dollface

O caleidoscópio da existência de Márcia Tiburi

Marcia TiburiJá é costume darmos início a entrevistas situando o leitor sobre quem é o entrevistado. Marcia Tiburi, no entanto, é uma pessoa difícil de definir. Filósofa pronta para uma guerra (do jeito que Foucault apreciava), escritora dedicada que nos presenteou com Magnólia, A mulher de costas e O manto, uma trilogia literária chamada ‘Trilogia Íntima’, mantém um firme programa de pesquisas tendo como fio o que ela mesmo nos diz: o corpo,  “como concreto avesso da metafísica constantemente produzido por um sistema econômico-político”. Autora de inúmeras publicações científicas, tornando o acesso ao exercício do pensar uma realidade para muitos, Marcia gentilmente nos concedeu essa entrevista em meio a um mundo de trabalho. Entre outras coisas, falamos sobre essa incômoda posição que caracteriza o seu trabalho, de ser avessa a definições apriorísticas, e sobre sua passagem pela televisão e a publicação que essa experiência gerou (Olho de vidro: a televisão e o estado de exceção da imagem, Ed. Record, 2011). Marcia, com seu estilo, nos respondeu sem concluir, mas sim fazendo gerar o desejo de saber mais.

“As coisas se revelam quando saem seus véus.” Essa é uma frase sua em uma entrevista dada por ocasião do lançamento de Magnólia. Gostaria de começar essa entrevista lhe perguntando: poderíamos dizer que o fio condutor de suas últimas pesquisas é a relação entre o externo e o interno? Entre a vontade voyerista/exibicionista da televisão e o sonho de uma mariposa ou as velhas fitas de depoimentos familiares. Se não for este o caso, gostaria de saber: qual o fio condutor do seu trabalho?

Aprecio sua interpretação e a considero bem apropriada. Magnólia foi meu primeiro romance e, de fato, trata-se de um trabalho da escrita a partir da questão da interioridade. Para mim, a escrita é o mais íntimo que há. Justamente por isso, chamei o conjunto de livros composto por Magnólia, A mulher de costas e O manto de Trilogia Íntima. Mas a interioridade é também uma fantasia que desenvolvemos ao longo de séculos e a ficção literária a coloca a nu. Publiquei estes livros, por acaso, enquanto fazia televisão, o menos íntimo dos meios de linguagem. O mais exterior, o mais plastificado. A propósito, não fosse a chance de escrever sobre a televisão, ou melhor, de pensá-la na escrita, que foi o caso do meu último ensaio,Olho de vidro, e a televisão teria sido para mim algo sem sentido algum. A escrita literária é a construção de si mesmo, é a salvação do que vale a pena na ordem da existência.

Continuo escrevendo. Em 2012 a Record publicará um romance que comecei em 1998. Eu nunca pretendo continuar escrevendo literatura, mas estou sempre escrevendo e isso significa que ela não é para mim só um projeto de vida ou de obra, o que já seria muito válido, mas um modo urgente de viver.

Não penso, no entanto, que eu tenha um único fio condutor nem na minha vida nem no meu trabalho com a escrita. O manto, meu romance mais experimental, é um matemático emaranhado de fios. Ele é uma alegoria do meu funcionamento metodológico, seja em literatura, seja em filosofia. Penso que minha filosofia também é um trabalho da razão e do afeto, da mensuração, do raciocínio e do pathos, assim como a literatura.

Tanto literatura quanto filosofia, portanto, nascem para mim de uma mesma fonte. De uma experiência pessoal que sou eu mesma. A filosofia que quero produzir não é exterior a mim. Ela tem duas frentes: a experiência da escrita (um livro como Filosofia Cinza – A melancolia e o corpo nas dobras da escrita, de 2004 é o começo disso) como o esforço do pensamento (mais do que o simples trabalho do conceito de que falava Hegel) e um momento performático em que privilegio a experiência do encontro com pessoas (seja a sala de aula, seja o espaço público tout court) de um modo geral. Esta filosofia não é escrita, é diálogo. Mas uma não vive sem a outra. Esta última serve, inclusive, para mim, como militância e resistência direta em busca de emancipação para as pessoas e para mim, pois é um exercício de liberdade. E a liberdade? Dirá você, é a prática sem a qual não vale a pena viver. Para mim, a filosofia como encontro com pessoas é uma tarefa que me coloco à medida que tenho voz, que sou ouvida, que acredito na partilha da reflexão contra a alienação. Quero que minha fala voltada para o diálogo liberte as pessoas de toda sorte de falsa consciência. Quero eu também me libertar.

