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O existencialismo bizarro de Santiago Nazarian

Em setembro de 2009, entrevistei o escritor Santiago Nazarian. Ele havia acabado de publicar O prédio, o tédio e o menino cego. Falamos de carreira, dos livros anteriores, de seu processo criativo, da relação com a mídia, de sexualidade, tradução, filosofia… Confira essa entrevista inédita com um dos nossos grandes talentos literários. Santiago tem muito que dizer além dos livros, e sabe muito bem o que está dizendo.

Desde a publicação de seu primeiro livro, Olívio, vencedor do Prêmio Fundação Conrado Wessel, suas obras vêm desafiando a crítica, no sentido de você ser um escritor amado e odiado ao mesmo tempo. Como você encara esse poder da imprensa e da crítica de moldar o leitor em relação ao que o público deve ou não considerar consumível? Você acha que a crítica tem esse poder, ele é importante?

Bem, para começar, sinceramente, não me sinto “odiado” pela crítica. Conto nos dedos as críticas negativas, e ainda assim, foram de pessoas que não gostaram de um ou outro livro meu; nunca desceram publicamente a lenha em mim como escritor. Isso de certa forma é uma surpresa, porque eu nunca tive compromisso com o bom gosto e sempre espero (ou tenho receio de) críticas mais negativas, que não surgem. Mas também não me sinto “amado”, muito menos compreendido; são raras as críticas em que sinto que entenderam o que queria abordar, qual era o meu ponto. De qualquer forma, crítica literária não tem mais poder nenhum no Brasil; talvez tenha um pouco de influência ainda nas premiações – que são importantes, claro. Mas prêmio literário também não vende livro, e o grande público não lê resenha em jornal. O que vende é – principalmente – o boca a boca. Se houver uma divulgação extra em TV, jornal e revista, melhor, mas crítica em si não vende. Até porque, já não há mais críticos respeitados, reconhecidos, então quem lê uma eventual crítica procura, antes de tudo, uma sinopse, para ver se o tema, a história é interessante, independentemente da avaliação ser positiva ou não.

Você abandonou o curso de Letras logo no início e já chegou a afirmar que contesta a situação do acadêmico-escritor. Você não considera a teoria literária importante para a formação do escritor? É claro que a teoria não é necessária para o conhecimento da tradição, mas o escritor deve romper com a geração anterior de alguma maneira? De que forma o academicismo poderia ser “prejudicial” — se é que podemos falar em prejuízos na literatura?

Mais do que “romper com a geração anterior”, acho que o escritor precisa encontrar sua voz. Assim essa ruptura se dá de forma natural. Hoje eu sinto que há um peso literário sobre mim, eu sigo muita coisa que já foi feita, claro, é inevitável. Mas também já conheço meu universo, meus temas, minha voz, e me sinto confortável para fazer coisas que ainda não vi no papel, na literatura. Conhecer o que já foi feito – e como já foi feito – anteriormente é importante, mas o que você não conhece também faz parte de um repertório, ajuda a formar quem você é. Então se estão todos estudando e reverenciando Machado, talvez os novos escritores devessem estudar outras coisas… O que me incomoda na academia são os cânones, sabe? As unanimidades… Eu prefiro procurar meus heróis particulares; até porque, não me identifico com os “grandes” que ainda estão sendo reverenciados por aí. Machado de Assis é o maior escritor brasileiro? Pode ser. Mas Caio Fernando Abreu teve muito mais importância na minha vida. Caio reverenciava Machado? Bem, mais uma razão para eu seguir em outra direção. As leituras obrigatórias só fazem com que as escritas fiquem cada vez mais parecidas.

Como aconteceu seu primeiro livro? Falo de A morte sem nome, primeiro escrito, segundo publicado. Você já escrevia coisas esparsas na adolescência — mas de onde veio a vontade de escrevê-lo, como surgiu a ideia e por que você achava que esse turbilhão daria um livro? Você queria, nessa época, ser de fato um escritor?

