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As vantagens de ser invisível

Este texto contém alguns spoilers.

“Todo dia, faça algo que te dê medo.” A frase, perdida no viral “Wear Sunscreen”, que rodou o mundo em 1999, se tornou uma espécie de mantra para minha pessoa. Eu, que até meus 16 anos tentava esconder a timidez psicossomática que me assolava e assombrava, decidi tomar como lema a frase ao encarar qualquer desafio que me trouxesse aquele característico frio na barriga.

O norte-americano Stephen Chbosky, autor do livro “As Vantagens de Ser Invisível”, parece ter ouvido a prece dos jovens tímidos, deslocados e intensos refugiados em seu próprio universo ao escrever a sua primeira obra, um grande sucesso. Não contente, adaptou roteiro do próprio livro, produziu e dirigiu (ufa!), tornando uma das grandes surpresas boas de 2012.

Em um ano não especificado da década de 1990, o adolescente Charlie (Logan Lerman, mais conhecido pelo personagem-título de “Percy Jackson e o Ladrão de Raios”) escreve cartas a uma pessoa desconhecida (nunca identificada, as cartas podem ser subentendidas como uma exteriorização de seus sentimentos, mesmo que não cheguem ao destinatário). Nelas, ele conta sobre o medo de seu primeiro dia de aula que resulta no achincalhamento por outros alunos, no ambiente mais do que conhecido de bullying nos corredores dos colégios norte-americanos.

Porém, sua vida muda com a aproximação da bela e doce Sam (Emma Watson, se livrando cada vez mais do fantasma de Hermione Granger) e do sarcástico gay Patrick (Ezra Miller, que deu vida ao mórbido Kevin no excelente “Precisamos Falar Sobre o Kevin”). A partir dali, a dupla de meio-irmãos acolhe Charlie, um rapaz solitário, que exala candura no seu jeito delicado e inseguro de olhos doces e implacavelmente observadores.

Recém membro do hall de personagens cativantes do cinema, como a pequena Olive de “Pequena Miss Sunshine”, a Penny Lane de Kate Hudson em “Quase Famosos”, Edward, o mãos de tesoura mais cativante personificado por Johnny Depp ou a icônica Amélie Poulain de Audrey Tatou, só para citar alguns, Charlie já laça o espectador em poucos minutos de projeção. A partir daí, é se entregar e acompanhar as experiências do trio durante o último ano de colégio antes da ida para a universidade.

Com um quadro de depressão severa que se aflora após o suicídio de Mike, seu melhor amigo, Charlie se entrega ao universo dos livros e da música, que lhe dão prazer, lhe fazem fugir da realidade, fazendo com que o professor Anderson (Paul Rudd) se torne seu grande mentor no consumo desenfreado de grandes obras da literatura. E entre esta agitação de fazer parte de um grupo desprezado pelos populares, Charlie, refugiado em seu universo catártico e letárgico, se ilumina pela presença de Patrick e Sam, fazendo com que encontre segurança, apego, libertando-lhe da clausura de uma vida que, para ele, era enfadonha e inútil.

Além do comportamento depressivo, o jovem ainda sofre com um estresse pós-traumático por conta da morte de sua tia Helen (Melanie Lynskey, a psicótica e hilária Rose da série “Two and a Half Men”), cujas lembranças vêm em forma de delírios. Enigmática e doce, ela se tornou a grande figura materna durante a infância de Charlie, até ser morta em um acidente de carro. Consumido pela culpa, Charlie vê sua depressão emergir como uma lembrança à fragilidade e impotência, ou seja, a incapacidade de controlar a separação daqueles de quem dependemos, aliado à vulnerabilidade com relação à perda. Porém, mesmo perdendo duas pessoas importantes em sua vida, Charlie se permite, dentro de sua própria solidão, entregar-se à amizade de Sam e Patrick.

Apesar da temática, “As Vantagens de Ser Invisível” não se deixa levar pelas amarras de um filme pesado e denso. Sua melancolia, entretanto, dá as mãos à delicadeza poética de uma época marcante da vida, em que expõe as dores e delícias de uma juventude decidida a se encontrar, seja diante de si mesma, seja diante do próximo. E entre paixões, feitos, flertes, decepções, drogas (a cena em que ele come o brownie com maconha é impagável) e a inevitável entrada na universidade, relembramos nossas próprias histórias daquele tempo ou, caso mais jovens, nos identificamos com a fase que está sendo vivida atualmente. Afinal, como jovens transbordando hormônios, todas as emoções atingem grandes proporções. E o marco da liberdade é quando, no carro com os amigos, em um momento de explosão de felicidade pura, bruta, Charlie diz a inesquecível frase-chave: “eu me sinto infinito”.

Desprezados no colégio (Patrick, por exemplo, é chamado de “Nada” por outros alunos), o trio se torna inseparável e decide – com o perdão da expressão – “ligar o foda-se”, ou seja, não se incomodar com as agressões verbais que recebem constantemente. E, assim, Charlie é batizado como um “invisível”, “um membro da turma dos deslocados”. Tal “invisibilidade” faz com que ele possa enxergar tudo sem ser notado, ou seja, uma espécie de jacaré à superfície, que observa antes do ataque. E, tão logo sente-se acolhido, percebe seu próprio não-reconhecimento diante do espelho. Começou, enfim, a transformação interna e externa do invisível que enxerga todos os outros, como um fotógrafo que registra o outro sem ser notado e, consequentemente, sem que se mude o comportamento alheio.

