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A criança de Freud e os kidults de hoje

“Devemos dizer que esta suposta constituição que exibe os germes de todas as perversões só é demonstrável na criança, mesmo que nela todas as pulsões só possam emergir com intensidade moderada. Vislumbramos assim a fórmula de que os neuróticos preservaram o estado infantil de sua sexualidade ou foram transportados para ele. Desse modo, nosso interesse volta-se para a vida sexual da criança, e procederemos ao estudo do jogo de influências que domina o processo de desenvolvimento da sexualidade infantil até seu desfecho na perversão, na neurose ou na vida sexual normal”.

— Freud, 1905. —

Na “semana da criança” já vem se tornando um costume nas redes sociais a troca das fotos dos avatares por fotos de si mesmo quando criança, ou da personagem infantil favorita. E não quero nem entrar no mérito da questão ‘capitalismo e infância’. Nessa semana, o que eu me recordei foi da pesquisa de Philippe Airès realizada em 1960, chamada “A história social da criança e da família”. Em síntese, Airès nos mostra que ‘a infância’ é uma invenção do fim do século XVII. Sua pesquisa evidencia como da Idade Média até os primórdios do século XVII, a criança era ‘paparicada’ nos seus primeiros anos de vida “enquanto era uma coisinha engraçadinha”, diz Airès, e continua: “As pessoas se divertiam com a criança pequena como um animalzinho, um macaquinho impudico. Se ela morresse então, como muitas vezes acontecia, alguns podiam ficar desolados, mas a regra geral era não fazer muito caso, pois uma outra criança logo a substituiria. A criança não chegava a sair de uma espécie de anonimato”. Ou seja, a invenção e o culto à infância são fenômenos modernos.

Teríamos realmente mudado tanto? Ou nos divertimos com nossos macaquinhos impudicos até que eles nos cansem, para logo em seguida solicitar que eles ajam como adultos?

Nossas crianças hoje são mais bem domesticadas – aprendemos a dar pílulas aos nossos macaquinhos impudicos. Aos quatro anos de idade temos enfants já amplamente domesticadas por estabilizadores do humor e moderadores de nomes para lá de espertos: ‘Concerta’, ‘Pondera’ e até mesmo ‘Serenata’. Enquanto isso, nossos adultos cultuam a fantasia de um infantil idealizado. Importante lembrar o ensino dos Lefort – a criança é um analisando em plenos direitos, e assim sendo deve poder ter acesso a palavra. E todo analista que se preze deve ter conduzido ao menos um tratamento de uma criança.; deve ter enfrentado ao menos uma vez o ‘perverso polimorfo infantil’, ou melhor dizendo: o exercício da pulsão. Penso que essa clínica tem muito a ensinar aos analistas que hoje se deparam com uma ‘epidemia de compulsões’. Mas folheando um hebdomadário local, li que há um nicho de mercado nos jogos para jovens adultos (Legos, videogames e brinquedos em geral) – não é disso que estou falando. Brincar é um ato saudável e, a meu ver, altamente recomendado. Porém até para brincar existem regras – e já diz o ditado: quem não sabe brincar, não pode ficar no parquinho. O que nossos adultos almejam é um infantil sem Outro – sem as leis e restrições dos pais. São crianças pirracentas – despreparadas para vida, como de forma brilhante elucidou Eliane Brum no texto “Meu filho, você não merece nada”.

Freud nunca acreditou numa infância idílica. Sustentou até o fim um vivo interesse pelo infantil, afinal de contas, o inconsciente é o infantil. O infantil para ele era o momento de enfrentamento das pulsões parciais – o perverso polimorfo de Freud. E a batalha seria sustentada por um desejo – o profundo desejo de crescer. Já nossos jovens de classe média alta parecem não querer crescer. São os chamados ‘kidults’, que se sentem na obrigação de ‘recuperar’ o exercício da pulsão que não pode ser vivido em sua ‘plenitude’ durante a infância. Queixam-se de terem sido ‘reprimidos’ por uma cultura retrógada ou um sistema social excludente. Sentem-se na obrigação de gozar. Porém, como sempre sustentou Jacques Lacan: você não é obrigado a gozar. Esses jovens adultos são neuróticos que ainda acreditam que a causa de sua incompletude é do Outro. Acreditam que com a morte de Deus, o gozo será pleno. Acreditam no poder, no dinheiro, no status social como instrumentos para atingir uma satisfação completa. Aqui vai uma noticia para vocês: o infantil é uma batalha pela sobrevivência, o gozo é parcial, sempre foi e sempre será. Sem o Outro, somos jogados nesse campo de guerra absolutamente desamparados. Recuperar o infantil é uma ilusão. Bom mesmo é conseguir virar adulto para aí então finalmente poder brincar.

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O que eu li e recomendo: ‘Seda’, de Alessandro Baricco, (Companhia das Letras, 2007, 128p). História que mais parece um relato de sensações. O tecido do texto faz jus ao nome do livro. Um amor digno do século XIX.

O que eu vi e recomendo: ‘Control’, de Anton Corbijin (122min, 2007, P&B). Linda película que retrata a vida de Ian Curtis – o genial vocalista de uma das maiores e melhores bandas dos anos 1980, Joy Division.

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A ilustração deste post é de Salvador Dali: O perverso polimorfo de Freud (conhecido também como “Menino búlgaro comendo um rato”), 1939. Técnica: Guache sobre fotografia.

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