Foto: TCY, novembro de 2008, WikiCommons.

Jornalismo, uma lógica falida

*Alerta: o título deste texto é sensacionalista

Estamos acostumados a chamar de Partido da Imprensa Golpista (PIG) o oligopólio da mídia nacional. O termo, além do trocadilho com a palavra pig (porco), em inglês, descreve um aspecto do modus operandi da mídia: ameaçar a democracia ao manipular as informações a fim de desestabilizar a coalizão de forças que governa o País. E, claro, substituí-las por outras forças que melhor representem os interesses das empresas de comunicação.

Quando dizemos – ou inferimos, por meio de uma imagem como a do PIG – que a mídia ameaça a democracia, estamos certos?

Não tenho dúvidas da existência do PIG como “oligopólio com intenções políticas”, mas depois de já ter usado o termo e de refletir sobre ele, discordo – até mesmo como uma autocrítica – da visão de jornalismo que ele sugere. Discordo, não porque acredite que o jornalismo atual mereça defesa, mas porque o termo PIG é sensacionalista e nasce exatamente da mesma lógica de produção do discurso jornalístico que pretende atacar.

Para além da manipulação

Jornais do mundo todo - Banca no aeroporto de Heathrow.

A ideia de manipulação do noticiário passou a ser discutida amplamente na década de 1970, quando Marc Paillet publicou o famoso livro Jornalismo – o quarto poder. Na época, essa pesquisa incentivou uma série de estudos sobre como o jornalismo manipula informações em favor de seus interesses empresariais e políticos. O conceito por trás da sigla PIG é uma reciclagem desses estudos. A certeza de que a mídia é manipuladora, portanto, não é nova nem original.

Na década de 1990, um estudo conseguiu uma visão nova de como se dá essa manipulação. No livro Ideologia e Cultura Moderna, o sociólogo John B. Thompson mostra que a escolha de determinadas estruturas de discurso – típicas de artigos, reportagens, programas jornalísticos e humorísticos de TV, rádio, novelas, filmes, séries e hoje, podemos acrescentar, sites noticiosos – permite articular as informações de modo a encobrir a complexidade das relações sociais.

Thompson explicita uma série com mais de dez estratégias cognitivas e linguísticas do discurso midiático. Dois exemplos dessas estratégias são o que ele chama de diferenciação e de expurgo do outro, responsáveis por transmitir uma imagem fragmentada das relações sociais, indicando que certos indivíduos, grupos ou instituições são diferentes do “normal” e representam uma ameaça à sociedade. Um exemplo clássico: a representação de judeus na produção cultural nazista.

Outras estratégias são a naturalização e a eternização, que operam no sentido de embaçar a percepção de que os acontecimentos são parte de um processo social e histórico. A mensagem que fica é a de que as relações de forças da sociedade são dadas desde sempre e, portanto, imutáveis. Afirmações como “os brasileiros não sabem votar” ou “os políticos sempre serão corruptos” são exemplos dessas estratégias.

Vemos exemplos dessas formas discursivas todos os dias nos veículos do PIG. Mas o irônico é que quando cunhamos o termo PIG lançamos mão da mesma lógica, ainda que no sentido inverso. Propor que a mídia constitui um partido informal (ilegal?), que ameaça a sociedade (e a democracia), é pintá-la como o outro a ser expurgado, porque é e sempre será manipulador.

Além da análise de Thompson, acredito que outro aspecto da lógica jornalística que colabora para uma visão simplista das relações sociais é a ideia de que todo fato tem dois lados. Se existem dois lados, somos a corda impotente no cabo de força entre essas forças antagônicas? Estamos entre o governo e a oposição, entre o governo e o PIG, entre o governo e o crime. Como se: 1 – governo, oposição, PIG e crime não fossem, em si mesmos, heterogêneos; 2 – não existissem pontos de convergência entre os interesses dessas forças políticas (o principal deles, a manutenção do poder em determinada faixa do espectro de grupos sociais à qual pertencem); e 3 – não existissem outras visões dos fatos, por exemplo, as de movimentos supra ou apartidários.

Quando repetimos e acreditamos que todo fato tem dois lados, reforçamos a imagem de que a sociedade não é complexa, mutável e heterogênea, mas uma estrutura fixa cindida em duas partes, a boa e a má, a certa e a errada, a pura e a corrupta. A nós, leitores e espectadores, cabe escolher de que lado ficar e odiar o outro. Um ódio impotente, porque essa cisão é naturalizada pela lógica discursiva e, portanto, nunca deixará de existir.

Para além do jornalismo

Leitores na Melinda Street, Toronto, Canada.

Quando apontei no texto que usei um título sensacionalista, minha intenção foi mostrar como as estratégias discursivas apontadas por Thompson foram apropriadas por todos nós na vida cotidiana. Nossa alienação sobre as relações sociais, aliada à exposição diária a estratégias como a de expurgo do outro, estão de tal forma incorporadas em nossa forma de olhar para o mundo que é sensacionalismo dizer que o jornalismo é uma lógica discursiva falida. De fato, essa lógica é mais presente e reproduzida do que podemos imaginar.

