gravidade

Já ouviu falar em Sci-phi?

Todos os feitos do homem têm sua origem na fantasia criativa.
Que direito temos, então, de depreciar a imaginação?

Carl Jung

Ficção científica sempre foi algo meio marginal, meio fora do sistema. Basta observar a lista de todos os ganhadores de Melhor Filme da história do Oscar, por exemplo: nenhum deles pertence ao gênero (vá lá, “Volta ao mundo em 80 dias”, se forçarmos um pouco, é o único representante). Por essas e outras, é comum ver o “sci-fi” (abreviação popular de “Science Fiction”, ou ficção científica em inglês) envolvido numa névoa meio “B”, meio de subproduto. É bem verdade que a era do blockbuster e dos efeitos especiais elevou o gênero a encantador de multidões, mas isso não serviu muito para aumentar seu prestígio. Pelo contrário: nos círculos críticos (e em alguns nem tanto) ficção científica virou sinônimo de muito barulho por nada, pirotecnia sem conteúdo.

É bem verdade que às vezes a coisa toma esse rumo mesmo: explodir coisas no espaço ou criar realidades paralelas é tentadoramente divertido e pode gerar muito dinheiro. Mas, vez por outra, surge um cineasta atrevido que estica as convenções do gênero até seus limites e, além de realizar uma obra-prima, acaba também por esbarrar num terreno que, para os criticozões, aqueles tradicionais, pareceria diametralmente oposto à ficção científica: a filosofia.

Não estamos falando de “filosofia comparada”, aquela que surge quando simplesmente se relaciona uma cena, personagem ou situação com teorias filosóficas, como num jogo de adivinhações (tipo “Os Simpsons e a filosofia”). Embora interessante, esse tipo de artifício já virou carne de vaca (transgênica) no universo da ficção científica, podendo ser encontrada nos paralelos entre a “Matrix” dos Wachowski e a noção platônica de mundo das ideias, por exemplo. Ou da relação entre realidades múltiplas, num sentido deleuziano, e a composição da trama de “A Origem” (Cristopher Nolan). Não se trata, nestes casos, de uma inovação ou uso da linguagem do sci-fi para atingir tal propósito: fosse um filme de drama, ação ou comédia, por exemplo, os paralelos seriam igualmente possíveis – basta lembrar do relativismo temporal de filmes que envolvem viagem no tempo ou como Hong Sang-soo brinca com as diversas possibilidades de existência em “A visitante francesa”.

É algo além, algo que só se torna possível pelas convenções do gênero e que, por excelência no uso de sua linguagem, permite a construção de um ensaio filosófico. Não algo que “dialoga” ou “se refere” à filosofia, mas algo filosófico em si mesmo. Kubrick chegou lá com seu “2001: uma odisseia no espaço”. Poderia ser um filme sobre astronautas indo ao espaço atrás de um monolito preto e sua relação de poder com as máquinas. Sob um certo ponto de vista, – reducionista, por sinal – é. Mas “2001” não é exatamente sobre isso. Não é essa a “moral da história”. Kubrick não gastou dinheiro e energia, não queimou neurônio para construir um imaginário que remixava tudo o que veio antes e dava o tom de tudo que viria depois apenas para contar essa história. Ele queria mais.

Tão mais que escolheu como tema de seu filme o poema sinfônico “Also sprach Zarathustra”, de Richard Strauss. O compositor austríaco escreveu esta peça inspirado, justamente, pelo tratado filosófico de Friedrich Nietzsche, “Assim falou Zaratustra”. E, de novo, não é por acaso; é justamente sobre a Teoria do Eterno Retorno, um dos principais conceitos da filosofia nietzscheana, que fala “2001”.

Mais do que a história contada, o filme é um belíssimo, poderoso e elegante ensaio sobre como a humanidade progride à medida que se volta por sobre si mesma, ou para um mesmo ponto. Assim como na pré-história aquele monolito preto desencadeou a evolução dos primatas para hominídeos (e o domínio sobre a natureza, por meio da conquista de armas, justamente), em 2001 (um tempo que, mais do que histórico, é simbólico, primeiro ano do novo milênio) ele desencadeia uma nova superação. Mais uma odisseia pelo desconhecido que resulta num novo passo evolutivo – no caso, a dominação sobre a máquina. E, sendo eterno retorno, o plano final do filme simboliza exatamente isso: uma gestação cósmica, pronta para renascer, começar a história uma vez mais.

