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O Terreno

Essa justiça eu repudio

Terça-feira da semana passada tomei contato com minha própria bile —um amargo nauseante na boca. O ocorrido se deu enquanto estava no trânsito escutando as notícias matinais no radio. A notícia era a respeito do relatório publicado pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP (incrível Núcleo que conheci por ocasião da minha pesquisa de mestrado, quando estudava sobre poder e violência no âmbito psiquiátrico). A pesquisa feita pelo NEV, cujo relatório pode ser lido aqui, apresenta dados colhidos em onze capitais brasileiras a respeito de atitudes, normas culturais e valores em relação à violação de direitos humanos e violência. O objetivo da pesquisa era “examinar as relações entre ser vítima de violência (quer por testemunhar, quer por ser vítima direta) e atitudes, normas e valores em relação à violência e aos direitos humanos e às instituições encarregadas de garantir a segurança dos cidadãos”. Além de monitorar o impacto que a contínua exposição à violência tem sobre a percepção, atitudes e valores, a pesquisa visava auxiliar na identificação e desenvolvimento de programas de prevenção à violência e de campanhas educativas para minimizar os efeitos/riscos da violência, sensibilizar os encarregados da aplicação das leis para a percepção que a população tem do desempenho de suas instituições e o impacto desta percepção sobre a credibilidade delas, e apontar fatores, até então subestimados, na reprodução da violência. Foram 4025 entrevistados. A pesquisa é muito bem feita e eu recomendo sua leitura completa. Limito-me aqui a comentar somente o que me fez lembrar de como o real de nosso corpo pode ser amarelo e ácido. A pesquisa mostra que 73,8% dos brasileiros entrevistados são a favor de prisão perpétua para estupradores, e 48,2% aprovam a pena de morte. Em 1999, outra pesquisa mostrou que 71,2% da população eram contrários à tortura com vistas a obtenção de provas; já a pesquisa atual mostra que esse percentual caiu 20%; ou seja, mais pessoas (52,5%) aprovam a tortura! Em 1999, 88,7% dos pesquisados eram contra o uso da força (agressão) em um suspeito, agora somente 67,9% são contra! Enquanto 87,9% achavam que a polícia não devia atirar em um suspeito, hoje esse número caiu para 68,6%. Para piorar o cenário, ouvia a notícia em uma rádio de bastante prestígio nacional (a qual faço questão de citar o nome: Band News) e o comentador dizia que esses dados deveriam ser esfregados na cara de “sociologozinhos (sic) que ficam sentados com a bunda na cadeira o dia inteiro lendo seus livrinhos e teoriazinhas enquanto policial é preso por apertar a algema de meliante vagabundo!” (sic).

Boca, acido, dor, náusea.

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Treze tiros nos acordam

O que aconteceu conosco?
Quando fazia meu mestrado, meu interesse não era estudar violência. Nunca havia me interessado pelo tema, mas ele se impunha para mim. E continua a se impor. O I Relatório da ONU sobre o tema da violência afirma que o século XX será lembrado como o século da violência.
O que aconteceu conosco?

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 O mistério

O Sol na sombra de SaturnoOntem vi alguns documentários sobre astrofísica —tema que me interessa de perto— e em seguida não consegui mais trabalhar —a sensação de pequenez e de imensidão havia me invadido. O mistério havia mais uma vez atravessado meu cotidiano. Na tentativa de me distrair do mistério, entrei na página do Facebook de uma grande amiga que tenho como exemplo de “alegria de viver” e vi o vídeo de um pedido de casamento que me emocionou profundamente: lembrei-me de que o mistério não está só no universo e em sua imensidão, lembrei que o mistério habita nosso peito, nosso coração. Lembrei-me dos motivos da minha escolha profissional e de muitas outras escolhas que fiz e faço vida afora. O mistério é terreno —o terreno é misterioso.

