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O clímax e a maneira de ser de Marina Lima

Dia Internacional da Mulher, 2013. Chovia torrencialmente na cidade de São Paulo. Eu, um tanto nervoso, me acomodei numa cadeira do bistrô Le Vin, bairro Jardins, lugar escolhido por ela para nossa conversa. Pontual, Marina Lima chega sorridente, chapéu na cabeça, o qual dispensa logo na terceira pergunta. Sua voz inconfundível ressoa pelo ambiente e conquista as clientes da mesa próxima, que tomam um café enquanto esperam a chuva passar e tentam abafar os latidos estridentes do cão de uma delas. No meio da conversa, uma das senhoras que acompanha as mulhers diz: “Marina, obrigada pela oportunidade de ouvir sua voz. Você é muito mais linda pessoalmente” — e saem, todas sorrindo. “Está vendo? Não há anonimato em São Paulo. Há liberdade”, me diz Marina, também de sorriso largo, feliz com a cidade que escolheu para morar.

A conversa que tive com Marina eu levarei para a vida toda. É de encontros assim que a vida se alimenta, e não há como não agradecer, assim como a senhora do bistrô, a oportunidade de ouvir Marina dizer de si. Falamos sobre assuntos diversos, mas principalmente sobre o livro que lançou recentemente, Maneira de ser, que chega agora ao público em sua segunda edição, e dos dois discos mais recentes — Lá nos primórdios (2006) e Clímax (2011). Vale lembrar que ela começa esta semana, dia 17 de maio, uma temporada de shows no Tom Jazz, em São Paulo. Marina se reinventa. E dessa reinvenção de que tanto falamos, selecionei os melhores trechos.

Entrevista: Rogério Bettoni
Fotografia: Raquel Beolchi
Edição: Rogério Bettoni e Regina Miraaz
Transcrição: Mariana Melo

Marina Lima
SP feelings é uma música absurda de bonita. Logo no início da música você fala sobre “tesouros dignos de uma Torá”…
Cabala… Faço Cabala há anos. Na realidade, São Paulo guarda muitos tesouros. Torá é o livro máximo na Cabala, que não é uma religião, mas uma sabedoria. O livro máximo de um monte de religiões também. É o livro mais importante, nele se revelam muitos segredos. Para mim, São Paulo tem isso: descobrir muitas coisas dignas de uma Torá.

Você é bem ligada aos preceitos da Cabala no cotidiano?
É uma coisa que já está imbuída. Quando era estudante, adolescente, sempre fui muito boa em matemática, talvez até por isso eu trabalhe com música, porque música é matemática, ritmo, número… A Cabala é uma sabedoria assim: 2 mais 2 são 4, uma relação de causa e efeito, muito mais apurada. Se você entende os preceitos espirituais, tudo o que a Cabala prega, tudo que a gente não vê, que não está aqui, mas em que, de alguma maneira, a gente interfere – como o ar, que a gente não vê, esse mistério que está no ar –, não tem erro. Para mim, já melhora muito o meu dia-a-dia, meu mau humor acaba. Se alguma coisa parece que não dá certo, não foi porque as pessoas não quiseram, foi porque alguma coisa não deu certo mesmo, entende? A culpa não é de ninguém, a gente paga pelas consequências de tudo que faz. É você que faz seu destino.

Marina LimaQuando você veio para São Paulo, você sentiu uma certa leveza de deixar alguma coisa pra trás?
Completamente. São Paulo tem um lugar na minha vida como se fosse o exterior. Sabe quando você vai pro exterior e passa duas semanas em algum lugar por aí? É um exercício de libertação quando saio do meu habitat, porque fico olhando de longe e vendo tudo sob outra perspectiva. Parece que consigo me desprender de mim, da vida que levo. Para mim, São Paulo é um exercício assim. O que alimenta realmente são outras pessoas, outras possibilidades, o mundo poder te dar a chance de se reinventar. No Rio eu não sabia mais como me reinventar, a sensação que eu tinha era de que eu era uma paisagem, quase uma topografia da cidade: as pessoas me viam como um monumento, só que eu não sou um monumento, eu tenho uma vida, quero movimento. São Paulo me deu isso.

Você se sente mais anônima aqui em São Paulo?
Eu me sinto mais livre aqui, o que é muito diferente. Tive que me reinventar aqui, quis começar do zero: não deixei nada no Rio, de propósito, fora também ter perdido minha família que morava lá, uma família enorme. Não deixei apartamento, não deixei um canto pra mim. Mudei tudo para São Paulo, trouxe meus bichos, empregada, me reestabeleci como o começo de um novo momento, o que tem um efeito de olhar para dentro, de se reorganizar.