Na época de A morte sem nome eu já era um escritor. E tinha plena consciência disso. Eu sabia que estava escrevendo um livro-livro. Antes dele, escrevi várias coisas, tentativas de romances, que não levavam a lugar algum. De toda forma, eu já sentia prazer com isso, sabia que é o que eu mais gostava de fazer e é o que eu faria pelo resto da vida – ganhando dinheiro com isso ou não, publicando ou não. Eu era um escritor e sentia que tinha talento – mas sentia também que ainda não estava encontrando a forma, não estava conseguindo me expressar. A morte sem nome foi uma epifania, o momento em que eu consegui transmitir aquela corrente elétrica da minha mente pelos dedos, para o teclado e a página. Agora, eu não pensava em publicação, reconhecimento, nada. Tanto que escrevi o livro e simplesmente guardei. Bem, mostrei pra uns amigos, minha mãe… Mas não mandei pra editora alguma. Não achava que faria diferença, mesmo que fosse publicado. Eu não via muito sentido em publicar, na verdade… Até hoje eu questiono um pouco se há sentido em publicar. Eu poderia estar escrevendo ainda por prazer – e ganhar dinheiro com qualquer outra coisa, mais dinheiro, poderia até ser alguma coisa que me desse prazer, sei lá. Mas me lembro do que minha mãe me disse naquela época, quando eu questionava o motivo de mandar o livro para algum concurso, ou alguma editora. Eu perguntava por que eu deveria fazer isso. E ela disse simplesmente: “Porque isso está ocupando um espaço muito grande e importante na sua vida, e você não pode viver com isso escondido.”

Sobre seu terceiro livro, Feriado de mim mesmo, considerando o modo como vive o personagem — trancado em casa, traduzindo —, você diria que este livro é o que teria mais traços de quem você é hoje? Como encara a relativa solidão do seu trabalho, ou não acha que a solidão necessariamente se relaciona com o ser escritor/tradutor?

Feriado de mim mesmo é um livro muito objetivo. É quase eu me olhando de fora; todos os meus outros livros são muito mais pessoais, falam muito mais do meu universo interno, meus ideais… Veja só, Feriado de mim mesmo não tem meninos andróginos com franja na cara, nem répteis… ESSE é meu mundo – meninos andróginos e répteis. Haha. Então eu não acho que Feriado tem tanto a ver comigo – mas claro que visto de fora, objetivamente, tem muito da minha rotina, é o livro que tem mais fatos concretos da minha vida. E tem a bandeira do individualismo, que é minha. A literatura para mim é a arte perfeita por eu poder trabalhar sozinho. Adoro trabalhar sozinho, viver sozinho, sou muito individualista. Mas não acho isso uma regra para o escritor/tradutor. Tem muito escritor bom por aí casado, escrevendo com filhos correndo em volta do computador. Costumo dizer que a literatura não se alimenta da solidão, só a viabiliza.

Uma característica interessante no seu estilo de escrita é a repetição e retomada das palavras de forma enfática — um elemento da frase anterior dá início à frase nova e a escrita vai se desenvolvendo como uma costura feita à mão, uma espiral. Você pensa nessas questões de estilo quando escreve, ou seja, modifica muito o texto para que ele tenha esta ou aquela estrutura, ou tudo se dá de forma espontânea? Pergunto o mesmo em relação às imagens que você descreve no livro, bem como os personagens: eles são criados antes da escrita ou o processo é simultâneo? Ou nada disso?

O estilo é natural, espontâneo. Vai surgindo com a musicalidade do texto, como ele flui na minha cabeça e como eu gosto ritmicamente. Isso é mais intuitivo do que racional. Mas às vezes eu releio um parágrafo e penso: “hum, estou desperdiçando uma oportunidade aqui; esta palavra poderia rimar com esta outra, se eu repetir aquela frase vai ecoar aquela lá de cima.” Então sempre surge espontaneamente, mas às vezes é reforçado conscientemente. Já as imagens e personagens geralmente ficam fermentando dentro de mim antes de eu colocar na página. Em O prédio, o tédio e o menino cego, por exemplo, eu já tinha os sete meninos antes de começar a escrever o livro, já sabia que o livro teria três partes com sete capítulos cada, e o que aconteceria em cada parte. Mas, na maioria das vezes, os personagens nascem de uma forma e vão se alterando espontaneamente.

É como vemos em O prédio, o tédio e o menino cego com os nomes plurais dos personagens, por exemplo. Acredita que esse tipo de estrutura seria possível sem uma reescrita? Até que ponto essa reescrita é eterna — quer dizer, já teve a sensação de que algo fundamental deveria ser mudado depois do livro publicado? Quando considera o livro “pronto”?

