vagina

Precisamos falar sobre a vagina

A vagina é um tabu. Um mito. Um mistério. É o centro de um grande mal-entendido entre pessoas de todo o espectro da sexualidade humana. É mal compreendida e a própria palavra é usada, às vezes, para definir parte do órgão sexual feminino, e outras, para englobar vulva, pequenos lábios, canal vaginal, clitóris… Neste ponto talvez alguns leitores rejeitem essas palavras. Pois é. Eis um dos pontos que torna o livro “Vagina: a New Biography”, de Naomi Wolf, interessante. Ninguém quer realmente saber todos os detalhes sobre a vagina. Eles incomodam. E na biografia da vagina, esse incômodo é personagem central.

Vagina começa com um depoimento pessoal de Naomi: aos quarenta e poucos anos ela descobriu que seus orgasmos não eram mais como antes. A causa: um problema na coluna – ela sofria de uma condição chamada espinha bífida. Ela partiu, então, para uma dupla jornada: cuidar da saúde e escrever um livro. Fez uma cirurgia complexa e bem-sucedida. Concentrou-se em uma pesquisa sobre a ligação entre a vagina e o cérebro na mulher. Consultou ginecologistas, neurologistas, enfermeiras e faz no livro uma ampla reportagem sobre a complexidade dessa conexão, que influencia diretamente o modo como as mulheres experienciam o prazer sexual.

Naomi WolfEntre muitas coisas, ela mostra que a rede neural da região pélvica, que é única em cada mulher, como destaca Naomi, produz efeitos diferentes no sistema nervoso. O mesmo estímulo no mesmo ponto X (clitóris, vulva, ponto G, enfim, a escolha é sua) em duas mulheres diferentes provavelmente não produzirá a mesma excitação e prazer. Nos homens, argumenta ela (e isso não tenho condições de avaliar, pois não li algum livro semelhante sobre o pênis), a excitação não é tão individualizada como nas mulheres. A partir daí, Naomi explica – entremeando teorias científicas com exemplos e relatos – a relação entre os diversos estímulos à vagina e sua relação com o aumento ou diminuição nos níveis de neurotransmissores como oxitocina, dopamina e serotonina no cérebro feminino. Tudo isso influencia o antes, o durante e o depois da relação sexual.

Ao longo da investigação, Naomi Wolf revisita e destrói teorias que vemos repetidas até hoje à exaustão na mídia ou mesmo na academia quando a sexualidade da mulher, como a de que o prazer é só clitoriano, ou só no ponto G, ou nos dois simultaneamente, ou separadamente, ou com penetração, ou sem penetração. Não há fórmula, diz ela. E mais: esqueçam também a compreensão freudiana da vagina e os clichês sobre masturbação e ejaculação femininas. Em certo sentido, tudo isso só mostra que não somos tão liberados como acreditamos e que nosso conhecimento sobre sexualidade está ultrapassado.

Sempre relacionando as questões com as descobertas científicas, a obra faz uma excelente análise de como a indústria da pornografia constrói uma compreensão totalmente irreal da sexualidade humana. Também mostra os efeitos não tão benéficos do uso de vibradores e questiona se eles representam, efetivamente, a independência sexual das mulheres. Ao lado dessa pesquisa, a autora apresenta também os conhecimentos do tantrismo sobre a vagina e a sexualidade feminina, mostrando que, em muitos aspectos, o que a ciência diz hoje os mestres do tantra já sabiam. E revisita algumas terapias tântricas para o prazer feminino.

É aí que o livro ganha e perde, em minha opinião. Mas vamos nos concentrar nos ganhos por hora.

Ao investigar a conexão vagina-cérebro, Naomi elenca uma série de informações que a ajudam a revisitar milênios de representação cultural da vagina. Em culturas asiáticas, a vagina já foi enaltecida em forma de divindades, ritos e mitos. Era sagrada. Entre os gregos, tornou-se profana e controlada socialmente pelo casamento. Nas culturas judaico-cristãs, virou tabu e alvo de violência simbólica: ter uma vagina tornou-se motivo de vergonha e ódio, e esse “horror” foi literalmente trancado a chave. Na repressiva era vitoriana, aparecia em livros e canções sempre representada como manifestação do pior da condição humana. Na atualidade, mídia e pornografia não colaboram em nada para questionar isso.

A análise história e social que Naomi faz no livro, embora pudesse ser mais rica – ela está preocupada em relacionar sua análise de dados científicos a questões culturais e sociais –, é deliciosa. Os trechos sobre como Georgia O’Keeffe, Shakespeare, George Elliot, Elizabeth Barrett Browning e mais artistas representaram a vagina e o despertar do prazer sexual feminino em suas obras são interessantíssimos. A contraposição entre a vagina na visão de Henry Miller e Anaïs Nin é reveladora. E o levantamento sobre as metáforas da vagina nas letras de blues, desculpem o ânimo exaltado, é sensacional. (Na música sugerida para acompanhar este texto, adivinhem o que “chair” representa. E se você adora Nina Simone cantando “I want a little sugar in my bowl”, é bom ter em mente que “bowl”, ali, é vagina.)

O melhor do livro, entretanto, é quando Naomi investiga como as violências física e simbólica contra a mulher deixam marcas indeléveis em seu cérebro, desencadeando memórias e reações do sistema nervoso complexas, difíceis de serem curadas e superadas. Ela mostra como o estupro não é apenas uma violência brutal, mas uma verdadeira estratégia social de controle das mulheres e como a linguagem chula ou infantilizadora usada para designar a vagina também opera nesse sentido. Aqui, a autora mostra seu controverso poder de crítica das relações de poder.

“Vagina, a New Biography”, é informativo, engraçado, bem escrito e uma excelente pesquisa. Mas não é livre de críticas. Primeiro, o livro deixa de lado a oportunidade de se tornar realmente uma biografia ao enfocar quase exclusivamente a experiência de mulheres heterosexuais. A visão pragmática do livro – que ao final envereda por conselhos sobre como obter mais prazer sexual – desvirtua o potencial questionador da obra. O que poderia ser uma crítica social acaba se tornando algo conformado, esbarrando em receitas genéricas. Outro aspecto é que Naomi não investiga tão profundamente nem diretamente quanto poderia como o conhecimento científico hoje sobre a vagina impõe questões ao feminismo, que questões são essas e quais respostas ela daria a tais questões.

Como feminista, minha experiência como leitora do livro foi curiosa: sentia-me desafiada em minhas convicções e dúvidas, mas era como se a autora não me oferecesse todos os elementos para que eu pudesse problematizar com a obra essas questões.

Quando mencionei que o livro perde muito em sua incursão pelo tantrismo, disse isso do ponto de vista estritamente pessoal. Particularmente, desconfio de crenças místicas e esse aspecto é central no texto, mas acredito que sirva como um contraponto ao que poderia ser apontado como “cientificismo” da obra. O que funciona em parte mas, para leitores como eu, pode conferir um caráter anedótico a parte do livro. Provavelmente, é por esses pontos criticáveis que o livro merece ser lido. Eles impõem questões e desafios a quem pensa a sociedade, a condição da mulher, o feminismo e o domínio da ciência no mundo contemporâneo.

“Vagina: A New Biography”, de Naomi Wolf
400 páginas.
Ecco, 2012.

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