Você fala muito sobre o estrangeiro. Você acha que isso tem alguma ligação com sua infância, quando você foi para o estrangeiro?
Acho que tem uma ligação com esse momento que às vezes acontece com os artistas, ou as pessoas que gostam de criar. Tem uma hora que você enjoa de si próprio, da sua experiência, e procura um lugar onde possa se reinventar, sentir que está de novo com potência. Acho que São Paulo me trouxe isso: ao mesmo tempo que entendo meu passado, quem eu sou. Por eu ter mudado para cá, pessoas muito diferentes me convidam para um leque enorme de coisas. Eu vou a poucas. O dia tem 24 horas e eu tenho que dormir por nove, então resta muito pouco tempo. Tenho que selecionar o que realmente acho que vai me ajudar a tornar essa vida aquilo que quero, a minha busca…

Acho que estou ficando mais humilde com o tempo. Para chegar aqui, deixei muita bagagem, não dá para ter apego.

Você já fez análise?
Já, há anos. Já fiz lacaniana, freudiana. Eu tinha 16, 17 anos, comecei a sentir necessidade de fazer análise. Foram mais de 30 anos entre análises corporais, freudianas etc., e fui entendendo como é que funcionava. Agora cheguei na Cabala que acho que é tecnologia de ponta, então não estou mais fazendo análise. Parei tem uns 8 anos. Tem uma hora que é preciso agir. Acho que a Cabala me jogou para a ação.

Talvez a vida seja mais simples depois que se entende um monte de coisas. Ela não é simples de cara, é muito complicada e vai ficando mais simples com o tempo. Acho que estou ficando mais humilde com o tempo. Para chegar aqui, deixei muita bagagem, não dá para ter apego. Aos 50, não dá pra falar muito do agora, dá para falar do que já foi. O agora estou descobrindo aos poucos.

Essa descoberta é mesmo fenomenal. Acho que o Clímax tem um pouco disso.
É um disco “puta fundo”, não perde tempo explicando, ele fala do importante, do presente. É como ele tivesse chegado a um lugar e partisse dali em diante. Não é tão imediato assim, mas descobri com o tempo, até conversando com os jornalistas, que parece que as pessoas sempre entendem meus discos dois anos depois. Não é proposital, mas não sei o porquê.

Quando você lançou Lá nos Primórdios, eu era DJ. Lembro que tinha lido que você estava flertando com a música eletrônica e fiquei superempolgado.
Foi um pouco antes disso. Ali eu falei: “Olha, assume o lado eletrônico, é isso!” Estava começando a radicalizar, mas isso não é volta pra mim, é daqui adiante. Não é que não posso fazer um disco com elementos acústicos, mas vai ser a partir de uma saturação minha com o eletrônico. É um caminho que não tem volta, mesmo que eu reencontre alguns elementos no futuro, é futuro; não é passado.

Marina LimaA música com a Karina Buhr, por exemplo, do Clímax, é linda. É eletrônico com acústico…
Essa música é da época de Lá nos Primórdios, é mais antiga, só que achei que ela não estava pronta. E não estava mesmo. Aí coloquei só agora, no Clímax. É que ninguém ia entender mesmo se fosse no Lá nos Primórdios, porque ela é muito mais adiante.

A Karina Buhr é uma figura interessante, né?

Ela é interessante, sim. Acho que ela é inclassificável, parece que segue um caminho próprio e acho que comecei a conhecer este caminho a partir dela. Gosto muito das letras dela, o timbre da voz dela é bonito e acho ela fortíssima no palco.

Falando em palco, você tem planos de algum show em Belo Horizonte?
Não tem nenhum programado. Uns dois meses atrás também parei com essa coisa de empresário. Comecei a escrever o livro, comecei a escrever em alguns sites, minha carreira abriu e comecei a achar mais interessante ter produtores e eu dizer “quero, não quero”. Então, tenho que ter um empresário para entender como eu funciono artisticamente aqui no Brasil, quais são meus interesses além de música.

E essa coisa de ter propriedade da própria obra? “Quero decidir o que faço e o que eu não faço”? Teve uma coisa que você falou recentemente, sobre quando você passou a assinar Marina Lima, que você precisava ter autoridade sobre aquilo que dizia.
No começo foram duas coisas. Não tenho mais pai e mãe, mudei para São Paulo. Eu sou uma artista que acho que inaugurei uma outra leva, vim pra cá, tenho uma obra de mais de 20 discos, estou querendo me reinventar de outras maneiras. Acho que realmente fiz grandes discos, gosto da minha obra, mas não estou interessada em fazer aquilo. Não que não esteja interessada em música, adoro música, se eu me distraio, estou pensando em música, sentindo em música. Mas minha existência mudou: fazer um disco por ano, cantar, compor, não me basta. Preciso escrever, ir a lugares para dar sentido à minha existência. Quero que meu legado agora seja outro. Então, realmente sou Marina Lima mesmo.

