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Intocáveis

O escritor francês Michel Tournier, certa vez, disse: “não pode haver amizade sem reciprocidade”. Diferentemente da paixão ou do amor, que podem acometer somente um dos lados, em uma impossibilidade de concretizar a relação, a amizade precisa de ambas as partes para florir. Assim, originou-se como um dos primeiros laços amorosos da natureza humana. Mais do que uma relação amistosa entre dois seres, a profunda afinidade que os enlaça vai além, e retrata a identificação e a imagem em si mesmo e de um diante do outro.

Em “Intocáveis”, um dos maiores sucessos nas bilheterias francesas dos últimos tempos, o encontro com o outro vai além do físico nesta restauração milenar e passional de nossa existência. A história é baseada no livro “Você Mudou Minha Vida”, escrito por Abdel Sellou, um ex-presidiário contratado para trabalhar como enfermeiro na casa de um empresário que ficara tetraplégico.

 O choque inicial entre os dois é, ao mesmo tempo, inevitável e complementar, unindo dois universos díspares: um negro pobre, jovem e impulsivo e um branco milionário, de meia-idade e reservado. Mais do que isso, a relação criada entre o tetraplégico Philippe (François Cluzet) e o acompanhante Driss (Omar Sy) é tratada com irretocável delicadeza e poesia pela dupla de diretores Olivier Nakache e Eric Toledano, também roteiristas do longa.

Do belo prólogo, em que Driss dirige o carro de Philippe em alta velocidade pelas ruas da cidade, temos nos olhos do empresário a sensação de liberdade conquistada, de poder enxergar a vida diante de sua adversidade. Fugindo de qualquer pieguice, “Intocáveis” prima pela leveza de sua temática, sem apelar para o drama pesado e/ou melodramático. Assim, os primeiros minutos bastam para estar diante de – e digo isso sem exageros – uma obra primorosa do recente cinema francês.

Assim, acompanhamos o começo de uma relação que, já íntima por si só (trocas de fraldas, banhos, massagens), tem aproximações rotineiras que se constituem em uma afinidade dosada e crível. Da seriedade de Philippe, o contraponto se dá no modo extrovertido e intenso de Driss, que não mede palavras e atitudes, sempre com fortes doses de bom humor. Um feel-good movie que faz pensar, sorrir e se emocionar.

Dividindo o teto com a rebelde filha adolescente (uma personagem, entretanto, desnecessária e que não evolui), “Intocáveis” traz ainda duas coadjuvantes que são ponte para o convívio de Philippe e Driss: a governanta Yvonne (Anne Le Ny) e a voluptuosa secretária Magalie (Audrey Fleurot), imediato objeto de desejo do rapaz.

Exigência da vida psíquica, a amizade que floresce sem esforços, é o grande lema do filme, fazendo de Driss a ponte entre a clausura de Philippe e a vida externa, onde a impossibilidade do corpo não é empecilho para uma jornada além de seus altos portões da mansão. Tudo se dá sem esforços, em uma química de companheirismo não forçada, como é – ou deveria ser – toda relação de amizade.

Um simples passeio pelas ruas de Paris é capaz de aquietar crises de pânico, por exemplo, retomando nosso conceito de amizade desde que nos reconhecemos como pessoas. E buscar essa relação jamais vem desacompanhada. Sua busca se associa ao encontro qualitativo de alguém para partilhar dores, alegrias, solidão ou decepções amorosas. E inventa-se um novo mundo.

Nesta identificação recíproca e partilhada, Driss e Philippe, em pleno século 21, se desfazem das amarras de preconceitos, classe social, cor, idade, temperamentos e históricos de vida para, simplesmente, permitirem-se ser. Afinal, na Psicanálise, a amizade admite tal possibilidade de autonomia do pensamento, de uma construção humana permitida fora do núcleo familiar.

