sonho

Um sonho é um despertar que começa

“Un rêve c’est un réveil qui commence”*
Freud, 1900 – Interpretação dos sonhos.

“O inconsciente é muito exatamente a hipótese
de que a gente não sonha apenas quando dorme.”
J. Lacan, Une pratique de bavardage.

Já é senso comum que os sonhos interessam a um psicanalista. Woody Allen magistralmente trouxe à luz esse fato. E essa semana pretendia escrever sobre a função e a interpretação dos sonhos para a psicanálise. Porém fui atravessado pelo suicídio de uma criança de dez anos de idade após tentar assassinar uma professora. Ao ler as primeiras reportagens sobre o assunto, fiquei surpreso ao encontrar o relato de que a criança havia ‘desenhado’ a si mesmo com duas armas e, ao lado, um professor. No desenho ele escreveu “Eu com 16 anos e professor”. Em seguida uma inundação de matérias e expertos em bullying – havia a criança sofrido bullying? Era agressivo? Espantado, me dei conta de que essa noção de bullying transformou-se em ‘justificativa’ para todos os tipos de atos transgressores infantis. Freud já localizava o perverso polimorfo na criança, porém parece que há algo de diferente na infância contemporânea.

Segundo Freud, o sonho tem uma função bastante específica: preservar o sonhador de acordar e a formulação é bem conhecida: “o sonho é o guardião do sono”. Sonhando podemos representar realizações de desejos infantis inconscientes sem o risco que a vida em vigília nos oferece. No entanto, o sonho é elaborado, sua representação é deformada, utiliza de recursos “linguísticos” (palavras de Freud!) para ‘enganar’ o sonhador e evitar o encontro direto com desejos; por isso, o sonho é como um fogo de artifício, continua Freud, levando horas para ser preparado, mas se consumindo em um momento. Mas por que é preciso que nos enganemos? A hipótese é simples – porque há algo de insuportável e que nos causa horror em todo desejo; há uma satisfação real em algo que ficção nenhuma recobre. O encontro com esse real seria insuportável demais para que continuássemos dormindo. Quando dormimos, sonhamos, e só encontramos com esse ponto de real quando o sonho falha em recobri-lo. É nesse ponto que acordamos. Acordamos para continuarmos a sonhar, dirá Lacan. Não despertamos para esse real nunca. Esse despertar absoluto só aconteceria na morte – em um ato que não seria do semblante. Porém, não despertamos nunca; já que a morte na vida é um sonho dentre outros (Lacan, 1981), visto que dela nada sabemos, só podemos fantasiar – sonhar.

O suicídio seria a crença nesse despertar, seria a crença na possibilidade de um ato que não fosse falho, num ato que efetivamente promovesse o encontro com o objeto de nossos desejos. Pois o objeto de nossos desejos foi perdido, e não será encontrado nunca. Além disso, os homicídios que acompanham os suicídios apresentam a marca de serem atos falhos, já que eu posso até matar o outro (o que nem sempre acontece), mas há algo que insiste em se reerguer (vide World Trade Center). Então o que há? O que há nessas figuras contemporâneas dos suicidas-homicidas? E por que eles fazem tanto sucesso de mídia? Minha hipótese é que vivemos em uma época que esvazia cada vez mais o trabalho do sonho e a busca do despertar é cada vez mais almejada. D.M.N., 10 anos, sonhou em despertar, deixou de lado seu sonho desenhado para ir de encontro ao real.

Assim, D.M.N., como tantos outros, buscam o real, desenfreadamente o real, nem que seja o do neurotransmissor. Bom, eu ainda prefiro sonhar. Penso com Freud que o sonho é realmente um despertar que começa, mas um despertar de outro tipo. Ou como diria Jung, “quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”. É nisso que eu ainda aposto.

Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
Que coisas eu sonhei.
Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que inda não sei.
Melhor é nem sonhar nem não sonhar
E nunca despertar.

Fernando Pessoa, em “Cancioneiro”

——————————-
* “Um sonho é um despertar que começa”.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s