Outro dia você tuitou uma coisa: “Papa, can you hear me?” Isso me remeteu à Barbra Streisand, àquele filme, Yentl. Você gosta da Barbra?
É um filme muito lindo, sou fã dela. No livro falo sobre várias pessoas, uma constelação. Eu dizia que a Adele está para os ingleses hoje em dia como a Barbra Streisand para os americanos. Aí, no Oscar, tinha uma foto do encontro da Adele com a Barbra, a alegria das duas, com o cabelo igual! Aí, eu: ”Olha! Eu não disse?” [risos] Sempre gostei da Barbra Streisand, porque essa mulher, cantora, judia, começou a dirigir filmes, começou a escrever músicas, até a produzir… Uma mulher independente de Hollywood, importantíssima na cultura de entretenimento americana. Outro dia vi uma entrevista num daqueles programas da CNN, ela dá poucas entrevistas, faz raríssimos shows, é superengajada em várias causas femininas, democratas. O cara perguntava se ela tinha orgulho do que tinha feito. Ela disse assim: “Olha, eu estou interessada nas coisas que eu estou fazendo agora e no que vou fazer. O que já fiz, acho ótimo, mas nem olho mais.” Isso é a arte de uma mulher que não para de pensar como pode ajudar a moldar o mundo de acordo com a contribuição dela. Eu sou uma artista assim também.

Mas música é tudo, música é um mar, palavras na embarca- ção. A música cumpre um papel sem bula.E a Laurie Anderson? Você fez uma versão de “Beautiful Red Dress”…
Foi uma dica da Monique Gardenberg, que criou esses festivais de música, Free Jazz, Carlton Dance. Ela e a irmã dela que criaram. Antes de ser diretora, ela era produtora, trabalhou com Djavan, foi minha empresária, fez eventos importantíssimos para o Brasil, trouxe pessoas importantíssimas, a Laurie Anderson, a Björk. Conheci a Laurie através da Monique, ela fez um show no Canecão. Achei super interessante, mas musicalmente eu não tinha muito interesse, achava pobre – gostei mais do discurso, da liberdade dela. Eu sou uma esteta musical. Tudo bem, ideias e tralalá. Mas música é tudo, música é um mar, palavras na embarcação. A música cumpre um papel sem bula. Então, a Monique falou, nos tempos do Lá nos Primórdios: “Marina, olha essa ‘Beautiful Red Dress’, acho que pode ficar muito interessante, podia ter no show.

Eu adoro a versão.
É muito parecida com a original, com o texto original, e a gente pensou para um momento ainda teatral, brincar com os vestidinhos, como eu imagino que tenha sido ela no show. Porque o show dela era muito teatral, tinha ela com computador, máquina de escrever, régua… Ela fazia uma coisa que a Monique adorava. A Monique dirigiu esse show: “Vamos colocar uma coisa ‘Laurie Anderson’”.

E a Yoko Ono? Tem também uma obra grande musicalmente?
A Yoko é conceitualmente interessantíssima. Com uns cinco anos eu descobri muita coisa, os Beatles foram um pouco meus pais, música negra, Motown, bossa nova. Depois, adolescente, o tropicalismo. Então, Yoko Ono veio através do John Lennon. Eu achava interessantes as músicas dele, mas sempre achei que os Beatles eram melhor juntos. A Yoko era interessante : com uma cultura japonesa, levou o John a ter contato com outra coisa. Mas eu preferia os Beatles.

Eu cresci ouvindo rádio, lá no exterior primeiro. Fiz todo meu primário em colégio americano e o rádio era um elemento mais importante que tudo. Quando eu voltei para o Brasil, com doze anos, a rádio também foi um grande meio de comunicação, mais importante do que a televisão para mim. Sempre fui mais auditiva que visual. Agora, com essa coisa de download e tal, continuo assim. Adoro baixar rádios do mundo inteiro, rádios holandesas, dinamarquesas, americanas, e ouvir. Gosto de música de rádio, se quero ouvir uma música clássica, ou jazz é outra coisa. Mas nas rádios, gosto do que se ouve, tem uma coisa assim ordinária, popular, que eu gosto.