Prédio foi muito reescrito. Porém foi mais reescrito para preservar a ideia original do que para alterá-la. Eu tinha os sete meninos e uma professora assassina – essa era a ideia. Foram surgindo várias coisas no meio do caminho, muitas das quais ajudaram a contar essa história. Agora, teve coisas paralelas, ideias bacanas que surgiram, mas que não se encaixavam realmente naquela trama. Nessas horas, você não pode ter dó de cortar, nem pode querer colocar tudo num romance só… Um exemplo, há uma cena no livro em que um policial entra numa boate. Ele entrava numa boate lotada, e havia toda uma observação do que acontecia lá, da cultura da noite, e do próprio deslocamento do policial naquele lugar… Mas aquilo não se encaixava exatamente na história, já era final do livro, um momento apocalíptico em que a cidade já está vazia, seca, deserta, cheia de pragas. Achei que não era o momento de descrever uma boate lotada – aquilo tinha surgido mais como vontade minha de ter uma cena de nightlife do que necessidade da história. Então modifiquei. Outro corte – bem mais importante – foi em relação ao narrador, que era outro ser, com outra história, que ia para outro lado da história da professora com os meninos. A história faz sentido, pode se encaixar no livro que foi publicado, mas dispersava do foco central, então cortei. Essa reescrita pode ser eterna, claro, mas tem uma hora que você mesmo não agüenta mais. Ou que você já está embrenhado em outro livro, e tem de soltar aquele, porque senão ele deixaria de ter sentido para você. Eu considero o livro pronto quando estou com um misto de satisfação e cansaço com ele. E a editora tem de aproveitar esse timing, porque logo minha impressão muda, e eu deixo de ficar satisfeito, ou cansado, ou ambos… E volto a reescrever.

O escritor é responsável pelas mudanças que acontecem na língua? Você acha que a literatura subverte — e deve subverter — a língua ou colabora para manter seus padrões gramaticais? E a tradução?

Hoje em dia o escritor não tem poder de mudança em quase nenhum campo. Os blogs, a internet, as novelas e programas de TV e o boca a boca têm muito mais influência nas mudanças da língua do que o escritor. Até porque, o escritor fala com uma minoria que não é tão facilmente influenciável.

Quando falamos em existencialismo, uma das primeiras coisas que vem à mente é a questão da liberdade incondicional, ainda que situada, o “condenado a ser livre” do Sartre, a supressão de Deus por uma ética humana, a liberação sexual e, obviamente, a angústia da existência. Você chegou a definir seus escritos como um “existencialismo bizarro”. Até que ponto podemos relacionar as coisas e dizer que sua obra como um todo, e não apenas seu último livro, é carregado de questionamentos existenciais aliados à excentricidade?

“Existencialismo bizarro” é apenas um rótulo que eu criei para facilitar. Talvez todo existencialista tenha algo de bizarro, ou excêntrico, por ser um ser que questiona o próprio ser, ok. Mas a ideia do existencialismo bizarro é unir esses questionamentos filosóficos com referências da cultura pop, como os zumbis, os assassinos seriais, videogames. Eu poderia chamar de “existencialismo pop”, mas meu lado pop se dá principalmente pelas referências ao universo trash, de filmes de terror, da cultura gótica, por isso o termo “bizarro”. E acho que isso aparece de forma mais flagrante nos dois últimos livros – Mastigando humanos e O prédio, o tédio e o menino cego.

Você é um profissional que não esconde sua sexualidade e talvez por isso não se fale tanto no assunto. Até que ponto a sociedade está preparada para aceitar os gays sem que para isso o talento profissional fale mais alto?— digo, parece haver uma tendência na sociedade brasileira de aceitar bem a sexualidade dos gays bem-sucedidos. É importante mostrar a cara ou há outros caminhos?

