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O que faz o DJ?

Na esteira da evolução tecnológica relacionada à música, a prática e profissão do DJ popularizou-se e se expande alcançando as mais diversas classes da sociedade. Contudo, apesar do fazer do DJ estar relacionado à música, ele não é necessariamente um músico ou mesmo não o é exigido o conhecimento como de um músico para desempenhar o seu fazer. Portanto, a questão “o que faz o DJ?”… O presente artigo se propõe, por meio da filosofia hermenêutica de Paul Ricoeur, a uma investigação que possibilite caracterizar o fazer do DJ como uma narração, assim como ele próprio assumindo o papel de um narrador.

O que faz o DJ?

A pergunta “O que faz o DJ?” é repetida seguidamente a quem se intitula DJ. Pela ascensão atual dessa prática, também como profissão, dúvida e desconhecimento sobre o que realmente faz um DJ são cada vez mais aparentes, até em quem se diz tal. O problema dessa questão cresce ainda mais quando focamos na natureza do fazer do DJ. Por estar relacionada à música, a confusão sobre o seu fazer cresce ainda mais. Ele não faz música, não produz e também não executa uma música como um músico o faria (pensando aqui em instrumentos). Podemos dizer que ele opera e manipula música, mas não a faz. O DJ pode ser um músico ou um produtor, no caso da música eletrônica, mas o fazer música está relacionado a essas áreas e não à sua prática como DJ.

Para responder a essa questão, poderíamos começar uma longa análise descritiva do fazer, verificar a origem do termo DJ, relacionar a sua prática com o momento histórico, – a evolução tecnológica relacionada à música que permitiu e continua a permitir tal prática -, pensar sobre o papel social que o DJ assume em uma sociedade cada vez mais tecnológica etc. Mas poderíamos nos perder em descrições que apontam aos mais diversos horizontes, analisarmos os mais diversos contextos e não conseguirmos tocar na questão essencial: o que ele faz?

É, portanto, focado no seu fazer, que nos propomos a uma investigação que possibilite uma resposta a essa questão. Adiantamo-nos para afirmar que o DJ faz uma narração. Ou seja, o que ele faz é narrar: caracterizando-o como um narrador. E aqui analisaremos esse fazer específico como narrar. Nosso desenvolvimento tem como base a teoria da narratividade de Paul Ricoeur. Não pretendemos fazer um longo desenvolvimento de sua teoria, mas nos focar em questões e conceitos principais para a análise.

A narrativa possui um papel essencial na filosofia de Paul Ricoeur, sendo o de um papel de mediação entre nossa experiência e o mundo. Para o filósofo, organizamos nossa experiência do vivido e obtemos seus significados por meio da narrativa. Em Tempo e Narrativa (RICOEUR, 1994), o autor desenvolve essa relação, considerando primeiramente a narrativa como um objeto geral e, posteriormente, desenvolvendo as questões de duas narrativas específicas: a histórica e a ficcional.

Centraremos na questão da narrativa como um objeto mais amplo e, portanto, mais interessante para nós. Ricoeur extrai do conceito mythos trágico, da Poética de Aristóteles, a célula central da narrativa, traduzindo-o por “tecer a intriga“ ou “armar a trama”. É “tecendo a intriga” ou “armando a trama” que organizamos e configuramos a nossa experiência no tempo, algo fugidio, discordante. Assim sendo, o tempo é aquele que passa, que está em constante movimento, mas que organizamos por meio da narrativa, de modo que conseguimos compreendê-lo como começo, meio e fim e propiciar um significado para ele. Um detalhe é interessante, Ricoeur enfatiza como a ação de “armar a trama” é, mais do que a trama em si, a célula central do narrar. Desse modo, ele fortalece a questão do papel do narrador como “armador”, fortalecendo a relação agente-ação, tão presente em toda a sua filosofia da ação. O que nos interessa nessa relação é este elo que permite pensar no processo narrativo mais do que na narrativa em si. Assim, o estudo se orienta mais para a relação entre o narrador e a sua narração, como ato de narrar, do que para uma análise sobre a narrativa.

Portanto, é objeto deste artigo essa relação entre o DJ e o que ele faz, o que produz, o seu set/mix(1). Será nesse sentido que adotaremos o termo narração, como processo de narrar do DJ, tendo como estrutura central deste termo o “armar a trama”, como o modo de configurá-lo.

Assim, considerar o DJ como um “armador de trama” é dar-lhe um papel equivalente ao escritor de uma narrativa ficcional, ou mesmo ao historiador, que escreve a história. Em todos esses casos, a presença do agente que faz, que arma a trama, demonstra um trabalho que envolve sua identidade, de modo interpretativo em relação ao seu fazer. Mesmo o historiador, que trabalha com fatos que aconteceram e que estariam mais alinhados a uma pretensa verdade do que à criação ficcional, imprime uma produção sua, a sua interpretação ao escrever a história.