Você gosta dos suecos atuais? Robin, The Knife…
Conheço um pouco, esse pessoal é sempre ponta de lança. Às vezes o som, você ouvindo na rádio, soa um pouco frio, mas pode ser como a Björk, talvez seja uma coisa muito adiante. Quando eu ouço as rádios, quero uma coisa que me esquente. Isso para mim foi um trabalho de pesquisa, entendeu? Eu ouvia música sueca. Rádio para mim é para eu sentir que aquilo me faz companhia, me esquenta no dia-a-dia, não é que tem que ser música pop, nada contra, mas não é isso. Têm que ser coisas que me apresentam possibilidades, porque quando faço canções, minha intenção nunca é só estranha, minha intenção é traduzir da maneira mais genial possível o que está se passando, e tornar aquilo o mais acessível possível também, até onde dá para ir. O que eu quero que toque na minha rádio? Que minha rádio chegue às pessoas: “Olha essa música da Marina!” Minha intenção é essa, é difícil porque é Brasil.

Acho isso interessante na sua obra, porque você não tem um disco igual ao outro, isso é muito bom. Tem isso de ser um pouco à frente, talvez porque você esteja à frente e ouça as coisas mais à frente.
Isso porque eu ando muito. Mas já foi mais à frente. Teve uma época que eu tive até um pouco de angústia, porque você quer um feedback mais rápido. Na realidade esse feedback existia, só que eu não tinha acesso, não tinha internet. O feedback que eu tinha era a rádio, porque quando comecei minha carreira tinha muito pedido de rádio. O que eu estava fazendo não era uma coisa muito comum, alguém tinha que inventar isso. “As pessoas querem ouvir isso”. Teve uma hora na minha carreira, depois de uns quinze anos, que ficou tudo muito parecido na rádio, todo mundo já começou a entender como é que se fazia o que eu fazia, ficavam só copiando, como se usando a mesma máscara, e eu não aguentei aquilo, queria estar um passo adiante. Tinha muita usando uma linguagem pop parecida com a minha ou supostamente parecida com a minha, ou com o Dalton, ou com o Lulu, e não saía disso. Eu me distanciei da rádio porque ela parou um pouco de cumprir seu papel que é mostrar, ser antena: “Opa, aquela coisa que eu ouvi na rádio”. Chegou uma hora que a rádio virou uma mesmice.

Marina Lima

Tem uma figura que era interessante no início, depois começou a se repetir: Ana Carolina. Na época do “Saia Justa” ela lançou um disco duplo, Dois quartos, e disse: “Minha intenção foi essa mesmo, fazer um disco radiofônico, e um segundo mais alternativo, que tivesse mais a ver com o que eu queria mostrar naquele momento”. É como se dissesse: “Eu preciso fazer um cd para vender, e um outro para soar mais cult”, sabe? Acho isso tão estranho.
Essa coisa acaba comigo, então pega um machado e “Cap”! Não sou uma grande conhecedora da obra da Ana Carolina, mas o que eu posso falar e o seguinte: existe, a meu ver, uma diferença grande entre grandes compositores e grandes cantores. Uma coisa é compor, uma coisa é cantar. Tem gente que faz as duas coisas bem. O problema é que as cantoras começaram a querer compor, então você vê grandes vozes, grandes cantoras, nos Estados Unidos, Europa – por exemplo, Adele agora compõe também, uma grande cantora, e compõe bem, nem todo o disco dela é bom, mas… Tem grandes cantoras que acabam colocando esse talento a serviço de canções mais medíocres, que não estão à altura da grandeza da voz delas. Por exemplo, Billie Holiday. Ela não era compositora, Ella Fitzgerald também não, estou falando de grandes cantoras. Porque Marisa Monte, Maria Bethânia, Gal Costa, Elis Regina, Ana Carolina são grandes cantoras, num nível excepcional, uma facilidade para quartas, oitavas… Às vezes, as canções são mais comuns, não estão à altura do brilho delas como cantoras. Não estou falando que elas têm que parar de compor, mas isso é um pouco problema para mim, porque como todo mundo compõe, eu não consigo ouvir porque acho a canção medíocre. Então, se aquela voz está a serviço de uma canção que é medíocre, eu não tenho interesse naquilo. Acho que a Ana Carolina tem algumas canções ótimas, mas reconheço nela uma extraordinária cantora. Ela, por exemplo, estourou com “Garganta”, “Retrato em Preto e Branco”, são canções do Chico, de outras pessoas. Ela cantou “Beatriz”, é uma grande cantora. Aquela versão que ela fez da música italiana “Cada vez que eu fujo, eu me aproximo mais”, aquela não é uma música dela. Ela é uma grande cantora para mim, que compõe, mas acho que quando ela grava uma grande canção é imbatível. E como o dia só tem 24 horas mesmo, vou buscar o disco de uma grande cantora com grandes canções, porque tenho um crivo…