Bem… Não acho que a sociedade aceite bem nenhum malsucedido, independentemente da sexualidade. Aceita gays bem-sucedidos como aceita héteros bem-sucedidos. E talvez parte de ser “bem-sucedido” já implique ter tido essa aceitação. Com isso eu não quero dizer que não há preconceito, ou que as regras são iguais para gays e héteros. Mas eu vivo como privilegiado – sou filho de artistas, nasci e cresci nos Jardins, em São Paulo, trabalho num meio em que a homossexualidade não é um problema. Talvez, se eu fosse hétero, eu teria me tornado um galã das letras? Pode ser. Mas provavelmente, se eu fosse hétero, não estaria tão em forma, não me vestiria tão bem – hahaha. No contexto em que vivo, perde-se algumas coisas, ganha-se outras. Tenho consciência de que muitas pessoas que leram e resenharam meus livros eram homossexuais, e o fato de eu ser foi um ponto a favor para elas – tem o lobby desse segmento. É um ponto contra em outros casos, mas… como eu disse, vivo num contexto privilegiado. E por isso mesmo acho que seria covardia não dar as caras, não me assumir. Não é um grande esforço para mim. E posso servir de exemplo positivo para moleques que estão se descobrindo, para senhores de família enrustidos. Tenho contraexemplos concretos neste campo. Veja, não há muita referência de homossexuais na grande mídia, além dos estereótipos. Eu não sou militante da masculinidade, não acho que homossexuais devam ser discretos, mas sou a favor sim da diversidade, de que as pessoas possam ver que o homossexual é a bicha louca, o pai de família, o escritor esquisito, o bofão de academia, e muito mais. Os únicos tipos que aparecem são aqueles que não conseguem se esconder. Dizem que um galã da Globo não poderia se assumir gay, porque perderia o público feminino. Será? As meninas mais bem informadas já sabem quais galãs são gays… E muitas meninas da nova geração têm uma tara especial por gays. Talvez essa revelação gerasse uma resistência inicial, mas logo se tornaria normal. Afinal, a dona de casa padrão só vai poder sonhar com Gianecchini, seja ele gay ou não.

Parece haver um estigma herdado do — e reforçado pelo — academicismo de que o escritor deve ser sério e cult. Você faz parte de um universo que transita entre o pop e o underground, está constantemente na mídia, talvez distanciado dessa parcela dita “cult”. Então, você usa sua literatura para viver à margem do que acontece como produção literária nacional ou acredita estar inserido num possível “hall de escritores” brasileiros?

Eu não posso mesmo dizer que me sinto perseguido ou que não tenho espaço. Veja, eu estou no Programa do Jô, mas também sou resenhado no Rascunho, na Bravo, sou convidado para eventos literários, inclusive fora do Brasil. Acho que tenho meu espaço no “hall de escritores brasileiros”. Por enquanto, tenho um pé de cada lado, tenho o apelo pop, mas ainda tenho certo prestigio dentro do meio literário.

Você é um escritor bem divulgado. Essa divulgação parte de você ou da editora com a qual trabalha no momento? A divulgação e a propaganda contribuem para o sucesso do escritor? Você acha que há algum fator na mídia que contribua para que o livro seja cada vez mais visto como “um produto” em vez de “literatura” ou “obra de arte”?

A divulgação parte da assessoria de imprensa da editora, sim. Mas como já estou no quinto livro, já conheço muitos jornalistas que me entrevistaram anteriormente, circulo pelo meio, então também faço meu esforço de divulgação. Quando eu comecei, não conhecia ninguém, ninguém, não sabia nem o nome dos jornalistas de literatura, ou quem eram os outros autores jovens que estavam escrevendo, caí bem de pára-quedas. E a (Editora) Planeta fez um belo trabalho de divulgação comigo, que foi fundamental para eu ser lido e conhecido. Isso manteve a porta aberta para eu continuar publicando por grandes editoras, e as resenhas continuaram. Agora, divulgação não implica necessariamente em vendas, nem em prêmios. Divulgação é apenas uma questão de prestigio – mas para mim é fundamental, e não apenas por ego: graças a esse prestígio que eu consigo outros trabalhos, como tradução, pareceres, resenhas, textos para jornais etc. Para mim, é uma questão de sobrevivência.

Quando você começou a traduzir e como aconteceu o processo? Você costuma conversar com os autores que traduz? E em relação ao texto, você considera sua tradução dependente do original ou compartilha da ideia de que obra traduzida é sempre uma nova obra, ou seja, o tradutor é coautor? Encararia o desafio de traduzir obras bem diferentes do seu universo, como um livro de ciência?

Eu leio em inglês há muito tempo. Já viajei muito, morei na Inglaterra por alguns meses em duas ocasiões. E achei que fosse natural – sendo escritor e falando bem inglês, que eu pudesse traduzir. Mas confesso que nas primeiras traduções eu estava bem cru, cometi erros terríveis de que me envergonho muito, e a coisa foi indo no tranco. Agora sou tradutor há cinco anos, já traduzi mais de vinte livros, então estou mais preparado, é um aprendizado diário. Em cada livro eu estou melhor do que no anterior. É raro eu escolher o que vou traduzir, já traduzi coisas que não tinham nada a ver comigo – mas não costumo traduzir livros técnicos; geralmente traduzo literatura, ou biografias ou juvenis. Troquei alguns emails com alguns autores, não só para tirar dúvidas, mas para elogiar o trabalho. O único autor que traduzi que conheci pessoalmente foi JT Leroy, que acabou se revelando uma farsa. Quem escrevia os livros não era quem eu conheci… mas essa é outra história. E eu não considero que o tradutor é um coautor, ele trabalha a serviço de um livro já escrito, assim como o diagramador, o editor, o revisor.