Dessa forma, definir o DJ como armador de uma trama é dizer que ele cria algo, utilizando-se de sua interpretação para imprimir sua marca em sua criação. O paralelo aqui talvez seja mais rico com o historiador. Assim como este, ao escrever a história, trabalha com fatos, o DJ trabalha com músicas que foram produzidas por outros, podendo até ter músicas suas em sua trama. O que queremos especificar é que as músicas possuem uma característica de algo que aconteceu, de algo existente com que o DJ possui para armar sua trama. Como o historiador conecta os fatos, as pessoas, o que é realmente importante à história conforme a sua interpretação, o DJ seleciona no seu repertório as músicas que, em uma narrativa específica, possuem um status de importância e pertinência. Assim como de outros narradores, do DJ é exigida uma escolha do que narrar e de como narrar, que irá caracterizar a sua narração.

Eis, pois, a necessidade de refletir sobre esse “o quê” e “como” do fazer do DJ. O “o quê” é o objeto do DJ, sem o qual ele não pode efetuar o seu fazer. Já o “como” é o modo de fazer o que faz. Ambos estão diretamente ligados e são interdependentes. Não tem como o DJ fazer sem o objeto, assim como não saberá o que fazer com o objeto sem saber como fazer. Portanto, por “o que” e “como” consideramos o repertório musical e técnica, respectivamente.

O repertório musical possui um status semântico. Cada música pode ser considerada uma frase, uma sentença, produzida para algum sentido específico, mas que poderá ganhar os sentidos mais diversos conforme utilizada na trama. O repertório é, pois, a quantidade de músicas que um DJ possui, é a totalidade de opções que lhe permitem a escolha, é o seu objeto e material, sem o qual não conseguirá criar sua trama. A preferência em falar do repertório em vez das músicas em si dá–se pelo foco plural do objeto. O repertório não é simplesmente um conjunto de músicas de um DJ, num sentido quantitativo, mas é, também, um conjunto plural, qualitativo, misto, que possibilita que ele produza a sua narração. O repertório musical é, pois, o universo de possibilidades abertas para sua narração e, como veremos à frente, o seu mundo.

Quanto ao “como” do fazer do DJ, acima nomeamos pelo termo técnica. Gostaríamos de precisar esse termo, definindo um conceito específico, no qual difere do que é normalmente relacionado à técnica do DJ. Por técnica, pretendemos um conceito muito mais amplo. Por isso, dividiremos o que chamamos de técnica em dois aspectos e componentes: a técnica instrumental e a técnica pragmática.

Por técnica instrumental compreende-se o que é comumente reconhecido como técnica do DJ, isto é, a sua habilidade e domínio técnico em manipular o equipamento que possibilite o seu fazer. Essa técnica possui um caráter ferramental, que possibilita ao DJ empreender o seu fazer. Está relacionada a essa técnica toda compreensão técnica e tecnológica que envolve desde a manipulação dos equipamentos como a compreensão da equalização do som, frequência etc. O saber necessário para um domínio da técnica instrumental é um saber relacionado ao conhecimento empírico, nos termos de G. E. M. Anscombe, um “saber que”.

Por outro lado, o outro aspecto da técnica do DJ é exatamente aquela que não permite que ela seja reduzida simplesmente à técnica instrumental. Por técnica pragmática compreendemos o aspecto de ação. A técnica pragmática possui um gama ampla, que alcança desde a manipulação da música – no sentido de manipulação física de um disco de vinil ou um CD, assim como a manipulação da música a partir do equipamento – à mescla(2) das músicas na construção da narração. A ela está diretamente ligada ao poder-agir e ao saber-agir do DJ. Dessa maneira, consideramos o saber específico desta técnica o do “conhecimento sem observação”, segundo Anscombe. Isto é, um conhecimento prático, configurando-se como um “saber como”.

A técnica instrumental se desenha como um pressuposto da técnica pragmática, contudo, não é ela que configura a técnica em si. É o conjunto e a relação de ambas as técnicas que possibilita falar em técnica em um sentido forte, sendo essa o resultado da soma do conhecimento técnico e instrumental com o conhecimento prático do DJ. Não é porque o primeiro aspecto da técnica tenha uma característica primária que ela deva ser considerada como central. Ela funciona como um suporte, que possibilita o fazer, mas não se caracteriza como o próprio fazer. É no aspecto que chamamos de técnica pragmática que se apoia o fazer. E é o elo entre técnica e repertório o que possibilita ao DJ narrar, construir sua narração.