Costumo falar a mesma coisa: não espero demais que um livro ou um filme se revele; se não me prende no início, deixo.
Um filme pode ser um grande roteiro com péssimos atores, você vai sacrificar os grandes filmes. Você pode até detectar: “Ah, descobri que esse filme aqui tem o roteiro bom, mas atores péssimos”. Agora eu vou ver um bando de filme bom com ator tudo péssimo? Não dá. Vou procurar um que arremate. Por exemplo, a Adriana Calcanhotto, acho que ela compõe muito bem e, quando ela compõe com outras pessoas é ainda melhor, a música ganha mais vida, tem mais cor, fica menos monocórdio.

Você abre o Clímax com uma música com ela.
Eu compus com ela, foi ótimo, muito boa compositora. Ela tem grandes ideias para letra e canta bem também. A Adriana Calcanhotto anda com um universo de acordes mais melancólicos, são acordes menores, é a variedade dela e me identifico com isso. O repertório dela vai por esse caminho, acho legal, mas preciso, às vezes, de outros acordes.

Marina LimaAcho a Karina Buhr um pouco melancólica, você acha? Em algumas canções. Não que a melancolia seja uma coisa ruim.
A única compositora, até agora, que conheço, brasileira, que acho uma grande compositora, e que não toca nem pinico nem chinelo, é a Vanessa da Mata… Não toca nada e compõe genialmente bem. As outras têm um problema de não saberem tanto música, essas pessoas ficam muito iguais. Mas a Vanessa da Mata, não sei explicar, é de uma outra natureza. Acho que ela é uma coisa inclassificável, é como um Djavan.

Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Você sentiu alguma dificuldade no início da carreira? Porque compor, na época, era uma atividade dominada por homens.

Senti, mas faz muito tempo, as coisas foram se quebrando. Hoje em dia as mulheres fazem de tudo. Acho que agora o problema maior são as minorias, o espaço dos negros, os gays…

E teve um retrocesso ontem no país, com o Feliciano…
Não consigo entender muito o Brasil.

Nem eu.
A explicação que eu consigo dar para a questão do Feliciano é esta: tivemos tantas conquistas de uma hora para outra: a Dilma, o Partido dos Trabalhadores, Mensalão, Joaquim Barbosa, Jean Wyllys, o casamento gay, que acho que a direita se organizoue ninguém prestou atenção… Quando viu, já estava na boca do gol. Na realidade a direita sempre foi bem articulada, só que a esquerda, ou os progressistas, conseguiram ganhar muitos pontos no Brasil nesses últimos dois anos. Essa é a única explicação que tenho plausível para um negócio desses, falha do sistema…

Falha da Matrix! Eu achei uma grande contradição, fiquei triste…
Não fica não, sabe por quê? A gente vive num sistema democrático, então, tem muitas coisas acontecendo. Se esse cara cometer alguma arbitrariedade, ele não vai poder ficar muito tempo. Ontem mesmo assinei uma petição para ajudar a tirá-lo. E as pessoas também vão se organizando rapidamente. Isso tudo é bom para a gente saber que precisa ficar de olho em tudo, que as coisas brotam. Não é que foi tudo a perder, a gente perdeu esse negócio aí, mas daqui a pouco ganha. Acho que a gente tem que ficar esperto.

Voltando à questão de sua obra ser sempre um pouco à frente. Você acha que você transgredia, com sua obra, o que era feito no Brasil? Você foi uma transgressora?
Acho que sim, mas porque também tinha um Cícero do meu lado, que também é transgressor. Nós viemos do mesmo lugar, a gente é feito da mesma matéria. Meu pai era um piauiense que não tinha bens, aquela matriz de onde vinham, naquela época, começando o século XX, os grandes intelectuais do Brasil. Ele se formou em Filosofia, Direito e Economia, ganhou três bolsas para ir para o Rio de Janeiro. Ele sempre foi uma pessoa estudiosa, ganhava bolsas e era conhecido porque era muito competente, um intelectual liberal. Nós fomos criados nesse ambiente, fomos morar lá fora, voltamos quando estava começando a ditadura, meu pai não aguentou. Meu pai mandou o Cícero, estudante de Filosofia, para Londres, senão ele seria preso. A gente sempre foi uma família liberal, meu padrinho é o [Hélio] Jaguaribe, cresci em casa com a Maria da Conceição Tavares, com o Celso Furtado. Essa era o roda do meu pai, eram homens intelectuais de esquerda.

