All Star

Dos pés à cabeça

Por: Neto Montebelo

Entre o cadarço desamarrado do meu all star e o choque da minha cabeça contra a parede, havia muito mais do que uns poucos centímetros e o tamanho da força que esmagaria uma vértebra do meu pescoço.

All stars? Confesso que prefiro os pretos com alguns detalhes, ou os mais tradicionais, tipo old school… mas se tem uma coisa que me encanta é o tal tênis. Uso e adoro vê-lo nos pés dos andantes que sabem portá-lo com toda elegância e despojamento que a ele cabem e são assim tão indispensáveis. Talvez seja o design, ou quem sabe aquela pontinha de borracha que cheira gostoso. Pode ser também a ideia da eterna juventude, da liberdade, do frescor e do charme. De fato, algo nesse calçado remete a um ‘’sentir’’ e lembra uma teoria de identidade que acho fascinante.

Antonio da Costa Ciampa, em Estória do Severino e a História da Severina (1985), usa recursos da dramaturgia de Stanislavski para explicar o conceito dos papeis que interpretamos, dos roteiros que seguimos e as possibilidades de transformação dos personagens. Explica que, pelo caminho, podemos atuar de forma mítica, reproduzindo tudo de maneira mecânica e automática, girando sobre o próprio eixo, com baixa elevação da consciência, alienada e pragmaticamente. Em contrapartida, podemos ser metamorfose, dando sustentação a determinadas situações do campo das atividades do ‘’para si’’ (reflexão, observação, acidente do cotidiano), esse movimento que consiste em caminhar na história, viver experiências, crescer a consciência, aprender coisas, voltar pra trás (como se não houvesse vivido aquilo), seguir em frente. É o movimento de desenvolvimento do concreto como pessoa, há elevado grau de consciência que faz crescer a compreensão da realidade.

As questões subjetivas são imperativas e impeditivas. O comum é encontrar a identidade mito, da mesmice, da não transformação dos valores, réplicas de si mesmas. Tão iguais na alienação que dão medo, é o ser humano vendo, desejando, esperando a mesma coisa o tempo todo, a vida inteira.

Honestamente, a condição da tetraplegia torna evidente e legítimo o sentido dessa transformação do vir-a-ser. Não foi sorrindo que vi a morte simbólica do personagem que corria pra todos os lados, outras pra lado algum, dar lugar àquele que, sem mexer um músculo abaixo dos ombros, aprendeu que movimento vai muito além do tratado convencional.

O aparato afetivo, particular e intransferível do que vivi caminhando até os vinte e seis anos deu suporte para a construção do cadeirante com ego suficientemente forte. Depois de alguns percalços, outras tantas paradas respiratórias e uma centena de outras coisas e acontecimentos deram noção de que aquele era meu encontro comigo, o desvendar-me ou ser devorado, a grande esfinge, a busca do self. Lembro dos quatro meses que fiquei sem falar por conta do furo na traqueia e da necessidade de estar plugado na tomada o tempo todo, e aí percebo que nunca abandonei a possibilidade da linguagem que simbolicamente é o que nos constitui. Inventei mecanismos improvisados, trouxe a terapia para a UTI, deitei num divã cheio de fios e sons estridentes, chorei um pouco, sorri bastante. Deixei ser tomado pela metamorfose, não queria ser casulo eterno. Levei comigo música, tinha cinema interrompido pelos procedimentos, havia luz e arte. Nunca entenderia, em outra situação, como as pulsões dialogam entre si, como uma satisfaz e deseja a outra encarnada em suas antíteses.

Simbolicamente, escapei de determinado mundo e entrei num outro onde não compartilhava nada com ninguém e era comum a todos ao mesmo tempo, afinal, meus braços e pernas eram alheios. Fiz a volta da espiral, vivi coisas não vividas, jamais sonhadas e quis entendê-las, superá-las. É necessário o enfrentamento, o choque, o movimento e a mudança do sentimento de identificação. As coisas mudam de rumo e os personagens passam a ser outros.

Tenho queixo, logo existo (e escrevo). Continuo usando all star. A relação com a paralisia pode parecer inspiradora e louvável. Talvez seja mais. Talvez um lugar para sentir a dor. Talvez pura metamorfose e uma das melhores coisas da vida.

 

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Neto Montebelo é estudante de psicologia apaixonado por cinema, música, literatura e psicanálise, não menos viciado em café, e-books e moda. Neurótico convicto e livre sobre rodas.

Foto: Cena do filme Maria Antonieta, de Sofia Coppola
Ilustração: Wahyu Affandi

 

27 comentários sobre “Dos pés à cabeça

  1. PARABÉNS PELO TEXTO ,E PELO EXEMPLO DE VIDA Q VC É,POIS HOJE EM DIA QTOS JOVENS TÊM TUDO E AO MESMO TEMPO Ñ TEM NADA , QTS ESTÃO PERDIDOS NO MUNDO DAS DROGAS!!!!!! QUEM DERA PUDESSEM SER COMO A PONTINHA DE UM DEDO DE SEUS PÉS!!!!!!!!! FELI ANO NOVO E UM BEIJO PRA TODOS AÍ!!!!!!!!!

