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Tão forte e tão perto

Muitas pessoas, mesmo que involuntariamente, lembram-se o que estavam fazendo quando viram, pela TV, o ataque ao World Trade Center no icônico 11 de setembro de 2001. Eu, que estava no Exército, tive uma sensação de medo indescritível quando recebi a sensacionalista notícia: “Freitas, atacaram os EUA! Vamos para a guerra!”.

Exageros à parte do meu colega recruta, o mundo mudou de diversas formas depois daquela manhã. Isso é incontestável. Os norte-americanos não permitiam que se tocasse no assunto Torres Gêmeas durante um bom tempo mas, como a arte imita a vida, passada uma boa parte do trauma, o fato se tornou tema de livros e filmes que tocaram na ferida.

Nas telas, longas como Voo United 93 e Torres Gêmeas tocaram na ferida, porém uma outra obra chamou a atenção por tratar o tema pelo olhar de uma criança afetada diretamente pela tragédia que matou centenas de pessoas. Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, livro lançado em 2005 pelo escritor norte-americano Jonathan Safran Foer, conta a saga de um garoto de 9 anos em se ater à memória do pai morto que trabalhava em um dos prédios do WTC.

Autor de Tudo se Ilumina (que se tornou um longa metragem extremamente competente com o título Uma Vida Iluminada), Foer teve sua segunda obra transposta para as telas com o título Tão Forte e Tão Perto no Brasil. Com roteiro adaptado por Eric Roth (Forrest Gump – O Contador de Histórias) e direção de Stephen Daldry (da trinca de ouro Billy Elliot, As Horas e O Leitor).

Indicado ao Oscar 2012 de Melhor Filme e Melhor Ator Coadjuvante (Max Von Sydow), Tão Forte e Tão Perto, na verdade, desperdiçou uma ótima história em um filme que tropeça justamente na sua peça principal: o ator escolhido para protagonista. Assim, somos forçados a aguentar o insuportável Thomas Horn, que dá vida a Oskar Shell que, após a morte do pai (Tom Hanks), encontra uma chave escondida em um envelope com a palavra Black escrita. Sempre incentivado pelo lúdico pai a se aventurar – seja na imaginação ou na vida real – ele começa uma jornada audaciosa: procurar por toda a cidade as pessoas com o sobrenome Black para, assim, entender o que aquela chave será capaz de desvendar. Para isso, conta com a ajuda d’O Inquilino (Von Sydow), um idoso mudo que esconde um grande segredo envolvendo a família do garoto.

Assim, vamos conhecendo a vida de dores e alegrias de cada Black ao longo do caminho de Oskar e O Inquilino, de um filme de menor qualidade, porém ainda bem dirigido pelo talentoso Daldry. E neste vai e vem de personagens, que inclui Viola Davis (indicada ao Oscar de Melhor Atriz por Histórias Cruzadas), John Goodman (presente também no vencedor O Artista) e Sandra Bullock (que interpreta a mãe do menino), o foco é mesmo o trauma da morte do pai no garoto. Porém, quando temos um protagonista que não cria empatia, tudo tende a ir por água abaixo.

Neste caso, tentei abstrair a questão Thomas Horn e imaginei como o filme é um exemplo contundente e preocupante da questão dos efeitos de um evento traumático na vida de uma criança. O problema já preocupa a comunidade médica, que tem visto crianças lotando cada vez mais os consultórios de psicanálise. Em Oskar observamos, por meio de flashbacks, como um dia comum pode mudar nossa vida para sempre. Para ele, o 11/09, sempre chamado de “o pior dia”, um filme inquietante em sua aparente calmaria.

A escritora Clarice Lispector dizia: “saudade é um pouco como fome; só passa quando se come a presença”. E é isto o que se passa com o garoto diante da ausência doída do pai. Neste paradoxo da maturidade imatura de Oskar, muitos de nós tentamos nos colocar em seu lugar, lembrando como é difícil seguir em frente após a perda de alguém querido; especialmente, se a separação se dá de forma inesperada, repentina. Quando Sigmund Freud escreveu, em 1915, o artigo “Reflexões para os tempos de guerra e morte”, o mundo estava no auge da Primeira Guerra Mundial, onde o planeta inaugurava o primeiro grande conflito em massa da História, destacando que nos sentimos imortais, ou seja, não estamos convencidos de nosso próprio fim. E o pior: inconscientemente, não nos damos conta que o fim do outro também é questão de tempo.

