gravidez

Gravidez e Cinema

Por Renata Mendonça

Revendo o lindo do documentário de Sandra Werneck, “Meninas” (2005), pensei nas mudanças ocorridas nas relações familiares no Brasil. Pode-se dizer que, até pouco tempo, as questões e discussões se apresentavam em torno dos filhos de pais separados, da mulher no mercado de trabalho e, também, da gravidez na adolescência ou fora de um casamento tradicional. Hoje, o que temos como questão é a adoção de filhos por pais homossexuais, as barrigas de aluguel, as várias formas de inseminação e como deveríamos tratar da sexualidade, questionando as referências específicas – homem/mulher.

Mesmo com tantas mudanças sociais e as várias formas contraceptivas, uma questão que ainda é motivo de discussões e pesquisas e que muitas vezes é tratada como risco biopsicossocial é a gravidez na adolescência. Nossas avós já tinham filhos e eram casadas nesse período da vida, mas, hoje, o que uma garota pode fazer de sua história não representa o que era esperado de nossas avós; assim, elas estão na contramão do capitalismo, fazem um “furo” na expectativa social.

A gravidez na adolescência é o tema do documentário supracitado, e que também nos remete a “Juno” (Jason Reitman, 2001), “A Criança” (Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, 2005) e “De repente Califórnia” (Jonah Markowitz, 2007), entre outros – produções que retratam esse acontecimento ou as conseqüências dele de forma perspicaz, inteligente e com uma posição crítica em relação à sociedade atual.

Falando do filme “Meninas”: trata-se de um trabalho sensível da diretora/produtora Sandra Werneck, filmado na cidade do Rio de janeiro, em que ela acompanha quatro adolescentes grávidas com idade de 13 e 15anos, cada uma com sua história, suas expectativas e fantasias sobre a vida, a gravidez, ter um filho, a relação com os namorados e seu olhar sobre o feminino.

O filme demonstra, através dos relatos, que não é falta de informação sobre contraceptivos, como diz uma das garotas – Luana, de 15 anos: “já queria engravidar, queria a minha, sempre cuidei da minha irmã desde o dia que ela chegou do hospital” – a irmã tinha 5 anos na época em que o filme foi gravado. Outra garota de 13 anos, Evelin, diz: “Eu nunca tomei remédio, ele não queria usar camisinha, a gente transou, mas, só aconteceu [a gravidez] agora.”

Já que não é falta de informação, o que será então?

No documentário, as meninas dizem de um gozo no corpo incontrolável e falam das relações com os namorados, com a família, da vida e do amor.

Para a psicanálise, tanto a gravidez quanto a adolescência são sempre tratadas de forma singular, no caso a caso. A maternidade é vista por Freud como uma saída para o feminino, uma equivalência entre bebê e falo, uma solução para a inveja do pênis. Lacan ultrapassa essa questão, marcando um gozo feminino para além do falo e reconhecendo uma saída pelo “ser não-toda” (submetida à castração). A resposta freudiana é pela via do ter; a de Lacan, pela via do ser.

Mas seria a maternidade uma solução para o feminino? A solução do feminino pela via do ser é uma solução da própria castração, do próprio buraco fabricando “um ser com o nada” e que o verdadeiro de uma mulher, se mede por sua distancia subjetiva, da posição de mãe”[1]. Como nos demonstrou, de forma radical, a personagem mitológica Medeia.

Mesmo não encontrando na maternidade a resposta para o feminino, o que Lacan apresenta como uma resposta não vai de encontro com a atualidade, pois decidir por não ser mãe não significa uma saída pelo não-toda, já que há, também, a competição fálica representada pelo movimento feminista, em que a mulher é igualada ao homem e passa a competir com ele. Abrindo mão do filho pelos trabalhos, pelos cargos, pelos diplomas, ser aquela que têm o falo e banca o homem.

A adolescência é reconhecida pela psicanálise como uma posição subjetiva, diferente de uma fase que antecede a vida adulta, um momento em que o menino ou menina é “é chamado a se identificar aos ideais do próprio sexo”[2] apresentando-se como uma mulher ou um homem. Não é uma fase de desenvolvimento ,e sempre é tratada, como disse acima, no caso a caso.

O adolescente, sem termos sociais, é visto como um sujeito a vir a ser, um sujeito, como nos diz Miller[3], submetido ao discurso do mestre, aquele que deve ser ensinado, assistido e controlado… então, há uma tentativa social e pedagógica de ensinar às meninas sobre a sexualidade e controlar o gozo que se apresenta no corpo.

No filme, as meninas relatam a gravidez como uma resposta para a questão o que é ser mulher e é um jeito de ter um lugar no mundo, um laço com o Outro, pois é o momento em que ocupam um lugar diferente na família.

Esse documentário ao mesmo tempo retrata as dificuldades familiares, a falta de perspectiva, a relação com o tráfico e a falta de recursos econômicos, dando-nos uma visão realista e sensível desse acontecimento tão presente em nossa sociedade.

Cada um dos outros três filmes citados, para mencioná-los rapidamente, tratam a adolescência e a gravidez de forma bem específica.

De Repente Califórnia“Juno” conta a história de uma adolescente que se responsabiliza pela gravidez e pelo filho, abrindo mão da maternidade; “A Criança” nos mostra claramente como um bebê pode ser um objeto de troca monetária, caracterizando o mundo capitalista e a relação do pai com seu filho quando a mulher é causa de desejo para um homem; Em “De repente Califórnia”, um jovem adolescente cuida de uma criança, e ao se perguntar sobre sua sexualidade, passa a lidar com os preconceitos e a responsabilização pela própria vida.

Apesar de todo o caminho percorrido pela ciência e as novas formas de pensar o mundo, a gravidez na adolescência é presente, talvez, vista ou pensada de um novo ou mesmo jeito, mas, é uma questão. As velhas e novas questões da sociedade.

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[1] Jacques-Alain Miller, “Mulheres e Semblantes, em Heloisa Caldas, Alberto Murta e Claudia Murta, O feminino que acontece no corpo – A prática da psicanálise nos confins do simbólico (Belo Horizonte, Scriptum, 2012).

[2] Esthela Solano-Suárez. “A adolescência: o despertar”, Arquivos da Biblioteca n.1, novembro de 1997.

[3] Jacques-Alain Miller. “A Criança e o Saber”, CIEN-Digital 11, disponível em http://www.cienbrasil.blogspot.com.br.

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Renata Mendonça, apaixonada por cinema, é psicóloga e psicanalista em Belo Horizonte.

3 comentários sobre “Gravidez e Cinema

  1. …garota pode fazer de sua história não representa o que era esperado de nossas avós…ainda são crianças brincando de ser adultas,são crianças gerando novas crianças,são questões presentes que pode surgir dai uma nova discusão nas politicas publicas, um novo enfrentamento a ser discutido.

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