Você mantém um blog, mas não escreve literatura nele. A internet facilitou a divulgação da escrita, mas também a banalizou: hoje o leitor tem uma gama infinita de possibilidades de leitura. Aí tocamos em vários pontos. Você acha que esse conceito rizomático da rede, de que uma informação leva à outra e à outra, facilitou a propagação da informação e sua consulta à ela ou só aumentou a superficialidade do que é dito e a divulgação de não verdades? Se você não tivesse nada publicado, escreveria em blogs? Acredita na literatura que começa em blogs e depois é levada para os livros impressos?

Para começar, informação é um conceito relativo… Haha, ok, não é um conceito relativo, queria dizer, é supervalorizada. Acho que informação é importante, e a internet ajudou muito, muito, MUITO nesse quesito. A tal ponto que a informação perdeu parte de seu valor, porque todo mundo pode ter. Antigamente você podia dizer: “Ei, eu conheço tal banda, tenho tal disco,” porque isso mostrava não só um repertório muito particular, mas toda uma busca, todo um acesso. Hoje em dia todo mundo pode saber de tudo, encontrar tudo, basta o interesse. Mas é importante o interesse. Hoje eu vejo um filme de que gosto, e procuro a filmografia inteira do diretor na rede, dos atores, pesquiso sobre o tema, leio críticas… Coisas que seriam quase impossíveis sem internet. Então eu tenho uma visão muito positiva da net. Eu fui o adolescente que gostava de bandas que ninguém conhecia, mas alguns meses depois fui o adolescente que podia pesquisar sobre essas bandas na net. Eu vivi essa virada. Agora como escritor… Eu também vivi essa virada. Comecei a publicar antes de ter blog. Só fui fazer o blog (tarde) depois do segundo romance, para divulgar meu trabalho. E hoje acho fundamental. Você não pode depender de jornal para divulgar que vai participar de um debate em Ribeirão Preto. Eu uso o blog antes de tudo para isso. E também é importante como veículo alternativo de opinião. Para falar de coisas que gosto, sejam novas descobertas ou obras consagradas. Tenho consciência de que não sou um grande formador de opinião, mas hás pessoas interessantes que leem meu blog, e posso fazer algumas coisas desconhecidas repercutirem. Então a rede está aí, para quem quiser tirar o melhor proveito dela. Já ouvi muito: “Seus posts são muito longos, têm muito texto”, como se isso fosse um defeito. Para esses, vira e mexe coloco fotos, até de cuequinha… Haha. Mas a pergunta final é se acredito na literatura que começa em blogs? Acredito. Embora não tenha visto ainda bons exemplos… E eu teria feito isso, acho que sim. Embora tenha começado o blog depois de ter publicado, acho que se eu não tivesse publicado, teria começado o blog como uma via de escape. O que pode ser um equívoco – veja – não acho que a internet seja a melhor porta de saída (ou entrada?) para os novos escritores.

Influências, quais são? Elas te acompanham até hoje? Se perduram, podem ser abandonadas? Há algum momento em que se possa afirmar uma completa independência no processo criativo? Você costuma falar em escritores que gosta, mas não de filósofos. Você lê filosofia? Considera-se influenciado por ela a ponto de haver reflexos na sua obra?

Ahhhh… Essa é a eterna pergunta. “Quais são suas influências?” Tenho meia dúzia que repito: Oscar Wilde, Caio Fernando Abreu, Franz Kafka, Thomas Mann, João Gilberto Noll, Dennis Cooper. Mas sinceramente… eu não sei muito bem como funcionam as influências… Quero dizer, não acho que elas te moldam tanto quanto são um reconhecimento, uma identificação – “isso já existe em mim.” Talvez a influência seja isso em si. E por isso não pode haver essa independência, porque se você tem repertório, sempre fará a ligação com algo que já leu, não saberá se há uma influência em si. Por exemplo, Clive Barker, que é um autor que eu já li muito, nunca gostei muito, sempre leio com pé atrás, mas acho interessante, tem bons conceitos. De vez em quando eu leio um texto meu e acho que tem muito dele. E nem mesmo sei se aquele texto foi escrito antes ou depois de determinado texto de Barker que pode tê-lo influenciado. Porque você não é influenciado só pelo que gosta, é por tudo o que consumiu. Eu li muito filosofia na escola, na faculdade. Fui aluno do (filósofo) Luiz Felipe Ponde. Quando moleque eu lia, Nietzsche, Schopenhauer, esses malditos previsíveis. Adorava as ideias de misoginia do Schopenhauer… ahaha.