É difícil imaginar um outro gênero que contivesse convenções de linguagem, estética e narrativa capazes de comportar um movimento dessa envergadura. E foi justamente na ficção científica, aquela seara de “filmes B”, que Kubrick soube encontrar a máquina ideal para processar seu ensaio filosófico. Fez Sci-Phi, então. “Science Philosophy”, para brincar com o termo consagrado.

GravidadeDepois dele, muita gente bateu na trave, inclusive por meio de outros gêneros, mas o marco de “2001” seguia indelével e final. Foi preciso um mexicano (ironia fina do pós-colonialismo) para, novamente, fazer sci-phi em larga, grandiosíssima escala. Trata-se de Alfonso Cuarón e seu “Gravidade”, que chega aos cinemas do Brasil nesta sexta.

Não é possível dizer muito sem entregar spoilers, por isso substituirei os exemplos por sugestões daqui pra frente e fico aberto a conversas nos comentários. Mas, novamente, ao contrário do que a crítica faz parecer (sabe-se lá o motivo), não se trata – apenas – de um thriller espacial com tintas humanistas. Não é só a historinha dos oficiais da Nasa que são atingidos por uma tempestade de resíduos e ficam perdidos no espaço. Nem o drama pessoal de Ryan Stone (uma Sandra Bullock ressuscitada, desenterrada, em tudo quanto for sentido). O filme pode até falar de solidão, de compaixão, de autossuperação, mas isso é apenas “suporte”, de novo, para um ensaio filosófico. Ficar remexendo essa superfície só vai servir pra perder tempo (e como se perde tempo, Deus!) encontrando incoerências científicas no que, em última instância, só usa a ciência de mula, de metáfora, para fazer ficção, filosofia. Que nos seja permitido o luxo de ignorar esse besteirol.

Cuarón (e seu filho Jonás, co-autor do roteiro) estão falando de cosmogonia e de origem da vida. “No princípio era o verbo”, diz o Genesis. E é verbo que emerge como a primeira sensação do filme. O silêncio absoluto do espaço vai sendo, aos poucos, ocupado pelas vozes longínquas dos protagonistas em seus comunicadores.

Por que a escolha de um plano sequência ilusório e gigantesco para iniciar o filme? Talvez porque a matéria, ali, seja uma só, condensada. Só após a grande explosão é que ela vai se afastando, se definindo, se organizando e consolidando como algo fragmentado, editado. Se antes a câmera pairava solta, sem a gravidade do título, aos poucos ela vai se tornando “olhar”, enquadrado, variável, olhar no sentido de Jacques Aumont. Na mesma medida em que os personagens vão se definindo, se tornando menos energia, plasma, e mais matéria.

Cortam-se cordões umbilicais simbólicos, criam-se placentas espaciais (é o bebê de 2001 novamente?), faz-se surgir o humano de dentro das “conchas” amorfas… aquela alga ali parece um DNA? E aquele anfíbio saindo da água é de que espécie? E o 3D, finalmente, ganha um uso integrado não apenas à narrativa (o que já parecia um desafio), mas à estética e ao propósito da obra.

À medida que o filme segue para seu final (que é ainda mais apoteótico do que já faz parecer a excelente trilha de Steven Price) o que vemos é mais do que o desfecho de um “thriller espacial”, e a direção de arte deixa isso claro de uma forma bastante interessante. Estamos de frente a um futuro que, ironicamente, também é passado. Uma história tão antiga quanto o próprio tempo e que, por isso mesmo, contém todas as outras. Algo tão abstrato como a gravidade. Se o filme começa dizendo que a vida é impossível no espaço, termina mostrando o único lugar onde ela é possível. E estamos falando, é claro, de um “lugar” metafórico.

Se eu fosse você, iria correndo conferir “Gravidade” no cinema a partir desta sexta, se possível num Imax 3D. Em primeiro lugar, para presenciar o primeiro exemplo pleno de Sci-Phi feito no século XXI. Em segundo lugar, para compreender como a linguagem do cinema ainda não foi esgotada e, do contrário, ainda possui potencialidades estéticas tremendas. E em terceiro lugar porque é espetacular. No sentido mais amplo da palavra. Um sentido que, falando em primórdios, regia as primeiras projeções cinematográficas, lá quando tudo começou…

Gravidade
EUA, 2013, 91 minutos.
De Alfonso Cuarón
Com: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris.

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