ZBIGNIEW HERBERT
PAP/CAF-P. JANOWSKI
/AW/

Estudo do objeto – Zbigniew Herbert

O escritor polonês Zbigniew Herbert (1924-1998) sempre foi, para mim, um sujeito misterioso. O poema aqui traduzido, “Estudo do objeto” (Studium przedmiotu), chegou às minhas mãos pela primeira vez numa cópia manuscrita, em polonês. Eu tinha 12 anos e não fazia a menor ideia de que língua era aquela. Guardei o papel durante anos. Depois de entrar para a faculdade, descobri pesquisando no Google que se tratava de um poema do polonês, mas não conhecia nada da língua, e não havia nada do autor em português. Talvez em inglês, mas fora do meu alcance.

ZBIGNIEW HERBERT PAP/CAF-P. JANOWSKI /AW/

Algum tempo depois assisti a um vídeo chamado “Dois Poemas”, de João Moreira Salles. Para minha surpresa, o texto do vídeo era composto de trechos de poemas de Zbigniew Herbert. Era o impulso que faltava para que eu buscasse entender o que queria dizer o poema. (Acabei descobrindo que trechos desse poema foram usados no vídeo de Salles.) Encontrei duas traduções, uma em inglês, outra em espanhol. Coincidentemente, na época eu estudava a fenomenologia de Husserl, e não precisou muito para que eu entendesse a epoché de Zbigniew Herbert em grande parte de sua poesia: o tratamento que dava ao vazio, a suspensão do conhecimento das coisas e do mundo, deixando de lado a existência real do que se contempla para descrever a coisa quase esvaziada de significados. “O mais belo é o objeto que não existe” não por ser um nada, mas por ser a pura possibilidade de ser. A beleza suprema do que não existe costuma ocupar poetas (Pessoa, Válery) e filósofos, mas foi aqui, em Zbigniew Herbert, que encontrei sua expressão mais sublime. Afinal, o que vem antes: a existência ou a essência?

A tradução que apresento foi feita a partir de um cotejo cuidadoso do original em polonês com a tradução inglesa de Czeslaw Milosz e a espanhola de Xavier Farré. Uma tradução intersemiótica de alguns elementos foi realizada por mim no vídeo Cartas a Théo.

Estudo do objeto

Zbigniew Herbert
Tradução: Rogério Bettoni

1
o mais belo
é o objeto que não existe

ele não serve para carregar água
nem para preservar as cinzas de um herói

não foi acalentado por Antígona
nem nele um rato se afogou

de orifício, nenhum resquício
pois é completamente aberto

visto
de todos os lados,
quase não é
antevisto

os feixes de todas as suas linhas
confluem num jato de luz

nem
cegueira
nem
morte
podem roubar o objeto que não existe

2
marque o lugar onde ficava
o objeto
que não existe
com um quadrado negro
ele será
um mero réquiem pela bela ausência

vigoroso lamento
aprisionado
num quadrilátero

3
agora
todo o espaço
dilata-se como um oceano

um furacão fustiga
o veleiro negro

a asa de uma nevasca
circunda o quadrado negro

e a ilha submerge
sob a disseminação salina

4
o que se tem agora
é espaço vazio
mais belo que o objeto
mais belo que o lugar que ele deixa
é o antemundo
um paraíso branco
de possibilidades
lá você pode entrar
gritar
vertical-horizontal

relâmpagos perpendiculares
golpeiam o horizonte nu

podemos parar aqui
de todo modo você já criou o mundo

5
oriente-se
pelo olho interior

não se renda
a murmúrios sussurros estalidos

é o mundo não criado
impresso nos portões da paisagem

anjos ofertam
chumaços rosados das nuvens

por toda parte árvores implantam
filamentos verdes desalinhados

reis celebram a púrpura
e comandam trompetistas
auricolores

até a baleia pede um retrato

oriente-se pelo olho interior
nada aceite além

6
extraia
da sombra do objeto
que não existe
do espaço polar
das inflexíveis quimeras do olho interior
uma cadeira

bela e inútil
como uma catedral no deserto

ponha sobre a cadeira
uma toalha de mesa amarrotada

adicione à ideia de ordem
a ideia de aventura

que seja uma confissão de fé
diante do vertical em combate com o horizontal

que seja
mais silenciosa que anjos
mais orgulhosa que reis
mais verdadeira que uma baleia
que tenha a face das últimas coisas

pedimos que a cadeira desvele
as dimensões do olho interior
a íris da necessidade
a pupila da morte

7 comentários sobre “Estudo do objeto – Zbigniew Herbert

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