Entretanto, apesar dessa rica relação semântica e pragmática que repertório e técnica nos proporcionam, considerar o ato do DJ como narração exige um desenvolvimento mais profundo, que conecte o seu fazer à sua interpretação. Para tal, em vez de partirmos do DJ como narrador, que exigiria um desenvolvimento denso sobre a relação agente-ação, preferimos partir de um terceiro traço do seu fazer, que demonstrará essa conexão: o traço discursivo de sua narração.

Para caracterizar a narração do DJ como discurso, apoiamo-nos em Paul RICOEUR ([1989], p. 186), que define discurso como “o acontecimento de linguagem”. Baseando-se nas considerações de Émile Benveniste, ele traça quatro características do discurso:

  1. Realiza-se temporalmente e no presente.
  2. Remete sempre ao locutor, sendo autorreferencial.
  3. Refere-se sempre a um mundo que pretende descrever, exprimir, representar e, assim, considera o discurso como o meio da atualização simbólica da linguagem.
  4. O discurso direciona-se a outros mundos, dirige-se a interlocutores.

Desse modo, podemos afirmar que a narração do DJ realiza-se temporalmente e no presente. Ele se apoia sobre seu repertório e com sua técnica manipula e mescla as músicas, construindo a sua narração no tempo presente. É exigida do DJ a atenção e a deliberação sobre o que vai tocar e como tocar a cada momento. Por mais que ele possa predizer qual será a próxima música, a construção da narração se encontrará no momento presente, em que há a mescla de uma música com a outra. Cada música possui seu próprio tempo, é verdade, mas é no caráter presente do narrar do DJ que ela será configurada em um novo tempo, relacionado à trama completa. A cada set/mix, as músicas serão atualizadas no tempo presente em relação à narração do DJ. É isso que permite que a mesma música possua sentidos diferentes conforme sets/mixes diferentes. O sentido que cada música assume está relacionado ao momento presente da narração, assim como ao seu conjunto. E, assim como o discurso pode ser inscrito como um texto, o set/mix do DJ pode ser gravado, sendo este seu meio de ser inscrito. Como algo inscrito, ele guardará características de um tempo passado, mas tais características sempre se renovarão quando o set for ouvido no tempo presente.

A segunda característica do discurso, a autorreferência e a terceira, a referência a um mundo, estão estritamente ligadas e relacionadas a interpretação do DJ. Conforme a segunda característica, a narração do DJ assume, assim, sua própria marca, ou seja, carrega a sua identidade. Todo e qualquer set/mix aponta para quem o fez, não se podendo desvincular um de outro. Todas as características, assim como técnica e repertório, apontam para o narrador. E, conectada a essa, temos a terceira característica, a de descrever, exprimir ou representar um mundo.

Esse mundo está relacionado diretamente a sua identidade como DJ, desde a escolha do estilo que vai tocar, das músicas que farão parte do seu repertório a forma que vai tocar. Tudo é um meio de exprimir esse mundo. É exatamente essa relação dialética entre identidade e mundo, marcada pela escolha do DJ, que configura sua interpretação. Dentre as mais variadas possibilidades que o mundo pode proporcionar, deliberando e escolhendo, o DJ interpreta o mundo assumindo como o irá descrever, exprimir e representar. Assim, a narração do DJ, por mais que possua músicas produzidas por outros, configura-se como sua visão de mundo.

E a última característica se refere à interlocução do discurso. A interpretação do mundo do DJ, do seu mundo musical que se realiza como narração, temporalmente e no presente, está direcionada a alguém, tido geralmente como o “público”. Mais precisamente, o mundo o qual o DJ exprime direciona-se aos mais diversos mundos, conforme as mais diversas pessoas que podem configurar o público. Assim, a narração do DJ tem como alvo o outro, configurando-se como uma dialética de identidade e alteridade.

Assim, a narração do DJ, como a efetivação de sua interpretação, configura-se como uma “obra aberta” que busca sua realização plena na relação interpretativa do outro.

Com esse último traço, que nos permite falar em termos de narração discursiva, alcançamos uma definição mais completa referente ao fazer do DJ. Utilizando-se de repertório musical e técnica, no sentido forte conceituado, o DJ cria uma trama, embasado na sua interpretação do mundo. Essa trama é caracterizada por um sentido horizontal relacionado ao tempo, mas também com um sentido vertical, temperado por suas escolhas, sua visão, sua interpretação. Essa trama configura-se como narração no tempo presente, por meio de uma estrutura teleológica. O sentido da interpretação do DJ é a regra que rege o sistema e que dá um sentido único a toda trama, uma unidade a sua narração. É essa unidade, como obra interpretativa de um mundo, que se direciona ao outro e a cada mundo particular possível.

