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Sobre maçãs, zumbis, superbactérias e a angústia. Com o que trabalha um psicanalista?

“O sonho da razão produz monstros”
Goya, 1819.

“Vocês veem como são as coisas. As coisas são feitas de esquisitices.
Talvez seja um caminho pelo qual se possa esperar um futuro da
psicanálise – ela devia se dedicar suficientemente à esquisitice”
Lacan, 1974.

Ontem recebi um vídeo bastante interessante devido ao efeito de humor que ele produziu em mim, o que evidencia que transmitiu algo para além do que dizia. O vídeo consistia em um rabino ortodoxo ensinando como mergulhar a maçã no mel (tradição judaica do Ano Novo). O rabino pega um enorme pote de mel, tira do seu grande casaco preto um iPhone e um iPad e mergulha ambos no jarro de mel. Qual a mensagem que nesse chiste passou?

Tenho recebido uma coleção de reportagens recentes que tocam em um ponto específico — as maravilhas das invenções científicas contemporâneas. O sucesso das pequenas fórmulas em produzir aparelhos e invenções absolutamente indispensáveis: somos hoje filhos da religião da maçã. Navid Hassanpour, pesquisador da universidade de Yale, publicou recentemente um trabalho em que mostra, através de um complicado modelo científico, como Mubarak errou ao cortar o acesso à internet no Egito. Hassanpour mostra como é um engano a opinião comum — aquela que diz que a interrupção na conectividade traria um efeito negativo sobre a mobilização social na produção de eventos de massa (já que hoje nos comunicamos, na maior parte do tempo, via redes sociais). Mubarak foi um ditador terrível por mais de 30 anos, enriqueceu às custas de sua população, porém não foi esse fato que fez as pessoas irem à rua. A mobilização e os protestos só tiveram início quando o acesso à internet foi negado para população. A internet nos mantém dentro de casa. Em 1974, Lacan dizia: “Isso nos come, mas nos come por intermédio das coisas que mexem com a gente. Não é por nada que a televisão é devoradora. É porque aquilo nos interessa, apesar de tudo.” Sou aliado de Lacan quando continua dizendo que, frente a esse quadro, ele não está nem entre os alarmistas, nem entre os angustiados: “deixamo-nos comer. […] quando tivermos nossa cota, pararemos com isso e nos ocuparemos com as coisas verdadeiras, isto é, o que chamo de religião”. O final dessa frase é surpreendente! Lacan aponta que a religião triunfará, afinal de contas. Os avanços do real através de pequenas fórmulas científicas que introduzem “um monte de coisas perturbadoras na vida de todos” (Lacan, 1974), esvaziam o sentido, e a religião tem os recursos, é especialista nisso: em introduzir sentido à existência humana. Nesse ponto tenho dúvidas sobre esse ‘diagnóstico do futuro’. Sou fiel ao real e penso que Isso insistirá e a angústia triunfará sobre a humanidade. Jung, alguns anos antes (1961), fez um diagnóstico diferente, talvez mais próximo do de Freud no ‘Mal-estar na civilização’; ele nos diz: “O homem hoje se dá conta dolorosamente de que nem as suas grandes religiões, nem as suas várias filosofias, parecem capazes de lhe fornecer aquelas ideias enérgicas e dinâmicas que lhe dariam a segurança necessária para enfrentar as atuais condições do mundo. […] A despeito da nossa orgulhosa pretensão de dominar a natureza, ainda somos suas vítimas, pois não aprendemos nem a nos dominar”. A religião é uma forma de tratar a angústia — dando um sentido a esse real que nos escapa e nos atravessa a todo tempo. Porém, a religião dá um sentido ao bizarro do real através do pai. A religião é a religião do pai. E a psicanálise não é uma religião.

Ficamos maravilhados com as novas tecnologias de conectividade; porém, vez ou outra, uma ponta de suspeita espreita nossos ouvidos: será o Google deus mesmo? Será que o Facebook ‘sabe’ mesmo muita coisa a meu respeito? E surge disso uma ponta de angústia.

Uma outra reportagem, publicada este mês no New York Times, chegou às minhas mãos; era sobre um grupo de crianças — de idades variadas, todos filhos de proveta, que desconheciam o pai. A única coisa que sabiam do pai era um código. Em busca de ‘meios-irmãos’ e tentando evitar a possibilidade de um incesto ‘não programado’, essas pessoas descobriram que, de um mesmo potinho, produziram-se 150 filhos. Os cientistas assustaram-se. Vi também uma propaganda em que um pai diz ao filho que é ele quem deve sentir vergonha de sua prole, já que o garoto não havia vivido nada do que ele, o pai, tinha experimentado. Lacan, em 1962-1963, havia proposto dar um seminário sobre ‘Os nomes do pai’, pluralizando a noção clássica de pai. Era a evidência da emergência do pai real. Em vez disso, viu-se levado a falar sobre a angústia durante todo aquele ano.

Lacan nos diz que não só a ciência se ocupa do real; a psicanálise também. E o encontro com o real produz angústia. Isso interessa à psicanálise: “é disso que se ocupam os analistas, de modo que, ao contrário do que se acredita, eles são muito mais confrontados com o real do que os próprios cientistas. Os analistas só se ocupam disso. São forçados a sofrê-lo, isto é, esticar as costas o tempo todo. Convém para esse fim que estejam couraçados contra a angústia. Já é alguma coisa que eles pelo menos possam falar da angústia” (Lacan, 1974). Lá pelas bandas onde se produz a maçã do desejo (a escolha simbólica não é sem razão) é também onde se sonha e fantasia com superbactérias. Os filmes mostram isso. O sonho que um flagelo resistente a tudo pudesse destruir a humanidade, no final das contas sempre tem um final feliz, mesmo quando o final é a transformação da humanidade em uma população de zumbis ou de vampiros. E por que esse final é feliz? Porque assim os cientistas e suas superbactérias ficam livres da angústia de lidar com o real, que tem sua expressão maior na morte. Desse modo se evita a morte. Me encanta que os norte-americanos não se angustiem, essa expressão quase sumiu da língua cotidiana — eles ficam ansiosos. E talvez por isso, na terra dos zumbis, vampiros e maçãs, a psicanálise não tenha tido tanto sucesso…

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