Eu nasci no Rio, morei em Washington, a gente tinha um discurso diferente. E então, quando a gente veio para cá, o que dizíamos musicalmente não parecia com ninguém, era muito liberal. Isso quebrou um monte de paradigmas na época. O Brasil estava acostumado com uma coisa meio MPB, e o discurso era muito entre homens e mulheres e o Brasil que veio antes. Não tinha música pop no Brasil. Meu trabalho ainda é pop, só que ele não chega a tanta gente quanto no começo, por causa da rádio, que ficou mais conservadora. Então minha música acabou se tornando mais elitizada. Não que eu quisesse isso, eu queria fazer um trabalho de qualidade que chegasse no Brasil todo, mas infelizmente acaba chegando mais numa elite.

Veja só como é importante a questão da distribuição. E o livro, Maneira de ser?

Eu fiz esse livro com o sentido que se faz cultura, para meu pensamento poder chegar a todo mundo. E minha música também, através disso. Quero falar do Clímax, fazer outro disco esse ano ou o ano que vem. Acho que o livro é abrangente e fácil de ler, fácil de entender..

Gostei muito da forma como você recortou os assuntos, como você os relacionou.
Eu queria falar do que acho importante, para ajudar as pessoas, a partir de hoje, na perspectiva de hoje. Não me interessa ficar contando coisinhas. O que importa é o que pode servir como ajuda, ou como estímulo, ou como inspiração, aprendizado para pessoas que não tenham acesso a uma liberdade ou uma vida que eu tenho. Poder encorajar essas pessoas, cada um da sua maneira, cada um fazendo o que faz, mas encorajar a arriscar, a ir um pouco adiante, acho que a internet ajuda muito nisso. Hoje em dia ninguém se sente tão excluído, você acha seu nicho na internet, você vê que você está acompanhada. Isso é bom, as pessoas conseguem se relacionar, se achar.

Eu fiquei assustado quando a internet começou. Estava na faculdade, não consegui entender o que era: achava que ela ramificava sempre para fora, que as possibilidades iam ser sempre infinitas. Mas ao mesmo tempo que isso acontece, você tem os filtros que nos aproximam de quem tem afinidade conosco.
Acho que é exatamente isso, você descreveu muito bem a visão na realidade. Porque o que acontece é o seguinte: está tudo lá – de bom e de ruim –, é como o mapa-múndi. Os caminhos estão todos lá, você vai ter que achar os caminhos para poder estreitar, caindo em milhões de histórias, de fakes… Tem uma hora que você consegue achar, em alguns galhos, pessoas que podem trocar. Antigamente, quando não tinha essa convenção, dava uma sensação de solidão e de medo, porque agora você vê que não é tão estranho assim, você não é único, e tudo isso se potencializa: sua coragem de seguir adiante, alguém vai estar com você em algum lugar, pode não ser a maioria, mas vai ter gente .

Mas quanto à música, o que tínhamos antigamente era a MTV e as rádios, de certa forma nos era ditado o que ouvir…
Era, porque tem um negócio de jabá de gravadora. É complicado. Não estou mais em gravadora, então não sei mais como funciona. O que percebo é que as cantoras que estão em gravadoras não querem sair de jeito nenhum, porque elas talvez tenham garantido o negócio de rádio, de comissão.

Você foi pelo caminho contrário, de sair das gravadoras.
Fui porque o que eu estava compondo não tinha a ver com o pop comum que tocava. Então, a gravadora ia ficar puta mesmo. Eu não ia mudar. O único lugar em que eu poderia fazer isso era o lugar independente: fazer meu disco, lançar meu disco e distribuir. Ou alguma gravadora distribuir. Não adiantava querer que a gravadora gastasse dinheiro com o meu trabalho para eu criar e não fazer nada que ela entendesse ou que ela quisesse. Contraditório.

Você grava em casa hoje?
Eu gravo em casa. Eu gravo até voz em casa. A Vanessa [da Mata] cantou comigo num disco na minha casa; o Samuel [Rosa] também, no Clímax. Não posso dizer que não era bom antes, eu também gostava de estúdio. São coisas tão diferentes, sabia? É como antes do telefone celular, não era ruim.

