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Um quadro c(l)ínico

Conferia se a porta estava mesmo trancada, duas a três vezes antes de se deitar para dormir, e antes de dormir, pelo menos mais uma vez. Muitas noites a dúvida quanto ao trancamento da porta atrapalhava o seu sono. Às vezes sonhava com uma imensa porta, ou uma porta pequena demais. Em seus sonhos pouco importava o tamanho da porta, que ora se encolhia, ora se esticava, e que sempre, de alguma maneira, encontrava-se semi-fechada, impedindo a sua passagem. Acordava, fechava os olhos e tentava voltar a dormir.

Ao acordar, todas as manhãs, sempre no mesmo horário, se lembrava de colocar primeiro o pé direito no chão, o que poderia garantir a sorte de todo um dia. Quando, por acidente, o pé esquerdo, ou os dois ao mesmo tempo, tocavam o chão primeiro, imediatamente voltava para a cama. Em penitência, repetia o movimento, só que desta vez garantindo, “a plena consciência”, a nova “primeira” pisada do dia, com o pé direito tocando o chão. Nestas ocasiões, passava o dia inteiro duvidando da sorte.

Em seguida caminhava para o banheiro e lá, antes de fazer qualquer coisa, colocava a pasta de dente na escova, só depois abria a torneira da pia. Nunca urinava antes de escovar os dentes, mesmo sem ter uma pseudoteoria a respeito da ordem destes fatores, seus efeitos e consequências. Isso lhe causava apertos, mas segurava bem a vontade de tirar a água dos joelhos. “Água dos joelhos, hunf!” – de vez em quando pensava a respeito desta expressão, que achava curiosa sem nunca tê-la compreendido bem. Mas, isso nunca foi suficiente para motivá-lo a pesquisar uma possível explicação para o seu sentido.

As meias, o cinto, a gravata e os sapatos, que já deixava escolhidos e separados na noite anterior, tinham que apresentar tons de cores semelhantes e equilibrados (?!). Aprontava-se para ir trabalhar lembrando-se de que a meia e o sapato do pé direito, assim como a perna da calça, a manga da camisa e do paletó, o lado direito tinha sempre que ser vestido primeiro, do contrário, o que poderia dar errado? Na dúvida, após anos de repetição, melhor não arriscar, afinal, os rituais servem para isso. Para quê mesmo?

“Uma vida ordenada.” – assim refletia acerca do que se passava em seu cotidiano.

Saía sempre pela mesma porta através da qual tivesse entrado, o que em seu apartamento, que tinha apenas uma porta voltada para a rua, constituía a tarefa mais fácil da sua vida. Vez por outra se lembrava dos sonhos recorrentes com portas. Mas, imediatamente se forçava a pensar n’outra coisa, que não tivesse porta. “As portas da percepção podem ser traiçoeiras.” – ele e suas reflexões.

Assim seguia, em todos os dias na vida de (a), por anos a fio. Contou-se aqui apenas uma pequena parte, para não entediar os leitores. Cabe mencionar que (a) dizia não saber desde quando tais compromissos ritualescos passaram a ter importância de vida ou morte no seu cotidiano. E dizia também saber menos ainda como se livrar de tal repeteco causticante. Isso o incomodava, ele dizia, às vezes. Resolveu procurar ajuda.

Discretamente, se é que isso é possível, inventou a história de uma pessoa, um conhecido, talvez um vizinho, que estava precisando de uma ajuda, digamos, psicológica. Narrou duas ou três peripécias semelhantes às que o próprio (a) vivenciava em seu dia a dia, tentando, claro, não transparecer serem tão próximos de si mesmo estes exemplos. Contou esta história para três colegas de trabalho, em separado, lembrando-se de evitar o contato visual enquanto narrava as intrépidas desventuras em série de um indivíduo e seus “costumes”, para não levantar nenhuma desconfiança. “Uma questão de método” – pensou, e embora (a) tenha acreditado em sua performance “teatral”, as chances de que os três colegas tenham quase que de imediato percebido se tratar do próprio (a) são enormes.