Por outro lado, devo dizer que, do ponto de vista dos temas, me interesso pelos fenômenos culturais contemporâneos. Estou estudando rock, arte de rua, e tudo o que se possa referir à indústria cultural, desde a alimentação até a saúde. Gosto de analisar a produção de senso comum, compreender como ele se entrelaça ao campo científico que o alimenta e, ao mesmo tempo, o humilha. Assim, me interesso por tudo o que se refere ao encontro entre ética, estética e política. Se eu tivesse que escolher dentre os meus interesses, um que aglutina, que concentra minha pesquisa e estudos, direi que é o corpo, não como objeto antropológico apenas, mas como concreto avesso da metafísica constantemente produzido por um sistema econômico-político. Quero compreender o corpo vitimado e o corpo como potência.

A expressão “a moralina” me encantou. Lendo uma recente análise que você fez do funk, lembrei-me da aproximação Kant e Sade feita por Lacan. Vivemos em uma época de moralina acentuada, porém parece que a categoria da “vergonha”, que regulava um pouco mais a relação público/privado, perdeu seu efeito. Como regular a relação eu/civilização? Não penso que sua proposta seja o retorno da Moral. Como imagino que sua resposta irá tocar na questão da ética e da responsabilidade, gostaria de ouvir como você conceitua ou elucida esta noção: ética.

Moralina é um termo que encontrei em Nietzsche. Tenho usado justamente como denúncia desta nova moral imoral que engana a todos de que evoluímos em termos éticos. Não há nenhuma intenção de “retornar” à moral, nem sequer àquele sentido de moral como “ser um bom animal” usado de um modo muito crítico por um pensador como Theodor Adorno. Me interesso hoje pelo que alguns autores, de Kojève a Flusser, chamaram de pós-humano. Uma perda das condições da chamada humanidade em nome de um simultâneo e curioso encontro entre tecnologização da vida e sua animalização.

Minha intenção com a análise do funk carioca, que irritou muita gente, foi capturar a expressão da cultura como sobra de processos político-econômicos. A ideia de que a cultura é lixo – ou seja, resto – seja de uma cultura anterior no tempo, seja de um processo social no espaço, é o meu foco. Mas não quis tratar disso de um ponto de vista moralizante, quis, ao contrário, mostrar que o funk é o novo ópio do povo. Sendo o ópio a droga pela qual se paga pensando que, por meio dela se alcançou liberdade, enquanto apenas o vendedor de ópio é que se deu bem. A ideia é velha. Eu pretendia com isso pensar a questão estética enquanto ela é questão política presente neste fenômeno cultural. A meu ver, o Funk não é um produto apenas do “povo”, mas da indústria cultural como campo de controle da expressão. O que aparece no funk como expressão não é mais do que a indústria da libido e da sensação, mais um mecanismo de controle dos pobres, dos habitantes das margens para que considerem que a margem é o ouro e não se metam a sair do seu gueto. Claro que o funk carioca saiu  um pouco do gueto, mas apenas o suficiente para não pensar que fracassou.

Achei surpreendente quando, em outro momento, ouvi você dizer que o exercício de imaginação era algo quase natural e necessário no seu cotidiano. Pós experiência televisiva, você acha que passou a ser vista como uma pensadora engajada, armada com a racionalidade filosófica? Como você lida com essa dualidade do exercício do pensamento filosófico e o livre vagar da imaginação?

Quase natural? É totalmente natural. Entendo que a caretérrima visão que muitos têm da filosofia faça esta diferença, mas isso é também um tanto de ignorância em relação ao sentido da imaginação. Muitos pensadores trataram a imaginação como uma prima louca, é verdade, mas outros viram que a imaginação é solidária à racionalidade. Grandes pensadores – de Kant a  Deleuze – falam que filosofia é criação de conceitos e a criação é um ato de imaginação. Além de tudo, no meu caso, eu me formei em artes, preciso desenhar, preciso escrever literatura. Logo, não tenho nenhum problema em criar filosofia. Filosofia pode ser muitas coisas, inclusive o pensamento que alguém cria. De Platão a Deleuze, pra falar de uma linha do tempo no extremo, fizeram isso.

Sobre ser “engajada”, eu sempre fui. Sobre como podem me ver depois da TV, não confio nesta questão, pois todos – os que fazem tv apenas vivem em uma máquina de alucinar pessoas – somos vistos por tanta gente que qualquer tentativa de fixar uma imagem única do que uma pessoa é, ou parece ser, sempre precária diante do caleidoscópio da existência. E, na verdade, é uma questão que acho perdida pra todo mundo que se preocupe com ela.

