alternate text

A pulsão é surrealista (e por isso é real)

Direi que, se há algo com que se parece a pulsão, é com uma montagem. Não é uma montagem concebida numa perspectiva referida à finalidade. […] A montagem da pulsão é uma montagem que, de saída, se apresenta como não tendo nem pé nem cabeça – no sentido que se fala de montagem numa colagem surrealista. […] creio que a imagem que nos vem mostraria a marcha de um dínamo acoplado na tomada de gás, de onde sai uma pena de pavão que vem fazer cócegas no ventre de uma bela mulher que lá está incluída pela beleza da coisa.

— Lacan, 2 de maio de 1964. —

Dois seriados de televisão parecem fazer bastante sucesso nos dias de hoje: CSI (série sobre investigadores/peritos criminais) e House (que trata do cotidiano do departamento de investigação diagnóstica de um hospital). O que me chama atenção em ambas as séries é o modo como as personagens lidam com a realidade: são afeitos aos fatos. Dr. House e os investigadores de CSI têm o mesmo mote: pessoas mentem, fatos não. Quando fiz a constatação dessa ‘coincidência’ nas séries, me recordei do movimento surrealista.

O surrealismo, movimento iniciado na década de 1920, surge não como uma nova escola artística, mas sim como um novo meio de conhecimento. Em 1924, logo depois do movimento dadaísta (ou movimento Dadá) e da passagem de Tristan Tzara em 1922 por Paris, Breton publica o Manifesto surrealista. Breton fazia uma constatação na época: o império da lógica racionalista ignorava a existência de uma realidade absoluta, uma realidade surrealista. Breton nos mostra como o racionalismo absoluto não permite senão considerar o mundo dos fatos – onde as coisas tem ‘usos’. A seu ver, isso traria como consequência uma limitação da experiência humana, deixando de lado o inconsciente, o maravilhoso, o sonho, a loucura, os estados alucinatórios, ou seja, o avesso do lógico-pragmático. Breton, médico de formação, vivenciou a experiência do encontro com a obra de Freud, mediada por um livro-texto de Régis (Freud ainda não havia sido traduzido para o francês). Esse encontro com a valorização da Outra cena provocou um efeito de acontecimento para Breton. A associação livre que rompia com as regras formais do pensamento se torna a chave do conhecimento e da produção surrealista. Breton propunha uma escrita que fosse como um pensamento falado, livre das regras da censura da estética, da moral, da lógica, da pragmática. É assim que ele define de forma memorável o surrealismo:

SURREALISMO, s.m. Automatismo psíquico em estado puro mediante o qual se propõe exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, ou por qualquer outro meio, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de todo controle exercido pela razão,alheio a qualquer preocupação estética ou moral.

Penso que em épocas de ‘medicinas baseadas em evidências’ (CSIs da clínica que muitas vezes nos tratam como corpos sem sujeito) e de psicologismos afeitos à pragmática comportamental da existência, é preciso recuperar o conceito de pulsão de Freud, já que, como nos disse Lacan, a pulsão é a montagem surrealista da psicanálise. A pulsão é um conceito psicanalítico de difícil apreensão: nem somático, nem psíquico, é vida mas também é morte, sustenta os laços sociais mas é também motivo de ruptura. Sua força constante é motor do aparelho psíquico, porém seu quantum é variável. Penso ser a pulsão um dos conceitos mais atuais da psicanálise. Vivemos sob a égide das compulsões – drogas, jogos, comida, internet, tudo se torna um possível objeto de satisfação da pulsão. E a pulsão só almeja isso – satisfação! Mais! Mais! A ausência de pensamento que ocorre no exercício da pulsão é de surpreender: ‘eu não sei porque faço… quando vi já fiz’, diz o falasser dividido pela existência de um corpo. Há uma clássica experiência: liga-se um eletrodo conectado a uma barra que, quando pressionada, estimula os centros de prazer do cérebro de um roedor. O resultado inevitavelmente é o mesmo – o rato aperta a barra até morrer. A meu ver, esse é o melhor modelo experimental para se entender o que acontece com o usuário de crack. Por isso não consigo me convencer dos argumentos trazidos pelos mais afeitos às pseudociências contemporâneas, quando dizem que a pulsão não existe; tentam transformá-la em ‘instinto’. Grosso modo, instinto é uma força motriz com um objeto definido, que visa à preservação do organismo vivo. A pulsão é outra coisa. A definição de pulsão dada por Lacan em maio de 1964, penso eu, é uma das mais interessantes de toda obra. Mostra como a pulsão é acéfala, não é pragmática – não segue agenda de compromissos, nem a organização que a vida moderna almeja. Seu objeto de satisfação é o mais variável possível, desrespeitando toda lei ‘natural’ da sexualidade. A visão pragmática da realidade cobra seu preço: o preço da elisão da pulsão. O ensinamento de Freud parece ter sido esquecido – recusar a pulsão só traz mais compulsão. Ouvi uma história muito interessante alguns meses atrás de um ensinamento zen: conta-se que dois monges – um mestre e um discípulo – caminhavam em meio à forte chuva por uma estrava lamacenta. Ao chegarem a uma encruzilhada, encontraram uma garota encantadora vestindo um belo quimono de seda e com dificuldades para atravessar a encruzilhada. “Ande, venha comigo”, disse o mestre levantando a garota e carregando ela através da lama. Naquele dia o discípulo permaneceu calado até a noite. Ao se aproximarem do templo, o discípulo não conseguiu se segurar mais e disse ao mestre: “nós monges não nos aproximamos de garotas! Especialmente garotas jovens e encantadoras. É perigoso. Por que você fez aquilo?”. “Eu deixei a garota lá”, respondeu o mestre, “e você? Ainda a está carregando?”(1).

A pulsão não é um dado cientificamente quantificável, mas nem por isso deixa de ser real. É preciso dar lugar à existência da pulsão, não para vivê-la sem ‘freios’ ou ‘pseudolivremente’, mas para poder construir, através de algum trabalho associativo, uma bela montagem surrealista.

Para concluir, vai aqui uma sugestão: inspire-se no movimento Dadá como fez Breton para dar mais espaço ao surrealismo que se inscreve no seu próprio corpo.

RECEITA PARA UM POEMA DADAÍSTA:

1. Pegue um jornal.
2. Pegue uma tesoura.
3. Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
4. Recorte o artigo.
5. Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
6. Agite suavemente.
7. Tire em seguida cada pedaço, um após o outro.
8. Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
9. O poema aparecerá com você.
10. E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.

= = = = = = = = = = = = = = = =

(1) Agradeço a Christina Castilho pelo ensinamento e pela referência: “101 Zen Stories”, compiladas por Nyogen Senzaki e Paul Reps, em Zen Flesh Zen Bones, a Collection of Zen and Pre-Zen Writings (Tuttle Publishing, 1998).

= = = = = = = = = = = = = = = =

Leia outra referência ao surrealismo no post Vamos jogar um ping-pong nonsense?, no portal IdeiasBizarras, onde este texto foi publicado originalmente em 23 de outubro de 2011.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s