Seguindo a indicação de um de seus colegas, (a) chegou ao consultório de (b), localizado em um prédio num charmoso e discreto endereço na mesma cidade de (a). Havia uma porta de madeira com uma plaqueta metálica e ao lado, uma campainha. (a) chegou até ali por indicação. Tocou a campainha e dentro de poucos instantes a porta se abriu.

Foi (b) mesmo quem abriu a porta esboçando no rosto um sorriso amistoso, mas ao mesmo tempo distante. (b) fez um sinal com as mãos convidando (a) para entrar. (a) havia chegado exatamente no horário marcado e entrou olhando para os lados ao mesmo tempo em que se assegurava de que o primeiro pé a adentrar o recinto seria o direito, depois o esquerdo. Havia uma antessala, espécie de sala de espera, que naquela hora estava vazia e também algumas cadeiras de aparência confortável, mas que na realidade eram pouco aconchegantes, uma porta, revistas de variados gostos populares amontoadas de maneira desorganizada, quase a cair, uma luminária e a porta que dava para a sala de atendimento. (a) seguiu (b) e os dois foram direto para a sala de atendimento.

Um quadro na parede, torto, foi a primeira coisa que (a) avistou no lugar, assim que se sentou. Silêncio. Hipnose. (a) se emudeceu e nada conseguia falar. Mantinha o olhar fixo no tal quadro torto.

(b) parecia não notar nada de diferente, ambos estavam sentados, cada qual em sua poltrona, a de (b) fazendo um ângulo mais ao lado e atrás da de (a). Assim sendo, uma vez sentados, os olhares não poderiam jamais se cruzar, pois seguindo a acomodação das poltronas, seus rostos miravam paredes distintas. E na de (a), um quadro.

Que vontade de se levantar e ajustar o quadro torto. Mas, parecia tão difícil sair do lugar.

Lembrou-se de sua infância, quando era o menor de cinco irmãos, mas não o mais novo. Era o do meio, ou, o terceiro, como costumavam apresentá-lo. Sendo o terceiro em cinco, logo, não era o primogênito, nem o quase mais velho, tampouco o quase mais novo, muito menos o caçula. Ah, e queria participar dos jogos dos irmãos mais velhos, pois já era mocinho, sem abandonar, mesmo que discretamente, as brincadeiras dos mais novos. Na sua infância, (a) era daquelas crianças que fabricam jogos de pisar apenas nas pedras azuis ou brancas da calçada e nunca pisar nas linhas ou imperfeições chão afora.

Queria se levantar e ajustar o quadro, mas sentia-se preso, acomodado.

Lembrou-se de outra cena, a da lata de biscoitos, que ficava em cima da lata de açúcar, numa prateleira alta na cozinha, de modo que o acesso, só subindo num tamborete. Um dia (a) caiu, trazendo ao chão a lata de açúcar que sobre ele derramou toda e a de biscoitos que se espalhou pelo chão. E agora? Não era hora de lanche, tampouco de bagunça. Foi para o castigo, no quartinho da dispensa, para pensar melhor no que havia feito, e era lá, por acaso, que ficavam estocados os alimentos, incluindo os pacotes de biscoito que, vez por outra, eram despejados no pote que ele havia acabado de derrubar. E se ele abrisse um pacote daqueles e retirasse alguns biscoitos, será que isso seria notado? Que vontade de se levantar e saquear o pacote de biscoitos. Mas, parecia tão difícil sair do lugar, tal como se estivesse pregado, torto.

Estas lembranças e o quadro torto na parede consumiram todo o tempo da primeira consulta, passada em silêncio. Foi quando (b) fez uma primeira intervenção: “Então, nos vemos aqui na semana que vem? Este horário está bom para você?”

A segunda e terceiras sessões foram tranquilas e silenciosas. Vez por outra (a) chegava a suspirar, pois estava entretido com algumas lembranças de lambanças dos tempos de criança. Lembranças que vinham meio entortadas pelo tempo, enquanto sem tirar os olhos do quadro torto na parede, as associava a uma indescritível e paradoxalmente paralisante vontade de se levantar para alinhar o tal quadro. (b) por sua vez, eventualmente fazia comentários um tanto gerais, às vezes sobre o clima, noutras ocasiões, parecia-se distraído com alguma linha solta na camisa, ou tirava o óculos do rosto e limpava pacientemente suas lentes, é possível que estivesse a pensar em outros pacientes, em outro assunto de qualquer interesse, vai saber. (a) e seu silêncio reflexivo.