Filosofia brincante poderia ser uma síntese da imaginação com o pensamento racional? Como foi escrever para crianças? (Faço uma ressalva: no que entendo, seu livro encantou muitos adultos, nos quais eu me incluo). Você costumava ser uma “contadora de histórias” para sua filha?

Vários  dos meus livros – os meus romances e alguns dos meus ensaios – são um encontro tenso e libertário entre pensar e sentir, entre a linguagem do mundo e a minha, entre imagem e desejo de explicação do mundo, entre a pesquisa acadêmica e as urgência da vida. O desafio de Filosofia brincante era encontrar a imagem dos conceitos, ou os conceitos-imagem. Não era um livro ilustrado, ou seja, um livro em que a ilustração enfeita os pensamentos. Ali, mudamos o texto muitas vezes por conta das imagens. Muitas imagens foram criadas antes de textos. O meu parceiro neste livro não foi ilustrador, mas escreveu comigo e eu desenhei com ele.

Sim, eu contei muita história pra minha filha e sobrinhas. Mas eu só gosto das histórias, desde pequena porque elas vêm carregadas de luz conceitual e, quero demarcar aqui, esta luz conceitual é quente e aconchegante ,e não fria e seca como muitos tentam fazer parecer.

O feminismo é uma causa declaradamente assumida por você. Recentemente você falou sobre a surpresa que teve quando se deu conta que as mulheres muitas vezes denigrem as mulheres. Porém, os comentários sobre suas relações pessoais parecem ter ofuscado esse ponto. Gostaria de ouvir você dizer um pouco mais sobre isso que aqui vou chamar de “masoquismo feminino” , que você notou.

Não entendi muito bem esta pergunta. Vamos ver se consigo chegar a algum lugar. Eu escrevi vários textos feministas. Organizei antologias com colegas de discussão. Me declaro feminista como não me declaro mulher senão quando se trata de ser feminista. Ou seja, tenho apreço extremo pela questão e creio que é um dever meu declarar-me assim. Quando falei que as mulheres denegriam as mulheres foi na TV, e eu me referia às pessoas que faziam o mesmo programa de TV que eu, por exemplo, mas não me refiro à totalidade das mulheres de modo algum. Mesmo ali, nem todas eram antifeministas, a maior parte, aliás, não transitava fora do senso comum.  Um detalhe importante: não falo do feminismo sob a expectativa de que as mulheres sejam feministas; nem de que homem não sejam feministas. Isso deve ficar claro.

Assim, levo o feminismo muito a sério pra poder concordar com você que haja um masoquismo feminino. Certamente há, assim como há masculino.

Por fim, permita-me a ironia, acho uma pena que as pessoas gostem mais das revistas de fofoca do que das revistas de estudos feministas onde elas poderiam adquirir mais inteligência e informação.

Vamos conversar sobre Olho de vidro, seu último livro?

Você começa o livro citando o vídeo Doll face (2005), de Andrew Huang, que narra o encontro de um robô com uma televisão. No prefácio, você nos diz que a relação entre o corpo e a televisão é uma das coisas que você se propõe a investigar. Esse também é um tema que me interessa na medida em que a psicanálise lacaniana trouxe uma contribuição imensa ao estudo do olhar. Lacan fez sua entrada na psicanálise pela via da construção de um esquema óptico (o esquema L), que aponta como o Eu do sujeito se constrói no espelho do olhar do Outro. O sujeito se vê sendo visto pelo Outro primordial e assim faz a assunção da imagem do seu corpo – sai de um Eu corporal para a Gestalt do Eu na imagem, trazendo com isso todas as marcas do olhar e do Ideal do Outro. Portanto, podemos dizer que o olhar e a imagem são produtores de identificações e ideais. Minha questão diz respeito a esse tempo que vivemos do “cogito televisivo” – não o “vejo, logo existo”, mas como você mesmo esclarece, “sou visto, logo existo”. Que tipos de sujeito você pensa que a televisão de hoje tem produzido?

