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Triângulo Amoroso

Casal se envolve com homem sexy em longa alemão que mistura amor, desejo e paixão em trama envolvente

Todos temos, em graus variados, uma inconsciência de particularidades do que sentimos. Esta mistura, que envolve sentimento, afeto e/ou emoção, um outro elemento se mistura para alavancar ainda mais o hall de sensações humanas: o desejo.

No longa alemão Triângulo Amoroso (3, Alemanha, 2010), acompanhamos o casal Hanna (Sophie Rois) e Simon (Sebastian Schipper) que, juntos há 20 anos, têm suas vidas alteradas com a chegada de Adam (Devid Striesow). Com entrada (quase) livre no inconsciente dos personagens, especialmente de Hanna, acompanhamos aos poucos o desenvolvimento desta relação com diálogos pontuais e bem elaborados, em roteiro instigante do também diretor Tom Tykwer (Corra Lola, Corra; Perfume – A história de um assassino) que recebeu uma merecida indicação ao Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2010.

O envolvimento de Hanna e Simon com Adam, que acontece em períodos diferentes, surge após a descoberta de uma grave doença que acomete Simon. Mantendo-a em segredo com medo de abalar a relação com a mulher, o personagem não sabe que um fato lhe é alheio: o caso dela com o sensual Adam. Nessa rede de mentiras, acompanhamos os olhares e expressões corporais que envolvem o casal, em situações reais, de pessoas autênticas. Nada é perdido ou resvalado ao lugar comum.

Sem julgar os segredos mantidos, Triângulo Amoroso se apoia, ainda, em um delicado retrato da efemeridade da vida, pincelando temas como espiritualidade, perda e destino. Inclusive, este último surge de forma crível, onde coincidência e acaso se dão as mãos. Nesta mistura de virilidade, Simon se deixa levar e envolve-se com Adam, em um longa adulto, sincero, bem interpretado e sem meias-palavras.

E neste misto de prazer, culpa e dor, a introspecção de Triângulo Amoroso se firma no amor que Hanna e Simon sentem um pelo outro, evitando que o envolvimento velado de ambos com Adam afete o que sentem um pelo outro. Já a frieza (in)consciente e aparentemente calculada do terceiro elemento – que afeta o casal de forma sedutora – faz com que seus atos sejam digeridos pelo casal em uma espécie de masturbação psicológica.

Porém, no enfrentamento inevitável da verdade, a situação se inverte, no conflito final dos elementos paixão, amor e desejo, incontroláveis em sua complexidade humana. Para Sigmund Freud, o amor é uma projeção no outro, uma espécie de reconhecimento precoce, em que ambos podem ser analisados com um Simon doente diante da saúde e virilidade de Adam, enquanto Hanna se encanta diante de libido e sensualidade do amante, além do elemento proibido, sempre tão tentador.

Na análise do psicanalista francês Jacques Lacan, o amor segue uma das vertentes: manter a promessa de felicidade ou transformá-lo em proibido. E é exatamente isso que Hanna e Simon sentem diante de Adam e de si mesmos (a felicidade que ambos construíram aliada ao proibido que envolve Adam). Enquanto segredo, a relação a três permanece sem maiores abalos, porém quando o crucial momento da revelação se faz presente os personagens são colocados à prova. Afinal, Hanna e Simon se amam? Adam está apaixonado por um dos dois ou por ambos? Ali repousa apenas desejo, existe amor ou são apenas personagens em busca – ou fuga – de algum mal estar que talvez nem eles tenham ciência?

Triângulo Amoroso poderia simplesmente se limitar a Simon visto pelos olhos de Lacan que, seguindo Freud, formula o encontro do sujeito com a sexualidade. Não há uma discussão sobre hetero, bi ou homossexualidade, mas sim um modelo de busca da felicidade com intuito de tolerar o mal estar que sentimos com relação ao desejo humano.

Diante disso, podemos ir além e tratar de três vertentes, fechando o círculo da relação que permeia o trio: a amor/castração como completude para fazer desaparecer a falta original do desejo (a doença de Simon, por exemplo); a de amor/sexo em que o amor, segundo Freud, ultrapassa a relação de puro prazer (assim, estaríamos diante da relação de Hanna e Simon, que vai além do desejo sexual); e, finalmente, a vertente amor/gozo onde, com a dor do amor (Hanna/Simon), o prazer (Adam) se torna o grande elemento da paixão, em uma mistura perigosa e irresistível.

 

Triângulo Amoroso (3)
Alemanha, 2010. 119 min.
Direção: Tom Tykwer
Roteiro: Tom Tykwer
Com: Sophie Rois, Sebastian Schipper, Devid Striesow, Annedore Kleist, Angela Winkler, Alexander Hörbe, Winnie Böwe, Hans-Uwe Bauer

 

Um comentário sobre “Triângulo Amoroso

  1. Que análise percuciente!Assisti, ontem, ao filme, pela segunda vez, com um monte de indagações que minha geração tem dificuldade para responder ( tenho 63 anos). Vc, ao fundamentar em Lacan, sem se esquecer de Freud, traz à luz, consegue ‘parir’ algumas respostas. Valeu!

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