Para muitas pessoas, falar da única certeza que se tem na vida é considerado morbidez. Falar de morte, a meu ver, faz parte da vida e deve ser encarada, como uma questão inevitável e natural. Dois anos depois Freud escreveu “Luto e melancolia”, abordando a morte e as consequências dela para quem fica. Nada mais propício, vindo de um homem que perdeu dois filhos e um neto e explicitou que a morte é ruim, mesmo, para os vivos. Diante de Oskar, lembrar da voz do pai, do cheiro, do toque, tudo isso o dilacera de forma preocupante e velada, deixando a mãe praticamente impossibilitada de interferir.

Observando Oskar, o problema é que o luto se transforma em uma sensação de morrer junto, uma incapacidade de se separar do objeto perdido – uma tentativa desesperada de resgatar algo do pai, prolongando a dor ao invés de aceitá-la. Para isso, é necessário vivenciar e lidar com as emoções e problemas da perda. Os sintomas desta melancolia vão desde o desinteresse pelo mundo externo à perda da capacidade de amar, com o foco apenas na decisão de encontrar a função da tal chave e hostilizar a mãe. Além disso, a autorrecriminação do menino, que se culpa pela morte do pai, o leva à automutilação, em uma punição delirante. E assim, conforme analisou o psiquiatra norte-americano Karl Menninger, ferir-se se soma a uma atitude desesperada de ser ouvido quando não consegue falar e, ainda por cima, sentir algo – nem que seja dor – diante da sensação de vazio que lhe consome. Resumindo, é a fuga da real dor que o ser humano reluta em enfrentar.

No comportamento de Oskar, com sintomas de crises de angústia, alucinações e neuroses tornam-se comuns diante de situações como conglomerados de pessoas ou barulhos da cidade grande e cujo conforto só é encontrado – ora distante, ora acalentador – n’O Inquilino, que assume temporariamente a figura paterna que tanto lhe falta. Para Freud, esta “invasão brutal da pulsão” que não encontra no ser o sustento forte o suficiente para ampará-la, o limita em suas próprias pulsões, revivendo continuamente o trauma e fazendo com que o que deveriam ser memórias se tornem revivências constantes do trauma. Para o psicanalista austríaco, pela sua teoria de compulsão e repetição tal círculo vicioso acaba por estagnar a vida do indivíduo.

E para seguir em frente, deve-se honrar aqueles que partiram, vivendo para si e por eles o tempo que ainda resta. A despedida, inevitável e dolorosa, pode demorar, mas sempre virá. De qualquer forma, a saudade perpetuará diante da perda de um ente querido, mas se prender a ela só prolonga o sentimento. Lembrando de uma das cenas mais marcantes de Reencontrando a Felicidade, em que Becca (personagem de Nicole Kidman), que sofre com o luto recente da morte do filho de 4 anos, pergunta à mãe, que também sofreu com a morte de um filho, se um dia a dor vai embora, vê-se como suportar tal ausência. Ela, em onze anos de luto, responde: “o peso da dor muda, eu acho. Em algum ponto, torna-se suportável. Ela se transforma em algo como um tijolo no bolso. E você pode até esquecer por um tempo que ele está lá. Mas, então, por alguma razão, essa dor pesa e você percebe que ela ainda está lá”. Ou seja, fugir da dor é inevitável, mas aprender a conviver com ela é inacreditavelmente possível.

Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud and Incredibly Close)
EUA, 2011, 129 min.
Direção: Stephen Daldry
Roteiro: Eric Roth, baseado em romance de Jonathan Safran Foer
Com: Tom Hanks, Thomas Horn, Sandra Bullock, Zoe Caldwell, Dennis Hearn

Um comentário sobre “Tão forte e tão perto

  1. Perfeitas as tuas palavras sobre a dor de um luto! Muito pertinentes ao processo que esta criança enlutada mostra na sua experiência de perda do pai…

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