  2. Nossa simplesmente magnífico, super profundo e puramente verdadeiro, não tem como não se emocionar e não tem como não acreditar que a vida é feita de escolhas, basta não desistir, parabéns pelas palavras e pela luta e adorei o bom gosto pelos All Stars, kkk sempre força e prazer em conhecê-lo, amiga da Paula Montebello

  3. O Neto foi um amigo que eu reencontrei em BSB, depois de também passar por algumas das situações que ele passou, ele nem sabe mas foi ele quem me fez olhar pra mim mesmo e perceber que podia sim sorrir depois da paralisia, íncrivel como o bom humor dele nos contagia. Obrigado Neto por você existir… Grande abraço

  4. Acho que foi o texto mais valioso que li nos últimos anos. Além da mensagem contida é impressionante a qualidade e o desenvolvimento do texto.
    Me sinto orgulhoso e feliz de te conhecer e ter acesso ao seu modelo.
    Excelente meu amigo … parabéns … e obrigado por sua contribuição ao desenvolvimento dos que tem o previlégio de te conhecer

  5. meu amor, seu artigo é inteligente, é clean, é leve, é despojado, enfim, reflete vc… me enche de orgulho me saber amada e te amar desse jeito… meu amor por vc é incondicional e meu respeito, idem… pra vc vai o meu olhar diferente na multidão… te amo pra sempre

  6. Já dizia Cassia Eller “o seu all star azul combina com o meu preto de cano alto”…não importa a cor, azul, preto, branco, etc, viva as diferenças!! O importante é saber que a combinação existe sempre, que estamos vivos, que somos capazes de fazer qualquer coisa, como você diz: transformação, metamorfose, enfim, a vida é assim, com grandes avalanches, tempestades, intempéries….mas, nada ultrapassa a nossa inteligência e a nossa vontade de superar…E viver a vida plenamente é o que nos torna especiais e diferentes!! Viva intensamente!! Você realmente é demais Dr. Neto…sou suspeito…te adoro muito!!

  7. Depois de uns quase 20 dias longe de vc, lendo estas palavras e relembrando de tantas coisas que nos fizeram sorrir chorar sofrer e crescer ( assim mesmo… sem virgula, sem pausa, tudo junto e misturado), quero dizer que te amo… que preciso desses All Stars, para caminhar e rodar junto comigo sempre, vc é maravilhoso, obrigada por existir, ser o meu irmão, e nos ensinar esses coisas lindas da vida. Bj… e muita sdd…

  8. Oi querido, que bom ler esse texto , ficou muito bacana! A Paula ja tinha me mandado e eu adorei! Escreva sempre e se possivel mande pra nos! Tambem vi a reportagem do Jornal de Pira, minha mae me trouxe pra ver! Fantastica! Fico muito feliz de saber que vc esta assim bem e produzindo coisas otimas!
    Um abraçao com saudades!
    Cesar

  9. Sem palavras pra descrever tamanha emoção,vc fez e faz pjo gdearte da minha vida…esse dia para nós é sem dúvida um novo começo para tudo o que essa maravilhosa vida nos reserva…adoroooro all star,amo vc…obrigada por tudo!!!!b

  10. Meu grande amor e eterno amigo, ja dizia Guimares Rosa: ” a coisa nao esta nem na partida nem na chegada; esta na travessia.” Voce consegue se superar sempre, e eu tive o privilegio de ser ponte sobre aguas revoltas, pois isso e o maximo que alguem pode ser para a pessoa amada. Um abraco.
    Christiane

  11. Faltam as palavras para lhe parabenizar amigo. Nós sabemos, pois vivemos isso, que tudo para nós é um pouco mais complicado ou pelo menos diferente, mas voce lida com isso de uma forma que inspira! Obrigado por poder chama-lo de MEU AMIGO!

  12. Meu amigo Neto,uma vez em sua casa conversamos sobre várias coisas e em uma dessas ”várias” coisas você disse-me que antes do acidente você tinha um vazio,disse-me que as vezes saia sem rumo com seu carro. Quanto mais lembro de você, penso que somos ingratos com DEUS, pois temos braços e pernas perfeitas e reclamamos de coizinhas tão patéticas,tão insignificantes,tão mesquinhas.Que DEUS te abençoe meu amigo e saiba que cada vez mais aprendo que não devemos perguntar porque ”isso” ou ”aquilo” acontece em nossas vidas,mas sim para que? A resposta é simples: para transformar-nos em pessoas melhores.
    Como gostaria que meu pai aprendesse com você que ”As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos”.Você é um presente de DEUS em nossas vidas!
    Abraço.

  13. Lendo seu artigo..posso única e exclusivamente….agradecer a Deus tudo que tenho, e admirar vc…sem nem nunca nem, ter olhado para você…

  14. Preocupada com o trabalho da Peli navego desesperadamente tentando encontrar uma frase que me impulsione a começar um texto sobre identidade. De repente, não mais que de repente, encontro Neto Montebelo no google. Que privilégio! Adorei a clareza da escrita que ao mesmo tempo enfeitiça a mente me fazendo enxergar pelas entrelinhas. Não o conheço tão bem, não compartilho seus desejos, mas o meu desejo é de que um dia eu o veja numa sala de aula como professor! Obrigada Neto!

  15. “A independência do homem não se faz com atitudes radicais e inesperadas, e sim na coerência com que dirige sua vida.”

    Neto, você é um exemplo de coragem! Não o conheço Pessoalmente, mas obrigado por me proporcionar o privilégio de lê um pouco sobre sua trajetória de vida.

  16. Linda suas palavras, sinto em mim uma mistura de sentimentos, emoções, gratidão, me pego refletindo nesse texto espetacularmente maravilhoso. Deus te ilumine sempre!!! Bjus

  17. Emocionante e inspirador como seu autor, pela sua história de superação e pela pessoa que voce é , independente da condição em que se encontra. Um privilégio te conhecer , Bjão

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