Acho que foi na quarta ou quinta sessão, ao abrir a porta do consultório, (b) deve ter percebido que (a) estava um pouco diferente. Estava suado e parecia agitado. Os cabelos estavam desgrenhados, a camisa meio amarrotada. (b) ofereceu-lhe de imediato um copo d’água, que (a) aceitou, com os olhos vidrados, direcionados ao quadro na parede, que parecia intocado, torto e empoeirado. Enquanto (b) foi buscar o copo d’água, (a) de impulso, certamente sem pensar muito, deu um salto na direção da parede. (b) parou o que estava a fazer, deixando a água entornar fora do copo e respingar pelo carpete do chão. (a) alcançou o quadro, olhos vidrados, dedos trêmulos, e com a ponta destes, o que era para ser um movimento sutil, mais parecia o esforço de uma vida. (a) arredou o quadro, endireitando-o. Parou por alguns segundos, deu um passo para trás, observando fixamente o quadro. A boca de (b) estava entreaberta, na mão direita o copo de vidro com a água entornado. (a) dirigiu-se a sua poltrona habitual naquele consultório falando: “Como eu ia dizendo, tenho sede.” (b) entregou-lhe o copo e nem se preocupou em enxugar a lambança. Sentou-se rapidamente em sua poltrona para tentar escutar melhor o que (a) estava a dizer. E (a) assim prosseguiu: “Não sei bem o que me traz aqui, para além da indicação de um colega, cujo nome não vem ao caso.“ (a) continuou a falar por uns vinte minutos quase sem parar. Nem mesmo percebeu o copo d’água que tal como lhe fora entregue, cheio continuava. Fim daquela sessão.

As sessões ocorriam semanalmente, sempre numa quinta-feira, no início da noite. (a) ia direto do trabalho. Na sessão seguinte ao ajuste do quadro, (a) chegou à porta do consultório em sua contumaz pontualidade. Tocou a campainha, como de costume. A porta foi aberta por (b). (a) entrou cumprimentando (b) e dirigiu-se à sua poltrona, porém, ao olhar para a parede buscando encontrar o quadro torto que fora recém endireitado, nada viu. O quadro não estava em seu lugar de costume. (a) hesitou em sentar-se à poltrona, mas acabou se acomodando lá, sentado. Foi uma sessão aparentemente tranquila, em que (a) ora falava da infância, ora reclamava do trabalho. Chegou até a mencionar um ou dois rituais, incluindo um breve relato sobre as portas de seus sonhos. (b) fazia intervenções emitindo sons guturais, ou pedindo para que (a) repetisse um ou outro trecho. Até que a sessão acabou.

Mais uma semana se passou, a quinta-feira chegou. À porta do consultório (a) tocou a campainha, (b) o recebeu. (a) entrou, tinha um embrulho em suas mãos, disse que era algo para (b). E enquanto falava, foi (a) mesmo quem desfez o embrulho, primeiro tirando a fita adesiva que prendia as pontas do papel, depois, tal como se estivesse participando de uma oficina de dobradura de papéis, só que ao contrário, (a) desembrulhou por completo revelando o objeto.  Um outro quadro. (a) caminhou com o quadro na mão e o pendurou na parede, onde antes estava o tal quadro outrora torto. “Ah! Agora sim. Ficou perfeito.”, disse (a) que foi muito cuidadoso ao pendurar o novo quadro. Não parecia torto aos olhos de (a). Após acertar o pagamento da sessão, (a) foi embora e não mais voltou.

Não se sabe se o novo quadro continua lá pendurado na parede, tampouco que fim levou o outro quadro que ficava torto. Também não temos notícia de (a). (b) continua a fazer seus atendimentos no mesmo consultório, inclusive parece ter outro cliente no horário que antes era frequentado por (a).

Chowmahalla Palace, Hyderabad

Foto: Chowmahalla Palace, Hyderabad

2 comentários sobre “Um quadro c(l)ínico

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