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Eu sou o outro, eu quero ser o outro: o encontro com o si mesmo

Há uma crônica de Clarice Lispector chamada “Mineirinho”. A notícia que motivou a crônica era de um mineirinho que havia sido morto com treze tiros no peito por policiais. Clarice fica mais impactada com os tiros dos policiais do que com aqueles que saíram da arma de mineirinho. Clarice inicia dizendo: “é em mim, como um dos representantes do nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora”. Clarice era dessas: o “mim” era parte de um “nós”. E isso parece estar se perdendo. Sabemos a partir da psicanálise e da psicologia analítica que há um momento inicial na vida de toda criança em que o Eu começa a surgir a partir do Outro. A separação eu-outro vai se dar progressivamente com a identificação do Eu com o que trouxer prazer e projeção do que trouxer desprazer no outro (Freud). Melanie Klein é quem mais trouxe contribuições a esse mecanismo que ela chama de cisão —o mundo vai surgir a partir de uma divisão primordial do objeto—: o bom, fonte de todo prazer, esperança e satisfação (seio bom) será introjetado; o mal, fonte do desprazer e do horror (seio mal) será projetado. Jung chamará isso de projeção da sombra e dirá que tudo que é inconsciente tende a ser projetado. Fato é que nesse ponto encontramos um consenso entre os psicanalistas e psicólogos de diversas orientações —o mal não é o outro, o perverso não mora ao lado, os monstros não estão lá fora ou embaixo da cama. Como diz Clarice, “embaixo da casa está o terreno” —o terreno, o humano. E como ela continua dizendo: “tudo que nele é violência, em nós é furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não extremeça”. Jung dirá: “a existência real de um inimigo, sobre o qual se podem descarregar todas as nossas maldades, constitui um inegável alívio para a consciência” (OC 8/2, §518).

Porém, a cisão e a projeção, é preciso lembrar, são mecanismos infantis de defesa —defesa não só contra o assassino em nós, mas também contra o desespero em nós. Somos todos prematuros, desamparados e temos medo. Já é hora de não sermos mais tão infantis. Clarice diz: “meu erro é meu espelho, onde vejo, o que em silêncio eu fiz de um homem”. É hora de olharmos no espelho e vermos que erramos, erramos ao desejar tão temíveis horrores —a morte de alguém que matou, a tortura de alguém que errou. Como diria Klein, é preciso passar da inveja para a reparação —isso é desenvolver-se.

O processo de análise implica em um confronto com o si-mesmo, com a própria sombra:

Verdadeiramente, aquele que olha o espelho da água vê em primeiro lugar sua própria imagem. Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fielmente o que quer que nele se olhe; ou seja, aquela face que nunca mostramos ao mundo, porque a encobrimos com a persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira. Esta é a primeira prova de coragem no caminho interior, uma prova que basta para afugentar a maioria, pois o encontro consigo mesmo pertence às coisas desagradáveis que evitamos, enquanto pudermos projetar o negativo à nossa volta (Jung, OC 9/1, §43-44).

Que hoje possamos olhar no espelho, e que possamos lembrar que somos feitos de bile e sangue, e que somos frágeis. Assim quem sabe possamos ser um pouco mais fortes, um pouco mais terrenos e por isso mais divinos.

Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. (Clarice Lispector em “Mineirinho”)

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Mineirinho, Clarice Lispector

É, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo pro-curar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: “O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu”. Respondi-lhe que “mais do que muita gente que não matou”.

Por que? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.

Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais.

Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos.

Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde demais — vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva.

Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo-terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente — não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta.

Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça.

A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.

Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo em Mineirinho — essa coisa que move montanhas e é a mesma que o fez gostar “feito doido” de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador — em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, que não me perdi, experimentei a perdição.

A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem.

E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma.

Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer.

Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.

Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo — uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do São Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muito séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e só como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.

Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização.

Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento.

Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranquila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.

O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.

Livro: Para não esquecer. São Paulo: Ática, 1979, p. 101-103.

Aqui vai o vídeo do pedido de casamento que me lembrou do mistério que é viver

Um comentário sobre “O Terreno

  1. Só muito recentemente, tipo ontem, entendi o que o zen diz quando fala que precisamos tornar nossa mente clara como um espelho: uma mente clara reflete o que passa diante dela: vê vermelho e reflete vermelho, vê branco e reflete branco — a mente espelho é a mente antes do pensamento. Eu ouvia isso e achava o zen passivo. Se eu fosse zen, como então ser-agir no mundo? Aí o livro A Bússola do Zen me fez ver direito: o zen de verdade é a mente clara na situação correta, na relação correta e na função correta. Essa mente é aquela que quando passa vermelho reflete vermelho, quando passa branco reflete branco… mas quando passa alguém sofrendo não reflete o sofrimento simplesmente, chorando com o outro. Ela vê o sofrimento e cura. Sofrer não basta. É esse espelho que eu quero ser. Lascia ch’io pianga + Lascia ch’io rifletta correttamente.

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