Marina LimaNão é um meio de promover um ambiente mais intimista?
Olha, criar arranjo, compor em casa é uma maravilha, consequentemente cantar também. Mas quando eu gravava em estúdios, geralmente tinha dois meses de pré-produção, então ficava em algum estúdio, na minha casa ou em algum lugar, para produzir os arranjos,e quando ia para o estúdio era pra tornar aquilo grandioso. Eu gostava também. É que agora o autor, no meu caso, é quem realmente controla tudo. A gente mixa em casa. Só não comprimo, não masterizo, porque não entendo disso. É outra técnica.

Você começou a escrever num portal. Eu abri e vi por acaso que você dizia sobre amor e verdade…
Para mim é uma questão recorrente. Quando Cícero e eu compomos, os dois têm muitas ideias, muito assunto. Quando a gente se encontra – hoje em dia até muito, porque a gente está muito próximo (depois que a gente perdeu pai, mãe e irmão, de uma maneira isso nos uniu) – os encontros são muito próximos. A gente fica com uma ambição dos dois irmãos querendo mudar o mundo, isso é bom. Mas quando a gente compõe, ele tem uma forma de pensar, eu tenho outra. A gente tem que criar um terceiro elemento que seja uma mistura da Marina e do Cícero, não pode ser nem só eu, nem só ele. E tinha essa música, “Prestes a voar”: “Eu quero a verdade ou quero amar?”. Eu quero os dois, não engulo essa máxima do amor romântico, que durante uma época fiquei engolindo, achando: “nossa, não consigo amar, não sei lidar com a verdade”. Não é isso. Tem que parar um pouco a idealização, começar a amar um pouco as coisas como elas são, aceitar mais a realidade, olhar um pouco mais os defeitos e o esforço da pessoa, parar com esse amor de Hollywood. Acho que é possível, só que é difícil. “Eu quero a verdade, eu quero amar”.

Amar não é um ato de maturidade? É difícil manter um relacionamento.
Aí eu pergunto – eu que estou sozinha, estou solteira – aquilo que o Fernando Pessoa perguntava: “Onde é que há gente no mundo?” Todos os meus amigos têm sido campeões em tudo ou derrotados em tudo… Eu quero amar alguém real, e “onde é que há gente no mundo?” É por aí que estou tentando, não vou desistir nunca, mas também não vou engolir um monte de coisas que as pessoas querem me vender. Eu quero gente para quem eu também possa mostrar  os meus lados todos e entender os outros, quero poder potencializar encontros. É difícil encontrar.

Encontros em todos os sentidos, né?
Sim, é difícil encontrar isso. As pessoas querem vender, em geral, imagens de si próprias idealizadas, ninguém aceita se mostrar, a vaidade é muito grande, o ego é muito grande, é preferível enganar as pessoas a mostrar quem você é. Eu quero ser como as pessoas são, como canta o Caetano “de perto ninguém é normal”. É isso. Não é todo mundo que está pronto para isso ou quer isso, tem pessoas que preferem viver idealizações.

Você não acha que esse momento que a gente está vivendo facilitou, potencializou isso um pouco? Da visibilidade, das pessoas quererem ser vistas.
Acho, mas tem uma coisa das pessoas mais novas, das gerações mais novas que me preocupa. Acho que facilitou, mas acho que as pessoas mais novas estão precisando muito ser infantis, não sei direito se isso é bom, se foi exigido muito delas para cuidar dos próprios pais que não conseguiam dar conta, não sei. O que vejo é uma geração mais nova muito infantilizada e que me preocupa, porque na hora que elas virem que o buraco é mais embaixo, vai ser uma puxada de tapete. Não estou julgando, mas é isso que percebo e que me preocupa.

O que eu percebi quando dava aula para crianças e adolescentes é que essa geração banalizava demais o mundo, as coisas, o outro…
Sinto um pouco isso, mas acho talvez que tenha um pouco da internet também, porque ficou tudo mais fácil, para o bem e para o mal. Tudo mais fácil eu acho bom, o problema é perder a profundidade das coisas, a capacidade de pensar e a curiosidade. O que você não pode banalizar é a vida, isso que fico com um pouco de medo. As pessoas muito novas ficarem derrotadas, derrotistas, ou desistirem de procurar profundidade. Não quero que aconteça isso com elas, porque conto com elas para transformarem o mundo. Daqui a pouco estou indo embora e quem vai levar adiante? Esse legado da gente, de criar, recriar, de tornar o mundo interessante e aberto, são as pessoas mais novas [que vão levar]. Elas não podem banalizar e desanimar achando que não têm tempo, que a vida é o aqui e o agora, tomar uma bala e dançar. Na vida tem que sofrer, infelizmente, faz parte, não que sofrer tenha que ser uma regra, mas às vezes a solidão, uma agonia ou outra, fazem parte de uma grande descoberta e alegria adiante. As pessoas não estão querendo passar por nenhuma privação ou agonia, o que faz com que elas sejam pessoas que não conhecem nada no mundo, só a superfície das coisas. O mundo tem um lado superficial que é interessante, e tem um lado de descobertas, potencializador da beleza das coisas, não vamos perder isso.