Seus livros já estão sendo adotados como leitura complementar no Ensino Médio e logo serão vistos nos vestibulares e nas teses acadêmicas. O que você vê na sua obra que pode ser objeto de estudo na academia? De certa forma, isso teria alguma ligação ou reforçaria sua atitude de não corroborar com acadêmicos escritores?

Isso eu não sei. Para ser sincero – sem querer ser pedante – meus livros já entraram em teses, vira e mexe alguém me fala de alguma tese de mestrado, mas isso não é realmente importante para mim. Não estou falando com um desdém calculado, é algo que não se materializa para mim; eu me envaideço porque sei da importância que dão para a academia, que talvez a pessoa esteja estudando aquilo há meses, mas não se comunica com meu mundo, e nem sei se comunica-se com alguém além de quem está defendendo a tese. Os livros serem adotados no Ensino Médio também não me dizem muito – fico muito, muito mais satisfeito quando vejo que um adolescente buscou o livro espontaneamente.

Nos momentos de angústia, crise e sofrimento, quando os artistas costumam se dizer mais criativos e inspirados, você escreve mais? Você depende desses momentos para escrever ou consegue trabalhar como escritor em qualquer momento? Digo, seu estado emocional é motivação para a escrita ou motivo de não escrita?

Acho que, para mim, não acontece de maneira tão direta assim. Angústia, crise e sofrimento são inevitáveis para quem vive com um mínimo de consciência e olhar crítico, então são inevitáveis para o artista. Mas eu não poderia dizer que uma determinada crise influencia diretamente a minha obra, principalmente por eu escrever romances e contos longos; minha obra não se comunica com meu dia-a-dia ou com meu estado presente de espírito. Quando eu começo um romance, tenho uma história, um personagem, e tenho de seguir daí, no tom disso, por meses e meses, passando por dias de sol e chuva. Talvez um estado de espírito momentâneo se manifeste de alguma forma em alguma passagem, mas eu sinto claramente que minha literatura já não satisfaz mais minhas necessidades imediatas de expressão – como satisfaziam quando eu comecei, quando escrevia contos mais curtos ou mesmo tentava escrever poemas. Agora, há aquelas angústias mais profundas, estruturais, aqueles dilemas de vida, indagações que acompanham a gente por anos e anos, essas acabam influenciando minha obra muito mais do que “momentos de crise”.

Vive-se de literatura no Brasil? Pegando um gancho com essa questão que não deixa de ser política, a que se deve a baixa produção literária no país? Há poucas obras nossas e muitas traduções — por quê?

Vive-se de literatura e não há poucas obras. Há muitas obras, muita gente publicando, mais do que em qualquer ponto da nossa história; o problema é que não há leitores. Publica-se muito, mas não se lê. As tiragens vão diminuindo, os espaços nos jornais também. Porém o escritor ainda pode sobreviver. Eu sobrevivo de literatura – de traduções, resenhas, matérias, tudo relacionado à minha escrita. E não me queixo por isso. Considero esses trabalhos complementares, aprendo muito com isso.

Durante sua escrita, você pensa na avaliação e na reação dos críticos literários, dos editores e do público — como se escrevesse determinada frase e pensasse: o que acharão? Depois de publicados, você se interessa pela crítica e pelo que falam dos seus livros?

Sim, claro, eu ofereço o que quero oferecer, mas fico pensando em como aquilo irá ecoar nas pessoas, o que acharão das minhas idéias. O frustrante é sempre ter feedbacks tão rasos, apressados e curtos, seja de editores ou críticos. Na verdade, os leitores espontâneos é que acabam mandando emails mais interessantes, fazendo relações inusitadas, apontando trechos específicos, porque não têm compromisso com uma forma, nem com um tamanho de resenha.

O personagem Thomas Schimidt costuma aparecer em seus livros. Quem é ele?

Um dândi andrógino e um tanto quanto decadente. Um pouco do que eu queria ser e do que eu já fui. Talvez seja meu retrato de Dorian Gray; ele permanece mais jovem do que eu. Mas eu não o invejo.

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