A investigação aqui empregada possui mais um sentido de abertura de questão do que conclusivo em si. Considerar o DJ um narrador e o seu fazer uma narração abre muito mais questões que poderão ser desenvolvidas pelas mais diversas áreas que abrangem tal tema, tal como a semiótica, a filosofia da linguagem, a teoria da ação, ou mesmo o desenvolvimento hermenêutico como o que se propôs aqui. As questões como repertório musical, técnica e discurso ainda são temas a serem explorados sobre a relação do fazer do DJ e que permitem desenvolvimentos posteriores mais profundos. Contudo, apesar do caráter não conclusivo do presente artigo, ele fornece uma posição clara e uma premissa séria sobre o fazer do DJ, fornecendo ferramentas para estudos posteriores relacionados a essa prática, como a questão de valoração do fazer de um DJ, assim como possibilitando um diálogo com estudos que abrangem tal prática.

NOTAS: 

(1)   Optamos por utilizar o termo set/mix unidos para nos referir ao produto do fazer do DJ. Apesar de ambos os termos serem de origem da língua inglesa, o termo ‘set’ é mais popularmente usado no Brasil, enquanto no resto do mundo costuma usar o termo ‘mix’.

(2)   Por mescla nos referimos ao termo ‘mixing’, assim como mesclar no lugar do verbo ‘to mix’. Apesar de existir uma adaptação ordinária desse termo para o português, como mixagem ou mixar, o uso traz certas confusões, já que também é utilizado na produção de músicas, como a prática de misturar as mais diversas peças. Portanto, optamos em utilizar o termo mescla e mesclar por ser o melhor termo que traduz para o português o sentido que mix, mixing e to mix têm na língua inglesa.

Referências

HABERMAS, Jürgen. Técnica e ciência como “Ideologia”. Tradução de: MORÃO, Artur. Lisboa: Edições 70, 2001.

LEAL, Ivanhoé A. História e ação na teoria da narratividade de Paul Ricoeur. Rio de janeiro: Relume Dumará, 2002.

RICOEUR, Paul. Do texto à acção: ensaios de hermenêutica II. Tradução de: CARTAXO, Alcino. SARABANDO, Maria José. Porto: Rés, [1989].

______. O discurso da acção. Tradução de: MORÃO, Artur. Lisboa: Edições 70, 1988.

______. O si-mesmo como um outro. Tradução de: CESAR, Lucy Moreira. Campinas: Papirus, 1991.

______. Tempo e Narrativa (tomo 1). Tradução de: CESAR, Constança Marcondes. Campinas: Papirus, 1994.

3 comentários sobre “O que faz o DJ?

  1. Li e reli seu texto, e andei pensandonas condições do que configura a narrativa. Fica a pergunta: o “fazer do dj” exige que se saiba mixar? Digo, que haja um continuum rítmico? Ou interrupções bruscas e mudanças repentinas de ritmo não fazem diferença? Não sei nada de Ricouer, só uma elocubração. Penso que talvez isso não interfira na narrativa, mas interfira no resultado estético. Há narrativas e narrativas. Djs e “djs”.

    1. Então Bernardo, acredito sim que o “fazer do dj” exige sim que se saiba mixar ou mesclar, como uso no texto. Contudo, o mixar não é necessariamente ‘colar batida’ ou um continuum rítmico, mas é sim um continuum que, ao meu modo de ver, interrupções bruscas e mudanças repentinas podem fazer parte sim. E eu acredito que a mixagem interfere na narrativa sim, mas a diferença é que a narrativa não se reduz simplesmente a mixagem.

    2. Acho que eu perdi meu comentário anterior no logar aqui… mas vamos lá novamente… acredito sim que o “fazer do DJ” exija que o próprio saiba mixar ou mesclar. Mas aí, poderíamos até tentar uma investigação mais precisa sobre isso, pontuando a relação entre técnica instrumental e pragmática, como falei no texto. Mas eu acho que mixar não é somente manter um ‘continuum rítmico’, como citou, mas sim, algo muito mais amplo que abrange, também, as interrupções bruscas e mudanças repentinas de ritmo.

      E acredito que a técnica interfere sim na narrativa, não somente na estética, mas também na composição, no ‘armar a intriga’. A mixagem ou mesclagem é um aparato técnico do DJ para tal, é um dos seus poderes, contudo, acredito que está mais para a técnica instrumental do que para a pragmática. O DJ set, nunca se reduz a mixagem, a narrativa não se reduz ao formalismo da escrita.

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