Em uma vida sem garantias, a amizade oferece o cultivo do que temos de (in)comum, em que o companheirismo foge das convenções e espera de nós o inusitado, o desafio, a mudança, o doce sabor do afeto sincero em toda sua singularidade. Além disso, acrescenta, segundo a Psicanálise, a importância de expressar os sentimentos que, ao invés de serem meramente expostos, são mostrados a alguém, com desabafos que não saem para o vazio. O psicanalista brasileiro Jorge Forbes diz que “amigo não precisa compreender o que a gente explica”, ou seja, simplesmente estar lá é muitas vezes o suficiente.

E “Intocáveis”, além de expor uma relação sincera, de parceria e partilha, vem com um ritmo dinâmico, trilha sonora impecável (que vai do classicismo do músico italiano Ludovico Einaudi aos hits setentistas do Earth, Wind and Fire) e uma fotografia que abusa dos tons de amarelo das noites de Paris, permitindo que nos emocionemos com uma obra tão cativante. Afinal, Philippe foge do estereótipo de homem-depressivo-que-perdeu-a-fé-na-vida e retrata um ser melancólico que permite se abrir para uma vida ainda existente.

Inclusive, a Psicanálise considera um indício de maturidade a capacidade de lidar com os próprios estados emocionais, em vez de transferi-los para os outros, terceirizando os próprios problemas. Ele não culpa ninguém por sua condição, apesar de se esconder atrás dela por conta do receio de uma nova vida. Afinal, mudar é sempre desafiador e, para Philippe, encarar o mundo novamente é uma espécie de renascimento – com direito a todas as possíveis dores de nascer novamente.

No entanto, a partir de Driss, Philippe retira do rosto o semblante cerrado, permitindo-se a afetividade que, segundo o psicoterapeuta britânico Graham Music, é absolutamente essencial para toda experiência humana. Ainda segundo Music, tal exteriorização do sentimento ainda ajuda no funcionamento emocional e na tolerância e convivência com uma gama mais ampla de experiências emotivas. É justamente o desenrolar da relação entre Philippe e Eléonore (Dorothée Brière), a mulher que ele se corresponde há tempos, somente por cartas.

Além de mudar a vida de Philippe, Driss tem sua própria evolução com relação às arestas amparadas diante da complicada relação com a complicada família. Não à toa, o livro “Você Mudou Minha Vida” é escrito pelo homem que cuidou do Philippe real. Da natureza egocêntrica e testosterônica, Driss vai se modificando no decorrer do longa em uma lição de vida tocante e inesquecível.

François Cluzet, astro veterano francês, está ótimo no papel, dando o toque perfeito para seu personagem. Porém, é na figura do grandalhão Omar Sy (vencedor do César 2012 de Melhor Ator), que o filme transborda vida. Ele, que já havia trabalhado com a dupla de diretores em dois outros longas e um curta, oferece uma interpretação repleta de talento, carisma e ironia. É impossível não se encantar com sua figura, que vai do humor de bom malandro à candura do olhar com sorriso largo. Definitivamente, ele é a alma de “Intocáveis”. O filme, inclusive, se tornou um sucesso estrondoso: é o segundo filme mais visto na história da França (só perde para “A Riviera Não É Aqui”, de 2008) e já arrecadou US$ 350 milhões no mundo todo. Merecidíssimo, a meu ver.

Entre tantos momentos inesquecíveis, impossível não destacar Driss barbeando o amigo, em uma das cenas mais hilárias do longa ou quando, dançando diante dele, podemos, por uma fração de segundo, sentir a inveja nos olhos de Philippe. Porém, este curtíssimo espaço de tempo, logo se esvai. É como se ali, o milionário finalmente percebesse que, mais importante do que ter um corpo funcional, é estar do lado de um amigo, daquele que lhe deu a chance de voar além do espaço e corpo físicos.

Intocáveis (Intouchables)
EUA, 2012, 164 min.
Direção: Olivier Nakache, Eric Toledano
Roteiro: Olivier Nakache, Eric Toledano
Com: François Cluzet, Omar Sy, Anne Le Ny

6 comentários sobre “Intocáveis

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