Dirigindo na zona de conforto, Tim Burton desperdiça um bom elenco em uma trama que atira para todos os lados e não acerta nem no visual genérico que remete a vários outros filmes.
Tim Burton nunca levou muito crédito como bom contador de histórias. A fama do diretor sempre foi a de ser um talento para criar climas e embalar narrativas um tanto frágeis em universos visualmente estonteantes. Diante de uma filmografia irregular, o cineasta realizou obras memoráveis (“Edward, Mãos de Tesoura” e “Ed Wood”) e grandes equívocos (“Planeta dos Macacos” e “Alice no País das Maravilhas”). Entre uma coisa e outra, uma série de longas interessantes que se destacam mais pela direção de arte, figurinos e clima soturno do que propriamente pela ousadia narrativa (“Os Fantasmas se Divertem”, “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”).
Mas nada disso impediu o rapaz de cabelos arrepiados, quase um alter ego cinematográfico do vocalista do The Cure, de se tornar um dos principais diretores dentro da máquina hollywoodiana. Criando um universo que contém de tudo um pouco, fantasmas, lendas, alienígenas, heróis dos quadrinhos, adaptações literárias, remakes, uma cinebiografia e um musical, Burton angariou uma legião de fãs e deixou uma marca visual autoral no cinema norte-americano.
Pena que essa marca outrora ousada e criativa tenha se voltado contra o próprio diretor. Se reza a lenda que o sucesso, o dinheiro e o amadurecimento costumam corromper o homem, Burton é mais um exemplo de um diretor antes visionário que se deixou levar pelo sistema e abraçou o comodismo como estratégia de sobrevivência. O fato é que o diretor nunca trabalhou realmente à margem da indústria. Sua carreira começou na Disney, depois ele foi acolhido pela Warner e sempre esteve à frente de produções feitas com muitos milhões e sob as vistas de engravatados de departamentos de marketing.
Ainda assim, Tim Burton se estabeleceu como um autor e optou por projetos nos quais poderia imprimir sua visão, ainda que monitorada. Por vezes conseguiu e realizou trabalhos louváveis. Outras tantas foram em vão, e o resultado são filmes ocos com uma bela embalagem. “Sombras da Noite”, seu mais recente trabalho, não consegue ser nem uma coisa nem outra. Não chega a ser uma aberração, mas está longe de ser relevante, ainda que apenas no quesito visual.
Aparentemente, o filme não poderia ser mais “burtoniano” e dá ao diretor a oportunidade de acrescentar mais uma categoria de estranhos à sua filmografia: a dos monstros e criaturas fantásticas (vampiros, bruxas e lobisomens). Mas “Sombras da Noite” é um trabalho visualmente genérico e narrativamente desequilibrado. Adaptação de uma série de TV cult dos anos 1970, a trama é costurada de maneira apressada e sem brilho e paixão na tela grande. O plot central envolve questões sobrenaturais, vinganças seculares, amores reencarnados e disputas financeiras sem muito critério. Tudo isso interpretado por um belo elenco (Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Helena Boham Carter, Eva Green e mais um punhado de nomes que não tem muito que fazer) desperdiçado em papéis disfuncionais e sem sentido.
Johnny Depp, por exemplo, parece entender o comodismo de Burton como ninguém e repete em Barnabas Collins os mesmo trejeitos de seus últimos trabalhos com o diretor. É interessante vê-lo contracenar ao lado de Pfeiffer e Eva Green, mas a repetição do ator só reforça o clima de preguiça artística que envolve o filme. Pfeiffer, voltando a trabalhar com Burton vinte anos depois da memorável Mulher Gato, não se esforça muito e mais parece um cosplay da Pam, de True Blood. Green é quem parece estar se divertido mais. E Johnny Lee Miller e Jackie Earle Haley são coadjuvantes de luxo.
Alguns poderiam defender que o longa pelo menos apela para os olhos, mas nem isso. Depois de uma explosão de cores, cenários exagerados, figurinos extravagantes e uma miscelânea de efeitos especiais fora do lugar de “Alice no País das Maravilhas”, Burton desacelera um pouco e entrega um filme visualmente mais contido e que não diz muito, remetendo a uma série de outras produções (a derrota da vilã remete à “A Morte Lhe Cai Bem”, a manifestação da mansão é chupada de “A Casa Amaldiçoada”, e o liquidificador de criaturas misturadas na mesma história é feita de modo mais coerente em “True Blood”).
Dirigindo no piloto automático, Burton entrega um filme quem nem fede nem cheira. Se a emoção nunca foi o forte do diretor (à exceção de “Edward Mãos de Tesoura”, “Peixe Grande” e “A Noiva Cadáver”), aqui uma das principais fragilidades do cineasta se revela de forma quase criminosa. Nada do que está na tela importa. As piadas são engraçadinhas. O cenário setentista traz boas referências. A trilha sonora é cool até dizer chega. Mas os personagens e a história pouco importam. Falta coerência e sentido. Falta verdade e ousadia.
O filme pode não chegar a ser um desastre como “Alice no País das Maravilhas” e até diverte quem espera pouco. Mas “Sombras da Noite” deixa no espectador um gostinho de frustração graças ao potencial do projeto e dos nomes envolvidos. O problema é que o longa falha ao se limitar a ser apenas uma comédia boba que gera sorrisos amarelos e não explora nem o terror, nem o suspense potencial da história. Quando a deixa para a continuação surge, só resta ao espectador um longo suspiro de desconfiança. Tim Burton pode nunca ter sido um grande diretor, mas ele já teve mais o que dizer e o que mostrar.
Sombras da Noite (Dark Shadows)
EUA, 2012. 113 min
Roteiro: John August, Seth Grahame-Smith
Direção: Tim Burton
Com: Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Helena Boham Carter, Eva Green, Jackie Earle Haley, Jonny Lee Miller, Bella Heathcote, Chloe Grace Moretz.