Charlie, diante do mundo onírico, seguro e cúmplice oferecido por Patrick e Sam, brinda com os três esses goles de vida até a última gota. Afinal, justamente por não existir desenvolvimento sem dor – bem como demasia ou falta de dor impedindo o desenvolvimento – os três se entregam um ao outro após terem seus históricos de dores, com Patrick, homossexual que acaba por se envolver com um dos garotos mais populares do colégio em um envolvimento calado, às escuras, ou com Sam e seu extenso histórico de relacionamentos degradantes, em que percebe que “aceitamos o amor que imaginamos merecer”.

Assim, diante desta época da vida onde a linha entre a adolescência e a vida adulta ainda é tênue, diante de uma transição que amedronta, aflora a insegurança e demanda o corte do cordão umbilical da adolescência, com Charlie tendo de lidar, já mais amadurecido, cara a cara com os conflitos que o rodeiam, como a submissão da irmã Candance (Nina Dobrev, de “The Vampire Diaries”) diante do namorado violento – e na qual ele se sente impotente por não poder ajudá-la – e os conflitos que se desenrolam por conta do envolvimento de Patrick e o aluno que, para não assumir a própria homossexualidade, se esconde atrás da homofobia.

Inclusive, a questão do bullying, embora não aprofundada ali, é evidente em “As Vantagens de Ser Invisível”. A renomada psicanalista austríaca Melanie Klein, criadora do conceito Identificação Projetiva, defendeu que o sujeito tem a ilusão de livrar-se de partes de si que considera intoleráveis, projetando-as no outro, ou seja, o que nos incomoda no outro leva a um conhecimento melhor de nós mesmos. Para proteger-se do que nos causa ojeriza justamente por nos identificarmos, agride-se física e verbalmente o objeto-causa de identificação em uma ferramenta de onipotência, alimentando o indivíduo com uma sensação de controle da situação. Assim, de maneira patológica e evacuativa, o bullying ganha forma.

Com a presença de outros rostos conhecidos da TV, “As Vantagens de Ser Invisível” ainda conta com a participação de Dylan McDermott (da primeira temporada da série “American Horror Story”) e Kate Walsh (a Dra. Addison Montgomery de “Grey´s Anatomy” e “Private Practice”). A estratégia de manter veteranos hollywoodianos fora do projeto foi certeira – até porque o foco do filme são os personagens jovens – pois contribuiu para não estourar o orçamento. Ao custo de apenas US$ 13 milhões, o filme e já arrecadou mais de US$ 25 milhões no mundo todo. E vale cada centavo gasto e arrecadado, justamente por transbordar na tela a paixão de um diretor que pôde levar a própria obra para a tela grande, do jeito mais próximo que pôde quando imaginou ao escrevê-la.

“As Vantagens de Ser Invisível” muda seu ritmo e clima quando, próximo do fim, os traumas de Charlie explodem. Afinal, apesar do amadurecimento, surge o desconforto por conta da separação que, em breve, os assolará. Assim, o presente entrelaçado com o passado na figura de tia Helen, faz com que Charlie, em uma tentativa desesperada de evitar uma nova rejeição e perda, atraia de volta a inadequação e vulnerabilidade do personagem no início do longa (afinal, solitário, encontrou e Patrick e Sam seu porto seguro, a aceitação e amor necessitados).

E nesta posição intrapsíquica (seu mundo interior) e interpessoal (sua interação com os outros), a culpa pela morte e confiança habitual da perda de tia Helen dão lugar às preocupações e dores, com Charlie carente de recursos internos para superar a inevitável dor da nova perda. Afinal, para ele, ficar sem os amigos seria como uma segunda perda de tia Helen e do melhor amigo suicida, Michael. Os psicanalistas George Brown e Tirril Harris, autores de “A Study of Social Origins of Depression” (Um Estudo das Origens Sociais da Depressão, em tradução livre), após associação das ideias de Jonathan Peddler – estas baseadas nos conceitos de Melanie Klein sobre a depressão – descobriram que a perda precoce da mãe é um dos fatores significativos para a depressão na maturidade. Charlie, que via em tia Helen a sua grande figura materna teve, provavelmente, a partir daí, o desenvolvimento do seu estado depressivo.

Ainda de acordo com Peddler, a auto-estima implica uma relação de objeto interna em que uma parte do eu é “contida” com afeto por outra e quando esse laço se quebra – primeiro com tia Hellen e, depois, com Patrick e Sam – Charlie tem seu processo de auto-estima comprometido. Tal hibernação, tão própria do ser depressivo, caracteriza-se por, justamente, poupar energias para o reerguimento, que se dará em um futuro incerto. Futuro este que, para deleite dos espectadores, não tarda a vir. Imperdível.

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As vantagens de ser invisível (The Perks of Being a Wallflower)
EUA, 2012. 102 min.
Direção e roteiro: Stephen Chbosky
Com: Logan Lerman, Emma Watson e Ezra Miller

16 comentários sobre “As vantagens de ser invisível

      1. Ótimo texto! Mas tenho uma dúvida… pelo que observei e compreendi sobre o filme é que Charlie apresenta um sentimento relativamente bom em relação a tia, a mesma que o abusou na infância? Esse fato não tragaria sentimentos ruins em relação a ela?

  1. Sem comentar o abuso que Charlie sofreu quando criança, fato que também contribuiu para sua “explosão”. As vantagens de ser invisível foi mesmo uma ótima surpresa esse ano. Parabéns pelo texto!

  2. na cena em que Charlie aparece “dividido em 3” remete a um possivel estado psicotico, fato que pode ser corroborado pelo abuso sofrido quando era crianca, visto que, seu ego, ate entao em formacao, sofreu um trauma que o marcou profundamente…

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