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O suplício do Papai Noel

Durante minha infância, o Natal sempre foi extremamente ambíguo para mim. Considero que estive localizado em um ponto êxtimo no que se refere às comemorações natalinas. Esse ponto de exclusão interna com relação ao Natal é o que pretendo explicar.

Minha avó fazia questão de me levar para ver presépios. Aquelas miniaturas representando a figura de uma criança pobre nascida numa fazenda sem higiene (pois era assim que eu, criança de cidade grande, entendia a presença de vacas e da palha que fazia a manjedoura existir) eram um enigma para mim. Sabia que essa criança tinha alguma marca do sagrado, pois ouvia dizer – sem entender – que aquele era filho de Deus. Não entendia isso, pois sempre às sextas-feiras escutava minha babá dizer: “Bernardo, oh, amanhã eu não venho trabalhar porque eu também sou filha de Deus né?!”. Bom, se todos aqueles que tiravam folga aos sábados eram filhos de Deus, o que aquele bebê do “interior de Minas” – segundo minhas referências simbólicas da época – fazia naquela manjedoura? Como não venho de uma família católica, essa era a única época do ano que eu entrava em Igrejas, e achava que essa representação do sagrado (?) não tinha nada a ver comigo. Mas a ambiguidade decorria de outro fato: o Papai Noel – o “bom velhinho” que trazia presentes em quem nele acreditasse. Pronto, isso era suficiente para suscitar minha divisão subjetiva. Qual relação havia entre o menino de Deus e o Papai Noel? Para acreditar em um era preciso crer no outro?

Anos se passaram até que essa questão voltasse à tona. A questão que havia sido recalcada retornava como um incômodo subjetivo que eu sempre vivi como tristeza na época de Natal. Até o dia em que, passeando por uma livraria em busca de um presente para mais um dos incômodos “amigos-ocultos” de fim de ano, passo o olho em uma pequena publicação de capa vermelha de Lévi-Strauss. O antropólogo já havia sido estudado por mim muitas vezes e esse pequeno livro nunca havia caído em minhas mãos. Ao abrir a capa, qual não foi minha surpresa ao ler o título: O suplício do Papai Noel. Era o presente perfeito para o meu Natal!

Lévi-Strauss se detém em uma manchete do Jornal FranceSoir de 24 de dezembro de 1951: “Papai Noel é queimado no átrio da Catedral de Dijon diante de crianças de orfanatos”. O episódio, que repercutiu em todos os jornais franceses, foi classificado por Lévi-Strauss como uma “manifestação sintomática” da aceleração de crenças e costumes. O clero de Dijon condenava Papai Noel como “usurpador e herege” por paganizar a festa de Natal, banindo a representação do presépio das escolas públicas. Enforcado e depois queimado diante de 250 internos de orfanatos, o clero sustentou que “a mentira não pode despertar o sentimento religioso na criança e não é, de modo algum, um método educativo”. De maneira geral, a atitude do clero foi condenada: acreditar em Papai Noel não faz mal a ninguém… as crianças se divertem… Lévi-Strauss conclui que nesse episódio, em diferença do sentimento político que já naquele ano era visível (sentimento de reconciliação entre a vida política e a vida religiosa), “há um divórcio entre a opinião pública e a Igreja”.

Ocorrência inesperada e propícia para o trabalho de um etnólogo. Papai Noel era tomado pela Santa Igreja como símbolo da irreligião – “que paradoxo”, exclama o autor. E continua: “é como se a Igreja adotasse um espírito ávido por franqueza e verdade, enquanto os racionalistas posam de guardiões da superstição”.

A análise da personagem Papai Noel feita por Lévi-Strauss aponta que essa figura que recebe vários nomes – Papai Noel, São Nicolau, Santa Claus – é, em realidade, resultado de um fenômeno moderno de convergência de várias figuras (o Abade de Liesse e o bispo da juventude, ou Abbot of Unreason como preferem os escoceses – senhores que regrariam os excessos da juventude e os manteriam sob determinados limites) e lendas mitológicas (o rei das Saturnais, por exemplo), sem no entanto ser um ser mítico – não há nenhum mito que dê conta de sua origem e de suas funções. Não é tampouco uma figura-lendária – “não há nenhuma narrativa semi-histórica ligada a ele”, diz Lévi-Strauss. É uma divindade de categoria etária – já que os adultos não creem nele, embora incentivem a crença das crianças. Como também a famosa árvore de Natal – “uma solução sincrética”, isto é, junção num só objeto de representações de diferentes credos: a árvore mágica, o fogo, a luz duradora, o verde persistente… Lévi-Strauss reconhece elementos estruturais que apontam o rito de passagem entre a criança e o adulto, na superação da crença em Papai Noel.

Como diz nosso autor: “assim, fundem-se e refundem-se elementos muito antigos, introduzem-se novos, encontram-se fórmulas inéditas para perpetuar, transformar ou reviver usos de velha data. Não há nada de especificamente novo – sem jogo de palavras – no renascimento do Natal”. Quanto ao episódio da queima do Papai Noel, Lévi-Strauss relembra que o rei das Saturnais (talvez o mais antigo das personagens que compõem a colagem de Papai Noel), após personificar o rei Saturno e se entregar a todos os excessos durante um mês, era solenemente sacrificado no altar de Deus. Assim, ao enforcarem e queimarem Papai Noel, os eclesiásticos de Dijon nada mais fizeram do que restaurar o ritual de consagração da antiga divindade.

O bom velhinho é portanto sinal da diversidade de crenças, da multiplicidade que determina nossa cultura, do sincretismo e paganismo do homem contemporâneo. Relendo a frase que escolhi para abrir esse texto, percebo a sutileza de um ato falho (como diria Freud): se inicio meu texto localizando o sentimento de ambiguidade num tempo passado – durante minha infância –, por que uso o significante “sempre”? A conclusão vem em um só golpe – o Natal permanece ambíguo para mim. Em tempos em que o fundamentalismo religioso parece mostrar suas garras também pelos lados de cá, no “Novo Mundo”, o moderno Ocidente, talvez não seja de todo mal que mantenhamos a figura do Papai Noel como uma divindade que nos engana e por isso nos estrutura. Como finaliza Lévi-Strauss, “A Igreja não está errada quando denuncia na crença em Papai Noel o bastião mais sólido e um dos campos mais ativos do paganismo no homem moderno. Resta saber se o homem moderno não pode também defender seus direitos de ser pagão”.

Um feliz Natal a todos.

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Foto: EvJones

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