Weekend

Weekend

 

Esqueça os romances de plástico com rostinhos bonitos, música açucarada e narrativa melosa. “Weekend” aposta em uma abordagem mais honesta e realista para retratar o encontro entre duas pessoas.

para ler ouvindo
John Grant – Marz

 

De modo simplista, “Weekend” é uma versão gay de “Antes do Amanhecer”. Dois jovens se conhecem e acabam de alguma forma se conectando, mesmo sabendo que o tempo que têm juntos é limitado, já que um deles está de viagem marcada. Nesse pouco tempo que resta aos dois, uma química começa a se desenvolver por meio de muito papo, beijos, sexo, drogas e honestidade de ambos os lados. A premissa é simples, e o desenvolvimento segue o mesmo caminho.

Mas “Weekend” é muito mais do que aparenta ser e está longe de ser uma mera cópia da obra de Richard Linklater. O filme do diretor Andrew Haigh é sincero e se conecta de imediato com o público, levantando uma série de questões a partir do encontro de Russell (Tom Cullen) e Glen (Chris New). Russell é um salva-vidas que vive uma homossexualidade discreta e apenas para os amigos mais íntimos. Glen é um artista e grita para todo mundo que é gay, levantando bandeira e discutindo em um bar o quanto os héteros de lá estão incomodados não com o barulho de sua conversa, mas com a presença dele e dos amigos.

É a partir do encontro de duas pessoas tão diferentes que “Weekend” ganha força e embaralha dois estereótipos bastante comuns ao mundo gay: a “bicha” romântica sempre em busca do amor e o gay amargo e “superior” que usa o sexo como válvula de escape. À primeira vista, o longa é apenas um romance pungente que apresenta por meio de imagens e sons o início de um relacionamento, da aproximação à construção da intimidade e cumplicidade. Mas um olhar mais cuidadoso logo revela que o filme vai além do romance de plástico tão caro ao cinema atual.

Mesmo sendo um belo exercício romântico, “Weekend” abre espaço também para uma discussão mais complexa sobre comportamentos. Ainda que desconhecidos, Russell e Glen não abrem mão de seus ideais e discutem à exaustão seus pontos de vista sobre relacionamentos, algo um tanto incomum nos dias de hoje, quando as pessoas estão mais interessadas em causar uma boa impressão do que serem verdadeiras.

Russell está sempre em busca de algo mais e anota suas impressões sobre os parceiros em uma espécie de diário. Glen, usando a desculpa de um projeto artístico, grava fitas com depoimentos dos homens com quem se encontra. Enquanto um acredita a todo custo em uma relação a dois, o outro brada que não está em busca de um namorado e nunca baixa a guarda em relação à sua descrença. Desses inevitáveis conflitos, saem os melhores diálogos do filme, cheios de paixão e defendidos com convicção por Tom Cullen e Chris New.

A partir daí, as comparações com “Antes do Amanhecer” vão se dissipando. Não é apenas o sotaque dos atores que é diferente, mas a própria abordagem dos dois filmes. As paisagens de Viena de “Antes do Amanhecer” dão lugar a poucos lugares em “Weekend”, essencialmente o apartamento de Russell. E as discussões mais gerais, ingênuas e utópicas entre os jovens Ethan Hawke e Julie Delpy são substituídas por calorosos debates mais maduros sobre relacionamentos e amor.

Pesa a favor do filme uma série de escolhas estéticas, temáticas e de intepretação. O romance e o desejo de Russell e Glen é quase palpável, e a conexão entre os dois é tão verdadeira que até nos faz questionar a tão propalada certeza de que o amor precisa de tempo para surgir. Isso graças à química perfeita entre os atores (belos e talentosos). A comunicação entre os dois se dá não apenas por meio de (muitos) diálogos, mas por olhares e gestos, tornando a atração entre eles algo bonito de se ver na tela grande.

A sensibilidade de Haigh para pouco interferir na narrativa deixa o relacionamento entre os personagens fluir de modo natural. A música do filme é discreta e pontual. A narrativa é esporádica, e a relação causa/efeito é deixada de lado em prol de cenas que estão mais preocupadas em estabelecer a intimidade entre o casal do que propriamente contar uma história (o espectador não tem nem o direito de ver a cena quando os dois se conhecem; ela é apenas sugerida).

“Weekend” vira assim um raro exemplar de romance cinematográfico inteligente. Contundente, melancólico, maduro, adulto, esperançoso e sincero, o filme faz com que o espectador acredite em sua proposta e entra fácil na lista de romances memoráveis, ao lado de “As Pontes de Madison”, “Encontros e Desencontros”, “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, “O Segredo de Brokeback Mountain”, “Namorados para Sempre”… Nesses filmes, assim como na vida, nem sempre o final é feliz.

 

Weekend (Weekend)
ING, 2011, 97 min
Direção e roteiro: Andrew Haigh
Com: Tom Cullen, Chris New

 

 

Sobre o autor

Fábio Freire

Jornalista trintão que entende mais de músicas, filmes e séries do que entende de gente. Mora em São Paulo e escreve vez ou outra no http://pensamentosfabiofreireanos.blogspot.com

  • Diego Araújo da Rosa

    Boa tarde, Fábio.

    Tirei este trecho do blog de um homossexual. Veja como combina com o filme.

    Eu insisti.
    Ainda sentia um resto de força,
    um muito de vontade.
    Me joguei. Se for abismo, que seja em voo livre.
    Te pedi para voltar, para entra onde nunca saiu,
    assentar trono onde é teu território, sendo meu.
    Refrescando a memória,
    lembrando que o amor conhece a esperança,
    e que a esperança salva, faz vida.

    (ToN)

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