gostar de lê-lo. Acho que não posso deixar de te perguntar qual a sua relação com a psicanálise. Você se interessa pelo assunto? Já fez análise?

Na verdade, nunca me envolvi com profissionais da psicanálise, exceto em questões de estudo e pesquisa mesmo; mas tenho amigos bem próximos que fazem análise e tiram um excelente proveito dela.

Lars Husum

2 comentários sobre “O dinamarquês Lars Husum e seu amigo "Jesus Cristo"

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