Quando escrevemos um texto como este, um comentário no Facebook, um tuíte, um e-mail para um amigo, um post para um blog, quantas vezes caímos nós mesmos nessa lógica? Quando cunhamos ou repetimos um termo como PIG, que é engraçado, mas incorporado da mesma lógica que supostamente critica, não estamos cometendo o que Thompson “denuncia” (outra palavra sensacionalista) como diferenciação e naturalização?

Acho importante questionarmos as relações da mídia com os partidos políticos e o governo, uma vez que temos como objetivo instituir um debate democrático na esfera pública. Mas mais importante é perceber que a esfera pública é quase totalmente esvaziada quando utilizamos as mesmas estratégias discursivas da mídia para nos expressarmos. O debate se dilui todas as vezes que nos deixamos enredar na imagem da sociedade cindida e usamos nosso potencial de contestação para expurgar um lado e defender o outro. Quando pensamos na sociedade como constituída por metades, deixamos na sombra sua complexidade.

É nessa sombra que estão as contradições, as ambiguidades e também as possibilidades de mudança. Preocupamo-nos tanto em atacar ou defender o PT e o PSDB, e hoje, pelo menos em Minas Gerais, ambos são aliados. Preocupamo-nos tanto em defender o governo federal do PIG, ou em atacar o governo estadual em São Paulo porque é aliado do PIG, mas continuamos usando o termo que reforça a lógica que a ele interessa.

Ataques e defesas são úteis para ampliar o ódio que sentimos de nossa impotência ao nos vermos disputados por “dois lados”. Mas o ódio da impotência não seria a afirmação dessa impotência?

Jornal, artigo de museu. Newseum, um dia depois da vitória de Obama. Um debate na esfera pública que se constrói com base em uma única lógica discursiva é empobrecido, reduzido a ressentimentos e maniqueísmos. Se o modo de se fazer jornalismo hoje é uma ameaça à democracia, nossa forma de apropriação da lógica jornalística no cotidiano também é.

É possível mudar isso? Acredito que sim. Porque uma resposta diferente dessa seria incorrer nas estratégias de naturalização e de eternização das questões políticas e sociais. Como é possível mudar? Em primeiro lugar, percebendo a fragilidade de nossos próprios discursos sempre que eles reproduzem essa lógica dominante de discurso, que influi em nossa maneira atual de fazer política, de discutir as questões sociais e de simplificar os conflitos. Quando reproduzimos uma lógica dominante, não estamos reforçando as formas de dominação?

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Referências:

THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna (trad. Grupo de Estudos sobre Ideologia, Comunicação e Representações Sociais da Pós-Graduação do instituto de Psicologia da PUC-RS. Petrópolis, Vozes, 2002).

PAILLET, Marc. Jornalismo – o quarto poder. (trad. Neca Jahn. São Paulo, Brasiliense, 1986).

10 comentários sobre “Jornalismo, uma lógica falida

  1. Como escreve bem essa moça! Ótimo texto, Regina. A lógica “simplificante” e maniqueísta tende a nos fazer ver uma realidade onde tudo parece nítido demais: nós contra eles – eles contra nós. Há muito cinza nesse universo e os atores, heterogêneos e com inúmeros pontos de convergência (como você bem observou) nos mostram que o fazer político é, provavelmente, a atividade humana mais suscetível a relativizações. Assim é, se lhe parece – ou não! :-)

  2. Regina, brilhante seu texto, porém acadêmico demais para a maioria das pessoas no dia a dia. É muito válido para que reflitamos em tempos de convivências mais amenas e não em tempos de guerra massacrantemente declarada por essa velha mídia velha, apropriadamente chamada de PIG.

  3. Olá, Katia. É verdade, tentei tirar o máximo do “academicismo” do texto. Mas está lançada a reflexão. Sobre a guerra declarada pelo PIG, ela só consegue se consolidar porque embarcamos todos nessa lógica de que a sociedade tem dois lados. Se fôssemos menos alienados sobre a complexidade da vida social, poucos conflitos conseguiriam se impor como uma guerra.

  4. Regina, essa alienação sobre a complexidade da vida social não é privilégio só dos “atacados”, dos “mais fracos, digamos assim”. Ela é geral. E é absolutamente válida a reflexão a que seu texto nos propõe, mas, às vezes é preciso, quiçá necessário, usarmos, pelo menos momentaneamente, as armas do “atacante”.

  5. Sim, Katia, como falei a alienação é geral, mesmo e concordo, no momento nem sequer temos condições de “não” usar as mesmas armas. Estamos todos na mesma lógica. Qualquer mudança vai demorar muito, muito mesmo :(

  6. Tive a sensação de estar lendo uma análise crítica do que é a estrutura do jornalismo, da mídia, enfim, da linguagem. Raro e bom ver não só uma jornalista que problematiza seu campo, mas alguém que pensa o que podemos fazer de diferente estando dentro da estrutura, sem ignorá-la caindo na divisão maniqueísta que você tão bem apontou.
    Gostei muitíssimo do seu texto. :)

  7. Tive a sensação de estar lendo uma análise crítica do que é a estrutura do jornalismo, da mídia, enfim, da linguagem. Raro e bom ver não só uma jornalista que problematiza seu campo, mas alguém que pensa o que podemos fazer de diferente estando dentro da estrutura, sem ignorá-la caindo na divisão maniqueísta que você tão bem apontou.
    Gostei muitíssimo do seu texto. :)

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