Você fala um pouco isso no início de seu livro, de cortar os excessos…
Tem uma hora que a gente que é dono do nosso próprio nariz – não tem pai, não tem mãe, não tem ninguém, sabendo que é você que faz seu destino – tem que procurar aquilo que acha que é a tradução do que você quer para você. Aquele livro do Eduardo Giannetti, O valor do amanhã: ensaio sobre a natureza dos juros – você tem que ver o que, para você, vale a pena, a curto e a longo prazo, e agir, tendo que podar algumas coisas. Tem coisa que você fala: “não vale a pena isso”. Não é se privar de coisas que possam ser muito importantes para você, talvez se privar de algumas coisas bobas que possam fazer mal, que não vão levar a nada, isso é outra coisa, tem que buscar o seu discernimento. A vida adulta exige isso.

Marina Lima

Site oficial de Marina Lima: marinalima.com.br
Twitter: @marinalimax
Facebook: facebook.com/marinalimaoficial
O lançamento da segunda edição do livro Maneira de Ser, pela Editora Ilha, acontece nesta sexta-feira, dia 17 de março, no Tom Jazz, junto com o show de Marina Lima. Em breve nas livrarias de todo o Brasil.

19 comentários sobre “O clímax e a maneira de ser de Marina Lima

  1. Muito boa a entrevista! E tuas impressões sobre ela são as mesmas minhas: pra vida! Ela consegue ir direto ao ponto e deixar o seu perfume discreto no ar e nos ‘contaminar’ pra tudo!
    Parabéns e obrigada!

  2. Impressionante como a Marina rende uma grande entrevista,
    quando feita por um bom entrevistador. E achei muito pertinentes as colocações da Marina sobre os jovens. Divido a mesma preocupação, acho que está tudo meio bobo e meio raso; falta ir fundo nas coisas, na vida. Marina é inteligente e interessante, por isso acompanho e sou fã, porque ela tem o que dizer. Parabéns Rogério pela entrevista e pelo texto.Tenho zapeado pelo site e tenho gostado bastante.

  3. Não conhecia seu blog, amigo e fiquei fã como sou de Marina: pelo que é, pelo que fala, pelo que canta, por tudo que faz! Parabéns pela entrevista e obrigado por ela!

  4. vou imitar as senhoras do café: Marina Lima é com imenso prazer que termino de ler essa sua entrevista, minha admiração não so como cantora, mas com ser humano essencial é reafirmada. Parabéns, pela sua sabedoria e beleza interior.
    um carinhoso abraço.
    Marcia Andrade

  5. Poxa! Tenho pedido tanto aos produtores de Belo Horizonte para trazerem o show da Marina para a cidade.

    Linda entrevista. Adorei. Espero fazer uma assim com ela um dia.

  6. Ouvir a Marina falar, ler o que ela tem a dizer é permitir o tempo passar mais lentamente. Vc. quase esquece dele e das coisas que tem prá fazer. Acho esta mulher de uma dignidade impressionante. Além de ser chic, inteligente e bonita…(ué, onde é que se escondem os defeitos dela? rss) teacher Luciano

  7. Adorei esta entrevista, super leve e verdadeira. Suas perguntas inteligentes so deram asas a velocidade do raciocínio da Marina. Parabéns para os dois, é bom saber onde esta o umbigodascoisas. Bjkss

  8. Entrevista nota dez . Grata, Rogério, por nos proporcionar a oportunidade de escutar e conhecer um pouquinho mais essa mulher inteligente, que se redescobre a cada década,cada vez mais compromissada com a verdade,dela e do mundo .

    Um beijo doce, caríssima Marina.

  9. ela é direta, sutil, passa uma impressão real de que esta ligada a tudo que acontece…. ou seja, Marina nao é nenhuma alienada… é uma mulher inteligente, que gosta de musica. Eu a adoro…

  10. Oi Bettoni, nossa que texto show! Adorei a entrevista. Conheci você em uma disciplina sobre tradução na USP com a Lenita Esteves. Adoro seu site. Um abraço. Yuri

    1. Yuri! Que bom saber que você esteve por aqui e que gostou da entrevista! Marina Lima é um presente pra nós. Um abraço, sucesso! Rogério

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