Olho de vidro é a filosofia como exposição do aparelho televisivo visto enquanto objeto doméstico, mas também como dispositivo de poder político e econômico. Me interessei pela fenomenologia desta arma ideológica, arma imagético-discursiva letal que, utilizando deo mecanismo de distração e amansamento da percepção, joga com sutil violência a sociedade inteira dentro de um campo de concentração. Tratei a imagem como a moldura, como cercado que define um campo de concentração feito de olho, tela e distância. Nele reside o corpo do “telespectador”, a figura subjetiva de um tempo em que o olhar foi perdido, eviscerado na forma de um aparelho. Olho de Vidro é a metáfora desse processo de protetização do olhar. A televisão é como nosso olho, arrancado de nós, substituindo nossa visão de mundo, nossa compreensão de um real. A televisão produz uma verdade assumida pelo sujeito no lugar de qualquer outro. Sujeito é já um termo ultrapassado se considerarmos que uma de suas características na tradição que o criou e na qual ele sobreviveu era a autonomia. Esta autonomia é o que o telespectador não tem mais. Assim, vamos deixar o sujeito e pensar em telespectador, alguém que, diante da televisão é prisioneiro do que chamei de lógica do espectro.

Queria conversar um pouco mais sobre uma Biopolítica da televisão. Poderíamos usar essa expressão? Você nos diz de uma necessidade de uma “educação visual” (p. 39). E de uma televisão que permita não tanto o acesso de “todos” ao que é produzido, mas o acesso ao que se produz. Em tempos de “reality shows”, temos a impressão de que “todos” podem aparecer na televisão, e mais ainda, que a vida “real” é ali vista. Queria ouvir você dizer um pouco mais sobre as consequências políticas dessa “ilusão”.

Olho de vidro é, sem dúvida, um livro sobre a questão biopolítica em tempos de sociedade do espetáculo. Isso é enunciado no texto. Como aparato do biopoder e da docilização dos corpos diante da tela, certamente ela é um objeto violento. O subtítulo do livro, “A televisão e o estado de exceção da imagem”, que é explicado principalmente na terceira parte sobre a distância, se coloca neste sentido. Da criação de uma lei, a tela,  que impõe um olhar e uma corporeidade prisioneira de um espaço determinado pela distância. É nesta distância que habitará o corpo dócil do telespectador. Desta violência sutil que parece desejada pela vítima. O único jeito de não ser vítima da televisão é dominar a arma que ela é a favor de quem ela luta contra.

Minha intenção era com isso levantar uma política da imagem de direção democrática contra a hegemonia e o autoritarismo de uma minoria. Quis colocar  em cena a necessidade de que o telespectador saia da necessidade de ver e passe a fazer televisão. Isso certamente mudará o olhar e mudará a imagem que forma o olhar alheio. O que chamo de educação visual é isso, esta partilha, não a mera transmissão de técnicas conhecidas a serem repetidas. Ao contrário, é a atenção que está em jogo. Atenção para uma sociedade visual em que as relações humanas são mediadas por imagens. A ilusão é o acordo geral entre os adeptos desta droga estética. Sair disso, só com um ato de revolução que atinja o desejo. Atingir o desejo? Quebrando a forma e a expectativa de que ali haverá solução para as aflições humanas. Para isso, precisamos de muita criatividade formal. Aposto que ela está aí, entre os jovens.

Você mantém o exercício da docência. Qual sua avaliação do ensino universitário hoje? Quem são seus alunos?

Meus alunos são uma grande fonte de inspiração. Gosto deles. Gosto dos jovens, do que é jovem, do ânimo, da energia, do contrário da apatia e da aceitação. Pra mim, a aula sempre é uma festa. Lastimo, no entanto, a precariedade das condições do ensinar: a falta das universidades públicas. Uma pena que o ensino público não seja para todos. Uma pena que não haja projeto educacional para nosso país. Uma pena que a educação privada e pública sejam hoje mera mercadoria para pobres e ricos.

Como psicanalista, não posso deixar de perguntar: você já fez análise? E você já experimentou a leitura de Lacan? Já que sei que Freud você leu…

Eu li alguns seminários de Lacan. Gosto muito como filosofia. Me sinto bem influenciada nas minhas teorias pelas questões da psicanálise. Bom, como talvez você saiba , eu fiz mestrado e doutorado sobre Theodor Adorno, e a psicanálise de Freud é fundamental para ele. Há também muito em comum entre ele e Lacan. Daí as ligações são fáceis.

Fiz um tanto de tentativas mais ou menos longas de terapia e uma análise lacaniana que durou um certo tempo. Eu me obrigava a fazer, porque eu precisava. Hoje não tenho mais paciência, tenho a minha neurose produtiva e só.  Considero, contudo, que todo mundo devia passar por isso.

5 comentários sobre “O caleidoscópio da existência de Márcia Tiburi

  1. Sempre lógica,Marcia Tiburi é a elucidação do que a pesquisa filosófica nos proporciona,uma miríade de discernimentos.Sem precisar vestir fantasia pseudointelectual,Porque ela é a própria transgressão,de um sistema que tende a nos levar,para o mundo da democracia subversiva.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s